Expansão empresarial rompe fronteiras
10/09/2019
Com o fim da 1ª Guerra Mundial, o casal Rudolph e Hildegard Hufenussler - ele, químico, e ela, física - deixaram sua cidade, Mainz, na Alemanha, rumo ao sonho de produzir essências e aromas em terras tropicais. Com um pequeno destilador na bagagem, foram parar em Ibirama (SC), onde morava um amigo de família. Mas com a ideia de exportar para a Alemanha, preferiram instalar-se em Jaraguá do Sul, onde, além da plantação de limão, tangerina e laranja, ideais para a extração de óleos essenciais, havia uma estrada de ferro que facilitaria o escoamento de produtos até o porto de São Francisco do Sul.
 
Em um pequeno galpão de madeira começou a funcionar, em dezembro de 1925, a primeira fábrica brasileira de extratos e essências naturais, usados, sobretudo, na indústria alimentícia. A exportação começou dez anos depois, com as primeiras vendas para o Uruguai. Alemanha e outros países da Europa vieram em seguida. Perseguindo essências típicas de cada região, na década de 1990, foram abertas fábricas na Argentina, Chile, Colômbia e México. E, para aproximar-se do polo agrícola de frutas como acerola, cacau e guaraná, poucos anos depois, foi construída uma unidade em Sergipe. Há quatro anos, começou a produzir também em São Bernardo do Campo (SP), com a aquisição de uma empresa local.
A Duas Rodas é, hoje, líder na produção de aromas para as indústrias de alimentos e bebidas na América do Sul, a segunda na América Latina e uma das maiores do mundo com gestão familiar e capital fechado. Aos 93 e 91 anos, respectivamente, Dietrich e Rodolfo Hufenüssler, filhos dos fundadores, participam do conselho e ainda ajudam as equipes de especialistas em distinguir aromas. Quem não conhece a empresa pode achar até que Duas Rodas é o nome de algum fabricante de motos ou bicicletas. Mas a companhia escolheu o nome ao adotar como emblema o desenho que está no brasão da cidade de Mainz - duas rodas ligadas por uma cruz.
Com o desenvolvimento da indústria alimentícia no Brasil, o mercado interno cresceu e representa 85% da receita, que somou R$ 804 milhões em 2018. Como a exportação, que atende 30 países, têm aumentado - 22% no ano passado - a empresa cresceu mesmo com a crise. Entre 2006 e 2018, a receita aumentou na média de 10% ao ano. Agora, a companhia prepara-se para um salto maior fora do Brasil.
A Duas Rodas está em busca do local ideal para uma fábrica nos Estados Unidos, segundo Leonardo Fausto Zipf, presidente da empresa e marido de uma das netas dos fundadores. "Trata-se de um mercado forte e com moeda consistente", afirma o executivo, que, antes de assumir o comando da empresa foi supervisor e diretor de vendas. Um passo como esse, nos EUA, diz Zipf, ajudaria a empresa a alcançar mais rapidamente a meta de dobrar a participação da receita externa - exportações e operações internacionais, hoje em 15%.

Apesar dos planos globais, Jaraguá do Sul simboliza os valores trazidos pelos fundadores. Zipf diz que não há como não reconhecer "a cultura voltada ao trabalho" que os imigrantes levaram para a região. "Poucos passaram por tantas adversidades como os imigrantes; a capacidade de enfrentar desafios é uma característica fundamental", destaca.

Dentro da fábrica, que ocupa uma extensa área no centro de Jaraguá, a casa onde moraram os fundadores e onde cresceram seus filhos mantém a fachada original, de tijolinhos, e serve hoje como um dos laboratórios. Fora dela, ficam os enormes galpões onde são produzidos aromas e ingredientes usados em bebidas, alimentos, sorvetes e, mais recentemente, confeitaria. São mais de 3 mil produtos vendidos a mais de 10 mil clientes.
Uma mistura de aromas toma conta da fábrica. Mas são os chamados "aromistas" que precisam ter o olfato mais apurado para identificar, por exemplo, num morango ou uva, a essência que deve repetir o aroma e paladar dessas frutas em outros alimentos. Quase todos foram formados na fábrica de Jaraguá e hoje treinam as equipes das outras unidades.
A história da Duas Rodas é uma das tantas que revelam a cultura empreendedora no norte de Santa Catarina. A menos de cinco quilômetros dali fica a WEG, multinacional brasileira que há 58 anos surgiu da obstinação de um trio formado por um eletricista, um administrador e um mecânico - Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus, cujas iniciais deram o nome à empresa.

A WEG, que se tornou uma das maiores fabricantes de motores e equipamentos elétricos do mundo, tem peso importante no comércio exterior da região. Os motores elétricos representaram 70% dos produtos exportados por Jaraguá, que em 2018 somaram US$ 588 milhões. Essa fábrica emprega cerca de 10% da população da cidade. Ali moram 10 mil do total de 31 mil funcionários em todo o mundo.

Joinville, a menos e 50 quilômetros de Jaraguá, também coleciona histórias de empreendedorismo. Há 78 anos, João Hansen Junior, filho de um tecelão, pegou empréstimo bancário para comprar a empresa onde trabalhava como contador e que passava por dificuldades. À época a Tigre fabricava pentes feitos de chifre de boi. Mas no período pós-guerra, o plástico começou a ser mais usado. Temendo a concorrência, o jovem empresário foi para o Rio de Janeiro para comprar uma máquina injetora.

Encontrou a máquina, mas não o leque que a esposa havia encomendado. O produto era importado da Europa e caríssimo. Decidiu, então, começar a produzir leques de plástico pensando que não faltaria demanda durante o forte calor do verão de Joinville. E logo diversificou ainda mais a linha de produtos - piteiras, cabos de facão e até brinquedos.
Em 1949, Hansen juntou-se a mais nove sócios para criar uma sociedade anônima. Era uma época de ascensão de refinarias e petroquímicas. Em suas pesquisas, conheceu o PVC, já produzido na Alemanha, e seguiu para Hannover, para visitar uma grande feira de plástico.

Líder de mercado brasileiro em soluções para construção civil e cuidado com a água, como tubos, conexões e materiais hidráulicos, a Tigre é mais uma multinacional catarinense. Tem 7 mil funcionários em onze fábricas no Brasil e doze no exterior, em países como Colômbia, Chile, Equador e Estados Unidos.

A gestão da empresa manteve-se com a família Hansen até 1994, quando Carlos Roberto, filho de João Hansen, morreu em acidente aéreo. A partir daí, a gestão foi profissionalizada.

A característica dos produtos, como os longos tubos, exige que os mercados mais distantes sejam atendidos por produção local, afirma Otto von Sothenm, presidente do grupo há seis anos. "O espírito de empreendedorismo de quem começou sem recursos e a vocação industrial são marcas na região", destaca o executivo. A fábrica de Joinville, diz ele, foi forte atrativo para outras empresas do setor de construção abrissem fábricas nos arredores. É o caso da Docol, fabricante de materiais sanitários, e Franke, especializada em itens para cozinha, como cubas. Em Joinville a empresa também tem um centro de treinamento para instaladores (que fazem serviços hidráulicos na construção civil).

Os primeiros passos rumo à criação de um polo industrial no norte de Santa Catarina foram dados por empreendedores locais. Mais tarde, apareceram multinacionais de peso, como a Whirlpool, a maior fabricante de eletrodomésticos do mundo. A produtora das marcas Brastemp, Consul e KitchenAid chegou em Joinville em 1950. Ali, onde emprega 5,5 mil funcionários, ergueu sua maior fábrica de refrigeradores do mundo.

Recentemente outros grupos globais sentiram-se atraídos pela região. Em 2013, a General Motors escolheu Joinville para construir uma fábrica de motores, que abastece as linhas da montadora em todo o país e também exporta. A logística local foi um dos principais motivos para escolher a região, segundo o presidente da GM na América do Sul, Carlos Zarlenga. Considerada uma das mais sustentáveis do mundo, a unidade já recebeu R$ 2,2 bilhões em investimentos, incluindo recursos anunciados este ano para quadruplicar a capacidade de produção.

Em 2014, a BMW inaugurou uma fábrica de automóveis em Araquari, pequeno município a apenas 25 quilômetros de Joinville. Instalada à margem da rodovia BR-101, a unidade, que já recebeu mais de R$ 1 bilhão em investimentos, produz cinco modelos de carros de luxo e fornece dois terços dos automóveis BMW vendidos no Brasil. "A logística na região, com estradas e portos acessíveis, mão de obra qualificada, acesso a fornecedores e forte presença da cultura alemã determinaram o investimento em Araquari", afirma Gleide Souza, diretora de assuntos governamentais da BMW no Brasil.
 
 
Fonte: Valor




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