Politização pode atrasar início de vacinação contra o coronavírus
16/10/2020

Técnicos do Ministério da Saúde estão preocupados com a politização em torno da vacina contra o coronavírus e a possibilidade de o governo federal discriminar a que está sendo produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. O principal receio é o de que aspectos técnicos sejam deixados de lado por conta do antagonismo entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e da rejeição da base mais radical bolsonarista à chamada “vacina chinesa do Doria”. 

Fontes ouvidas pelo Valor dizem que a rusga pode afetar, inclusive, o início e a velocidade de imunização da população e comparam a politização do tema ao que vem ocorrendo nos últimos meses em relação à hidroxicloroquina. 

 
Em contraposição, pessoas próximas ao ministro Eduardo Pazuello asseveraram à reportagem que ele não discriminará nenhuma vacina “que tiver eficácia”. 

 

“Se funcionar, o ministério vai comprar a vacina. Se a da Rússia ou da China funcionar primeiro, estiver no mercado e tiver preço, o ministério vai comprar. O ministério tem a obrigação de vacinar o Brasil”, disse uma fonte. “O que não pode ter é essa disputa de querer acelerar, chegar primeiro. Cada um vai ter que cumprir as suas etapas. É isso que vai ter que ser: cumprir etapas.” 

Pazuello e Doria devem se encontrar na semana que vem em Brasília para discutir o tema. 

Entretanto, após uma reunião anteontem com a cúpula da pasta, os secretários estaduais da Saúde saíram com a impressão de que o governo federal está ignorando a vacina do Butantan. 

Em carta a Pazuello, o Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) pediu ontem que essa vacina seja incorporada ao Programa Nacional de Imunização (PNI). 

O mal-estar surgiu após o ministro explicitar que a população só terá acesso a vacinas a partir de abril de 2021, embora na reunião o governo paulista tenha informado que a vacina do Butantan estará disponível em dezembro. 

A previsão do ministério segue calendário estabelecido em acordo de transferência de tecnologia firmado com a farmacêutica AstraZeneca, que desenvolve vacina em parceria com a Universidade de Oxford. Por esse acordo, a vacina será produzida no laboratório da Fiocruz em Manguinhos, no Rio. 

“A vacina produzida pelo Instituto Butantan encontra-se finalizando a fase III [fase final de testes] até o início do mês de novembro e existe a disponibilidade imediata, em dezembro, de 46 milhões de doses, com mais 14 milhões de doses até fevereiro e, em 2021, mais 40 milhões até junho, totalizando possíveis 100 milhões de doses”, afirmou o Conass no ofício. 

É importante saber quem foi vacinado e quem não foi, e evitar que uma pessoa receba doses de vacinas diferentes 

Na carta, a entidade, “cordialmente, solicita ao Ministério da Saúde a adoção das medidas necessárias e imediatas para incorporação ao PNI das vacinas para covid-19 produzidas pelo Instituto Butantan, em parceria com a empresa farmacêutica Sinovac Life Science, assim como a de quaisquer outras vacinas produzidas e testadas por outras indústrias, que possuam condições de eficácia, segurança e produção disponível para iniciar a vacinação da população brasileira em janeiro de 2021, ou no menor espaço temporal possível.” 

Os secretários afirmam ainda que “o enfrentamento assertivo à pandemia covid-19, que já evoluiu com mais de 150 mil óbitos no Brasil, exige a máxima pressa e celeridade na aquisição e disponibilização de vacinas à nação”. 

“Com efeito, o momento exige que o Ministério da Saúde comande a unidade nacional em torno da disponibilização célere, segura e oportuna das vacinas já disponíveis, em especial as produzidas pelas iniciativas subnacionais”, disse o Conass. 

Ontem, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, prometeu que a vacina desenvolvida pelo Butantan será incluída no PNI se cumprir as “premissas” adotadas pelo órgão. Entre as premissas estão a produção de dose no mais curto prazo, em escala capaz de atender uma parcela expressiva da população e a preço razoável para aquisição. 

Em nota, a Secretaria da Saúde de São Paulo afirma que a “CoronaVac, em fase de testes clínicos pelo Butantan, já demonstrou segurança e será fundamental para as políticas de imunização necessárias no país para enfrentamento da pandemia”. E diz esperar que o ministério “honre com seu papel primordial, garantindo vacinação gratuita, segura e eficaz para proteger a população”. 

Internamente, a “vacina chinesa do Doria” é vista no Ministério da Saúde como o ponto mais polêmico nas discussões sobre a estratégia da pasta. Para técnicos ouvidos pelo Valor, “seria loucura o ministério não fazer uma aquisição pelo menos razoável de todas as vacinas disponíveis”. 

 

Assim como ocorreu no caso de ventiladores, sedativos e equipamentos de proteção individual (EPIs) no início da pandemia, depende de uma decisão ministerial de Pazuello - e, em última instância, do presidente Jair Bolsonaro - estabelecer a compra centralizada da vacina. Cabe também à pasta se responsabilizar pelo pagamento e a logística de distribuição aos Estados. 

Portanto, caso o governo tome a decisão política de não adquirir a vacina do Butantan, isso pode na prática dificultar o acesso da população a esse produto. Nessa hipótese, o governo paulista deverá ficar a cargo da distribuição. E os demais Estados precisarão ter poder econômico para fazer a compra, pagar por isso e fazer a distribuição em seu território. 

Há também preocupação no ministério sobre a coleta das informações. Para fins de vigilância, explicam fontes, é importante, por exemplo, saber quem foi vacinado e quem não foi, e evitar que uma mesma pessoa receba doses de vacinas diferentes. 

O Datasus, responsável pela manutenção e desenvolvimento dos sistemas de informação do SUS, apresentou proposta para uma carteira nacional digital de vacinação, o que permitiria um melhor monitoramento dos dados sobre a vacina aplicada em cada cidadão. 

A discussão entre a área responsável pela vigilância da covid-19 e o Datasus, que incluiria questões como o sistema de notificação das reações adversas à vacina contra o coronavírus, era para ter ocorrido na terça-feira, mas a reunião foi adiada. Técnicos comentam estar preocupados, pois o tempo é curto. E cogitam a possibilidade de o atraso estar relacionado à indefinição do ministério sobre qual vacina e quais estratégias de imunização serão adotadas. 

A aquisição de insumos, como seringas e agulhas, não é preocupação dentro do ministério, segundo apurou o Valor. A princípio, a aquisição desses insumos é de responsabilidade de Estados e municípios. Mas, com a possibilidade de falta, o ministério adotará a mesma estratégia de compras centralizadas que deu certo no caso dos EPIs no início da pandemia. 

 
 

Tampouco preocupa a chamada cadeia de frio (armazenamento e transporte das vacinas com garantia das condições adequadas de refrigeração e conservação), que está bem estruturada no país. 

A estratégia de imunização em massa envolverá, além do SUS, as Forças Armadas, que já empregam um efetivo superior a 30 mil militares no combate ao coronavírus. 

“O sistema de coordenação e controle e a capacidade logística das Forças Armadas, aliados a presença e capilaridade em todo o território nacional, são fatores que certamente contribuirão para acelerar o processo de vacinação, disse, em nota, o ministério da Defesa. (Colaborou Rafael Bitencourt) 

Fonte: Valor




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