“Brasil corre risco de ficar isolado do mundo”
02/03/2021

Enquanto os países se apressam em vacinar suas populações, o Brasil corre o risco de ficar isolado do mundo e se tornar um foco de variantes mais letais e transmissíveis da covid-19. A afirmação é da demógrafa Márcia Castro, professora titular do departamento de Saúde Global e População da Universidade de Harvard. 

“Daqui a pouco ninguém vai querer receber ninguém vindo do Brasil”, adverte. Em entrevista ao Valor, ela se mostrou preocupada com a conclusão de dois estudos publicados na sexta-feira passada por cientistas da Fiocruz de Manaus, junto com dezenas de outros de vários países e diferentes disciplinas. A variante de Manaus, identificada como P.1, pode ter velocidade de contaminação até 2,2 vezes maior que a da cepa original. 

Para a professora, a situação do Brasil é de catástrofe, de crise humanitária: “Não consigo pensar em outras palavras.” Ela cita e concorda com “pandemicídio”, cunhado pelo biólogo Átila Iamarino. 

Em entrevista publicada pelo Valor em 29 de maio do ano passado, ela previa que a pandemia no Brasil ia estourar. Naquele mês o país registrara 22.666 mortes. Com 2,3% da população mundial, o Brasil hoje passa das 255 mil, cerca de 10% do total dos óbitos do planeta. 

Única brasileira a pertencer ao quadro de professores titulares da Universidade de Harvard, a carioca de 56 anos se mantém conectada com os principais grupos de estudiosos que acompanham os rumos da pandemia no país. A seguir, os principais trechos da entrevista: 

Valor: Por que é tão preocupante a variante encontrada em Manaus? 

Márcia Castro: Ela já está espalhada pelo país. O caso de Araraquara [a 270 km da capital de São Paulo], que entrou em colapso hospitalar rapidamente depois do primeiro caso de covid [181 mortes até sexta-feira], é um sinal de alerta sobre a nova cepa. E já há pelo menos um caso bem estudado em Manaus de reinfecção. Um paciente testado, contaminado pela primeira cepa, e oito meses depois reinfectado. O risco que se corre é o surgimento de novas variantes em locais de alta infecção enquanto a vacinação não se efetiva. Já estamos com o sistema hospitalar sobrecarregado em vários Estados. Podemos ter uma situação como a de Manaus replicada para o resto do país. 

Valor: A decretação de “lock-down” em vários Estados e capitais não pode frear a contaminação? 

Castro: Essa era uma medida preventiva que deveria ter sido tomada para não deixar a casa pegar fogo. Mas a casa já está incendiando. A eficiência é muito menor. Agora só a vacinação resolve. 

Valor: Mesmo aí nos Estados Unidos a vacinação vem enfrentando problemas. 

Castro: Pelo menos aqui mudou a liderança política. E o novo presidente promete vacinar toda a população até junho e aprovou a compra de vacina de um terceiro laboratório, da Jonhson & Jonhson. Esta seria ideal para o Brasil, porque foi testada no país, só precisa de uma dose e não exige um supercongelamento. Mas o Brasil não está comprando novas vacinas. Está deixando todos os ovos na mesma cesta. 

Valor: O governo federal anunciou a compra [embargada pelo TCU] da vacina Covaxin, da Índia, que não passou por testes no Brasil, e é contestada pelos próprios médicos indianos. 

Castro: Isso é o cúmulo da negação da ciência. É um atentado submeter a população a um experimento. Mas não surpreende, vindo de um governo que defendeu o uso da cloroquina. Aliás, estudo recente mostrou que os que usaram esse remédio, iludidos pela falsa sensação de imunidade, acabaram mais vulneráveis à contaminação. 

Valor: Com o ritmo atual da vacinação, a população brasileira corre o risco de ficar exposta a variantes piores do vírus, antes de ser imunizada contra a primeira cepa? 

Castro: Sabemos que a dinâmica do vírus é de encontrar variantes, ele se adapta para sobreviver e contaminar mais. Isso sempre acontece em locais de alta contaminação, como Manaus e Londres. Enquanto a vacina não chegar, o vírus vai avançar. O risco que o país corre é ficar isolado do mundo, como foco de variantes mais contagiosas e letais. Vamos ter muitas vidas perdidas, que podíamos evitar. O Brasil tem capacidade de vacinar. Já vacinou 10 milhões de crianças contra pólio num só domingo. O sistema de saúde tem capilaridade e eficiência elogiada em todo mundo. 

Valor: As estatísticas mostram platôs de óbitos semelhantes, porém mais altos, aos que aconteceram entre os meses de junho, julho e agosto do ano passado. Vamos repetir o padrão? 

Castro: Esse platô é só um retrato da incompetência de deixar a doença se espalhar por outros Estados. O Brasil é uma colcha de retalhos. A soma dos picos das doenças nos vários Estados é que forma esse platô dos gráficos. É a doença se espalhando geograficamente. Estamos revivendo a situação daqueles meses de forma piorada. Estamos vendo o país retroceder para uma situação que não víamos desde os anos 80, com gente passando fome. 

Valor: Qual a situação na região onde vive [Boston] e Harvard, em que a senhora leciona? 

Castro: Continuamos em “home office”. Uma festa tradicional que aconteceria em maio será por teleconferência. Acho que é possível que retomemos as aulas presenciais em setembro, ainda com medidas de distanciamento e máscaras. Não dá ainda para imaginar se conseguiremos, porque temos alunos vindos de várias partes do mundo. Vamos exigir vacinação? Ainda não sabemos. 

Valor: Estamos vendo países pobres, como Índia e Filipinas, com menos óbitos que ricos, como Estados Unidos e Suécia. Esse vírus está confundindo todos padrões e previsões? 

Castro: De fato ainda estamos todos aprendendo. Não há uma narrativa única para o comportamento da doença em todos os lugares do mundo. Mas há uma correlação forte entre a liderança política de um país e o balanço da contaminação e da mortalidade. 

Valor: O que está estudando atualmente? 

Castro: Tenho dois trabalhos que devem ser publicados em breve. O primeiro sobre a relação entre desigualdade e a contaminação, que já foi aprovado pela revista “Lancet” [do Reino Unido]. No segundo, usamos diversos modelos matemáticos para comparar a velocidade da evolução da doença em diferentes cidades e Estados do Brasil. Estamos trabalhando ainda num terceiro em que estamos calculando o impacto da pandemia na esperança de vida em cada Estado brasileiro. 

Valor: O estudo sobre a desigualdade confirma o sentimento de que quanto mais vulnerável, maior a incidência de contaminação e óbito? 

Castro: Num primeiro momento sim. Mas no segundo momento, em Estados pobres que conseguiram expandir rapidamente a rede hospitalar e tomar medidas emergenciais de distribuição de renda, os óbitos diminuíram sensivelmente. É o caso do Ceará, onde se adaptou um cartão de transferência de renda, o Mais Infância, para os pobres conseguirem ficar mais em casa. Neste segundo momento, o registro de óbitos lá é bem menor. 

Valor: Compara-se muito essa pandemia com a gripe espanhola. Ela pode durar dois anos também, mesmo com todo o avanço da ciência? 

Castro: Há muita incerteza. Depende muito de como a vacinação vai acontecer e da velocidade das novas cepas. Os países ricos vão ter que ajudar os países pobres. É como disse Harvey Fineberg, ex-decano da Escola de Saúde Pública de Harvard: “Essa epidemia não vai acabar em lugar nenhum, se não acabar em todos os lugares”. 

Valor: Será que vamos ter Carnaval em 2022? 

Castro: Espero que sim. Mas depende da velocidade da vacinação, das lideranças políticas e do comportamento da população. É muito egoísmo e muita falta de solidariedade das pessoas que participaram de aglomerações e de festas clandestinas. Tudo isso, com o respaldo de uma liderança política que estimula aglomerações e defende o não uso das máscaras. Acho que a sociedade brasileira precisa discutir isso com urgência. É inadmissível que o presidente da República, num dos dias de mais óbitos no país, se pronuncie contra o uso das máscaras e provoque aglomerações. As mortes parecem não sensibilizar quem toma decisões. 

Fonte: Valor




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