Custo-efetividade da cirurgia ambulatorial, mito ou realidade?
04/08/2022

As unidades cirúrgicas ambulatoriais, ou hospitais-dia, estão chamando cada vez mais atenção do ecossistema da saúde no Brasil e no mundo. Este tipo de unidade, permite que os pacientes recebam alta em até 24 horas após a internação, reduzindo o risco de infecção hospitalar e permitindo que o processo de recuperação aconteça no conforto de seus lares, com total segurança, em um modelo de cuidados acolhedor, dando aos pacientes um atendimento personalizado e contato constante com a equipe assistencial.

Sozinhos, estes atributos são importantes, mas relativamente intangíveis, para caracterizar de maneira objetiva os benefícios da cirurgia ambulatorial. Com a finalidade de materializar a relação custo-benefício das unidades cirúrgicas ambulatoriais, dois fatores são de grande relevância: custo e desfecho clínico.

 

Afinal, um procedimento cirúrgico realizado em uma unidade ambulatorial independente é mais barato e tão efetivo quanto um procedimento realizado em um hospital geral? A resposta curta, em geral, é um sonoro sim.

As unidades ambulatoriais são configuradas com uma base de custos mais baixa e maior eficiência operacional, no que tange recursos humanos, espaço físico, curva de suprimentos, estruturas de apoio e equipamentos, permitindo maior controle e menor necessidade de rateio do custo total da estrutura, por procedimento realizado.

 

Apesar de uma extensa gama de estudos terem abordado a questão acima, especialmente nos Estados Unidos e alguns países da Europa, no Brasil ainda temos uma grande carência de material sobre o tema, com algumas publicações esparsas, mas que em geral, apontam no mesmo sentido: uma cirurgia ambulatorial, quando comparada durante o ciclo total de atendimento do paciente (da admissão até a alta), custa menos em uma unidade ambulatorial do que em um hospital geral. Além disso, comumente, os estudos relatam benefícios adicionais, como a redução das infecções, o menor tempo de cirurgia, uma maior flexibilidade para agendamento dos procedimentos e uma maior satisfação do paciente.

Evidências sobre custo-efetividade da cirurgia ambulatorial

No Brasil, um estudo de 2016 sobre a realização de procedimentos de colecistectomia em regime ambulatorial, realizado por Uirá Fernandes Teixeira, da divisão de cirurgia hepato-pancreato-biliar da Universidade Federal de Porto Alegre, afirmou que com critérios de seleção adequados, a colecistectomia laparoscópica ambulatorial é viável, segura e eficaz, apresentando taxas de complicação e readmissão baixas, sendo a economia de custos e a satisfação do paciente pontos importantes, para apoiar uma maior adoção deste tipo de procedimento, em regime ambulatorial.

Em 2020, Emmanuel Gibon, do departamento de cirurgia ortopédica e reabilitação da Universidade da Flórida, publicou um estudo indicando que as artroplastias totais de joelho realizadas ambulatorialmente custaram significativamente menos e foram significativamente mais rápidas dentro da unidade, do que as realizadas no hospital geral.

Aditya Borakati, do departamento de cirurgia do Royal Free Hospital de Londres, realizou um estudo retrospectivo de coorte, em 2021, com casos de artroplastia total de ombro, relatando que a realização dos procedimentos em regime ambulatorial foi segura, eficaz, com custo-benefício maior, quando comparado ao do hospital geral, afirmando que a adoção do procedimento ambulatorial em larga escala, apresenta um potencial para economia e maior eficiência.

 

Mais evidências da economia gerada pela adoção da cirurgia ambulatorial foram mostradas em um estudo econômico compilado pela ASCA (Ambulatory Surgery Center Association), entidade norte-americana, que congrega mais de 5.400 centros cirúrgicos ambulatoriais e a consultoria KNG Health Consulting. Durante o período de oito anos de 2011 a 2018, a economia total do Medicare* gerada pelos centros cirúrgicos ambulatoriais foi de US$ 28,7 bilhões. Durante o período de 10 anos de 2019 a 2028, a economia total projetada do Medicare, gerada pelas unidades ambulatoriais, foi estimada em US$ 73,4 bilhões. Projeta-se que a participação dos centros cirúrgicos ambulatoriais em artroplastia total e mosaicoplastia do joelho, aumente de 13,4% em 2020, para 18% em 2028, crescendo 3,7% ao ano. Se a taxa de crescimento da artroplastia total de joelho ambulatorial corresponder ao crescimento observado anteriormente na artroplastia parcial de joelho ambulatorial, a economia será de US$ 2,95 bilhões de 2020 a 2028, apenas para este tipo de procedimento.

No setor privado a realidade não foi diferente. Uma análise conjunta da ASCA e da consultoria HealthSmart, realizada em 2016, analisou a sinistralidade de milhares de casos do setor privado da saúde nos Estados Unidos e concluiu que, o menor custo de atendimento em centros cirúrgicos ambulatoriais independentes, quando comparado aos hospitais gerais (incluindo departamentos ambulatoriais dentro do hospital geral), economiza dezenas de bilhões de dólares por ano. Para a população comercialmente segurada nos EUA (saúde privada ou suplementar como conhecemos no Brasil), cerca de US$ 37,8 bilhões são economizados anualmente, com o uso de centros cirúrgicos ambulatoriais independentes.

Para Newton Quadros, vice-presidente de mercado da SOBRACAM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial): “diante de tantos dados e evidências, oriundas dos EUA, Canadá e diversos países da Europa, sobre as vantagens da cirurgia ambulatorial, em especial no binômio custo-benefício, é difícil compreender, por que no Brasil, que apresenta alta sinistralidade e escassez de recursos públicos para o SUS, este modelo ainda não tenha alcançado uma posição de destaque nos sistemas de saúde privado e publico”.

A rápida evolução da cirurgia ambulatorial, potencializada pelos avanços tecnológicos e da medicina, criaram um potencial sem precedentes para uma melhor racionalidade de despesas em saúde, tanto no setor público quanto no setor privado. Surge então uma grande gama de oportunidades para estes setores realizarem mais com menos recursos, ampliando sua capacidade assistencial, com segurança, bons desfechos clínicos, redução de custos e maior satisfação do paciente, por meio do incentivo, investimento e multiplicação das unidades ambulatoriais independentes pelo Brasil.





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