Medicina personalizada: custos versus democratização
Reconhecida pelo setor como uma revolução para a saúde, prática ainda precisa vencer obstáculos como a formação médica e o alto custo da incorporação tecnológica
01/12/2014 - por Maria Carolina Buriti
 
A revolução é do indivíduo, mas a transformação já começou a permear toda a cadeia do setor de saúde. Finalizado há 11 anos, o Projeto Genoma abriu para o mundo as portas de novos conhecimentos sobre o ser humano e, consequentemente, criou novas abordagens para o diagnóstico e tratamento de pacientes. O que custou, à época, 3 bilhões de dólares, hoje pode ser realizado por cerca de 2 mil dólares. O que era antes conversa restrita ao meio acadêmico e profissional, começou a ser mais conhecido e teve até seu conceito popularizado- basta lembrar do caso da atriz Angelina Jolie, no qual um teste genético positivo para o alto risco de câncer de mama e ovário resultou em uma cirurgia para evitar a doença.

Com o genoma abriram-se oportunidades para tratamentos mais personalizados, diagnósticos mais precisos - como é o caso da atriz - além de medicamentos administrados de forma mais certeira em prol de um indivíduo, e não do coletivo, como usualmente os pacientes são tratados. “A medicina personalizada ao invés de tratar a estatística, olha o indivíduo, cada um, cada paciente”, conceitua a representante da Sociedade Brasileira de Genética Médica e professora da Unicamp, Iscia Lopes Cendes. Ela explica que a faculdade de medicina considera o indivíduo médio para desenvolver tratamentos para a maioria da população, o que resulta em uma figura estatística, e mesmo neste indivíduo ideal há desvios.

O exemplo de Angelina chamou a atenção dos holofotes e até aumentou a busca pela realização do exame, mas está longe de refletir a realidade da maioria da população. Apesar dos especialistas vislumbrarem inúmeras possibilidades da prática aliada à medicina preventiva, o que se tem ainda é muito pouco. Iscia explica que, com exceção das doenças raras ou monogênicas – nas quais se identifica a mutação que causa a doença – para as doenças comuns e frequentes como diabetes, hipertensão e câncer, o conhecimento ainda é limitado. “A relação de fatores genéticos e fatores ambientais é muito desconhecida hoje em dia”, afirma. “Neste momento é um ideal, é o que nós buscamos para o futuro para a maior parte das doenças, que são aquelas que importam para a saúde pública e tem impacto econômico”, completa.

Custos na berlinda
O mundo ideal, no qual é possível gerenciar melhor a saúde pública e ter controle das doenças comuns com base na medicina personalizada ainda parece estar longe justamente do SUS, pois quando se considera a área genética, Iscia diz que “não existe genética, geneticistas ou exame genético” na área pública. Os procedimentos são requeridos por outras especialidades, como o teste do pezinho presente na triagem neonatal. Ela espera que esta situação mude com uma portaria do Ministério da Saúde que prevê a regulamentação da especialidade.

Já no segmento suplementar, ao longo dos anos foram adicionados alguns procedimentos. Mas foi com o último rol que ela realmente avançou. “A grande novidade foi incorporar novos exames diante de diretrizes clínicas. Isso faz toda a diferença tanto para o médico que tem um guideline para consultar, como para o paciente saber se na situação dele há cobertura ou não”, explica Mônica Castro, gerente executiva de relacionamentos institucionais do laboratório do Hermes Pardini, destacando a ação da autarquia.

Apesar do avanço, Monica pontua que é preciso discutir a identificação dos exames recém incorporados, pois hoje não há um código para classificá-los e isso dificulta o processo de venda, autorização e negociação. Outro problema é o custo desses testes. “Alguns desses exames tem custo individual muito alto. Eles são pedidos com baixa frequência e [possuem] impacto atuarial grande, mas a gente espera que com o passar dos anos a tecnologia os torne mais barato e que isso leve à democratização dos exames”, analisa.

O custo é alto, pois a equação de equilibrar preços não é simples e está muitas vezes relacionada à incorporação de novas tecnologias que na maioria das vezes são importadas. Além disso, há um verdadeiro cabo de guerra entre os agentes, no qual a avaliação do custo de determinado procedimento é sempre protagonista. “Toda vez que a ANS coloca em discussão a ampliação do rol, sabemos que isso trará um impacto financeiro para a operadora, pois no momento do lançamento da nova cobertura, nunca é lançado uma autorização de reprecificação e isso traz impacto para dentro das operações”, explica Sérgio Ricardo Santos, diretor executivo da One Health – operadora da Amil, que gerencia 90 mil vidas e tem na média duas ou três solicitações de exames genéticos por semana.

As solicitações da Onehealth não refletem a realidade da maioria das operadoras, pois ela atua no segmento premium, no qual há uma carteira de clientes de ticket médio alto. Mas de uma maneira geral, Santos diz que por se tratar de um custo unitário elevado e baixa utilização, o impacto do novo rol tem sido mais baixo do que os quimioterápicos orais, por exemplo.

Santos acredita que à medida em que se ampliar o número de prestadores aptos a solicitar o exame e democratizar as diretrizes da ANS, o volume aumentará. A contrapartida por parte das operadoras será de diminuir o custo unitário. “Tal redução será essencial para o financiamento do sistema e para temos problemas de financiamento, pois falamos de um setor estrangulado operando em margens próximas do zero”.

A discussão do custo perpassa também o elo da indústria, representado no debate pelo vice -presidente para a América Latina da Termo Fisher, Roberto Mendes. O executivo acredita que a nova incorporação tecnológica ligada à medicina personalizada fará uma verdadeira revolução na saúde. Com experiência de quem acompanhou a absorção de tecnologias como a ressonância e o PET-CT , ele diz que o desafio de incorporação é global e que a tendência é baratear o custo.

“No do sequenciamento do genoma foram investidos 3 bilhões de dólares e o projeto durou 13 anos. Hoje, 11 anos depois, é possível fazer [o sequenciamento] de um a dois dias com o custo de 2 mil dólares. É ainda alto, mas em onze anos caiu muito e continuará a cair. Em alguns anos, o preço vai cair e as máquinas vão se tornar mais rápidas e acessíveis”.

Quem faz?
Tecnologia avançada, rol de procedimentos e possibilidades de um diagnóstico e tratamento mais precisos. Nada disso evoluirá sem profissionais qualificados para solicitar, fazer e interpretar os exames. Atualmente, a ANS só autoriza o médico geneticista a pedir o exame, o que na prática, contribui para a restrição do procedimento, pois hoje são menos de 300 profissionais com título de especialista.

Iscia entende a intenção da diretriz da autarquia em atribuir as solicitações apenas ao profissional geneticista. “A preocupação é com o paciente. Dou aula para o quarto ano da Faculdade de Medicina e falo para os meus alunos: ‘ só peçam o exame, se vocês souberem interpretá-lo’, conta. Mas por outro lado, diz que há certo prejuízo para alguns médicos que estão aptos a interpretar os exames. “Eu trabalho com um grupo de neurologistas que sabem pedir exames da área de neurogenética melhor do que muito geneticista, pois eles foram especificamente treinados a solicitar e interpretar esses exames. Me parece injusto com esses colegas”, pondera.

Na prática, afirmam Mônica e Santos, alguns grupos médicos já trabalham com esses exames como hematologistas, psiquiatras e outros especialistas e isso contribui para que o movimento de popularização aconteça. Entretanto, é preciso refletir sobre a formação desse profissional, que atuará sobretudo com dilemas éticos, pois uma vez com o diagnóstico carregará também informações sobre o genoma da família do paciente, o que é muito sensível.

“Num cenário onde não temos profissionais preparados para assumir isso. Isso é uma construção, opina Santos. “Concordo com a Iscia, é um quadro para o futuro, neste momento temos que aprender com quem sabe e cabe a nós fiscalizar essas regras e diretrizes, até porque se for fora das regras e diretrizes, com a judicialização que temos nos dias de hoje será impossível”, finaliza.

* O debate “O avanço da medicina personalizada no Brasil: os impactos econômicos e estruturais de uma medicina cada vez mais preventiva e precisa” ocorreu na IT Mídia no último dia 13 de novembro.
 
 
 




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