Crise da Ferj pode afetar demais Unimeds do Rio
10/07/2025

Os problemas financeiros da Unimed Ferj, federação que assumiu a operação da Unimed-Rio em maio do ano passado, estão se avolumando e agora ameaçam as demais cooperativas médicas do Rio de Janeiro. As dívidas com hospitais e demais estabelecimentos de saúde somam pelo menos R$ 2 bilhões. Há ainda outros débitos de R$ 4,7 bilhões referentes a passivos tributários, administrativos e regulatórios que foram originados pela Unimed-Rio, mas com o risco de a Unimed Ferj ser considerada devedora solidária. 

Um novo cenário se desenha porque esses passivos podem cair no colo das demais 18 cooperativas médicas que são associadas à Federação das Unimeds do Rio de Janeiro (Ferj). Isso porque, pelas regras do cooperativismo, as associadas da federação recebem os lucros, mas também precisam arcar com os prejuízos. 

Um movimento semelhante ocorreu, no começo deste ano, com a Central Nacional Unimed (CNU), em que as 300 cooperativas médicas do país, que funcionam como sócias, foram obrigadas a aportar um total de R$ 1 bilhão para equacionar as dívidas. 

Caso a Unimed-Ferj feche as portas, as dívidas são assumidas pelas 18 cooperativas locais, que são suas associadas, colocando em risco todo o sistema Unimed do Estado do Rio de Janeiro. Há cerca de 1,1 milhão de usuários de planos de saúde dessas Unimeds, o que representa 19,5% do volume total de pessoas com convênio médico (considerando todas as operadoras) no Rio de Janeiro. 

A situação é delicada porque essas cooperativas médicas são pequenas. Com exceção da Unimed Ferj, que tem 407 mil usuários, a maior delas é a Unimed Leste Fluminense (com 105 mil), que está sob intervenção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) devido a problemas econômicos e de atendimento médico assistencial. 

A federação tem como associadas as seguintes cooperativas médicas: Angra dos Reis, Araruama, Barra Mansa, Cabo Frio, Campos, Centro Sul Fluminense, Costa do Sol, Costa Verde, Leste Fluminense, Marquês de Valença, Nova Iguaçu, Noroeste Fluminense, Norte Fluminense, Petrópolis, Resende, Serrana RJ, Três Rio e Volta Redonda, além da Unimed- Ferj (que assumiu a Unimed-Rio). Juntas, elas têm 15 hospitais próprios e uma ampla rede com centros médicos e laboratórios de exames. 

Na semana passada, a Leste Fluminense emitiu uma carta aos seus cooperados informando que a Ferj lhe deve R$ 32,2 milhões, referentes a serviços médicos prestados nos meses de abril e maio e não pagos. 

Esse débito entre cooperativas surge quando o cliente de determinada Unimed é atendido em outra cidade, fora da abrangência de cobertura do plano de saúde. A cooperativa local paga o estabelecimento de saúde e depois pede ressarcimento à Unimed à qual o paciente é vinculado. É esse repasse (conhecido entre as cooperativas como intercâmbio) que a Leste Fluminense informa não estar recebendo da Unimed Ferj. 

Além disso, a Leste Fluminenses e outras cooperativas médicas, que falaram em condição de anonimato, reclamam que a Unimed Ferj está comercializando planos de saúde fora de sua área de abrangência, que é a cidade do Rio de Janeiro e Duque de Caxias. Ainda segundo fontes, 42 mil usuários da Unimed Ferj, o equivalente a 10% de sua base de clientes, residem fora desses dois municípios. 

As cooperativas médicas reclamam que esses clientes pagam a mensalidade para a Unimed Ferj, mas as despesas médicas, que são realizadas em outras cidades, não estão sendo ressarcidas. Esse é um problema já apontado desde a época da Unimed-Rio, que enfrentou uma crise econômica por quase dez anos. 

“Em relação aos planos de saúde já contratados junto à Unimed Ferj por beneficiários residentes em nossa área de atuação (que, segundo a Unimed Ferj somariam mais de 23 mil, passando de 30 mil beneficiários pelas contas da ANS), também foi solicitada a sua transferência para a nossa carteira. Neste sentido, nos foi prometido que o início das tratativas para tal transferência se daria em 5 de junho de 2025, dia seguinte ao da reunião ocorrida na nossa sede, o que também não aconteceu”, informa trecho da carta da Leste Fluminense, à qual o Valor teve acesso. 

Dívidas com hospitais e outros estabelecimentos de saúde chegam a pelo menos R$ 2 bilhões 

A Unimed Ferj nega essa prática, afirmando que em conformidade com seus princípios institucionais “não comercializa planos de saúde fora de sua área de abrangência - limitada aos municípios do Rio de Janeiro e Duque de Caxias. No restante do Estado, comercializa apenas um produto estadual, em alinhamento com as cooperativas federadas.” 

A agência informou que “as operadoras somente podem comercializar planos dentro da área de atuação do produto registrada na ANS. Eventual descumprimento das regras estabelecidas sujeita as operadoras às penalidades previstas na legislação do setor”. 

A comercialização dos planos de saúde da Unimed Ferj é feita, basicamente, pela Supermed, corretora da família do empresário Alberto Bulus. A Supermed informou que “comercializa planos de saúde coletivos por adesão de diversas operadoras, entre elas a Unimed Ferj, sempre de acordo com as diretrizes comerciais de cada empresa.” A corretora também atuava com a Unimed-Rio. 

Com atrasos de pagamento, a Leste Fluminense e a Associação dos Hospitais do Estado do Rio de Janeiro (AHERJ) informaram que entraram com notificações no Ministério Público Estadual (MPRJ). 

Da dívida total de R$ 2 bilhões, R$ 1,6 bilhão é da época da Unimed-Rio e outros R$ 400 milhões foram acumulados pela Unimed Ferj neste primeiro ano de gestão. 

A Unimed Ferj ainda não divulgou seu balanço anual de 2024. Nos nove primeiros meses, sua receita foi de R$ 2,8 bilhões e os lucros operacional e líquido ficaram na casa dos R$ 470 milhões. A cooperativa médica praticamente não tem reservas técnicas, porque elas foram sacadas pela Rio. 

A Unimed Ferj informou que 66% da dívida de R$ 1,6 bilhão “já foi repactuada e segue com os pagamentos em dia. O restante está em processo de negociação, condicionado à apresentação, conferência e regular inserção das notas nos sistemas operacionais, o que pode ocasionar atrasos pontuais, sem prejuízo ao funcionamento do Sistema Unimed Fluminense.” 

No entanto, segundo Marcus Camargo Quintella, presidente da Associação dos Hospitais, os pagamentos não estão sendo cumpridos. “Houve parcelamento de 36 meses, sem juros, ainda assim, eles atrasam. Realizamos os procedimentos, as cirurgias, arcamos com os custos hospitalares, mas não recebemos. Vamos ao Ministério Público 

para comunicar uma nova suspensão de atendimento”, disse. 

Questionada sobre o passivo de R$ 4,7 bilhões (débitos tributários, administrativos e regulatórios) que pode ser renegociado e ter seu valor reduzido para R$ 1 bilhão, além do risco de ser incluída como devedora solidária, a Ferj informou ter conhecimento das tratativas envolvendo o passivo fiscal da Unimed-Rio junto à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), mas conduzidas sob sigilo. 

Mesmo com essa situação frágil, a ANS prorrogou o prazo do Termo de Conduta (TC), que permitiu a transferência da operação da Unimed-Rio para a Ferj, em quatro anos, ou seja, 31 de maio de 2029. 

O acordo inicial, com vencimento em maio deste ano, previa que até essa data a Federação teria que apresentar melhorias em indicadores econômicos e de atendimento médico. No entanto, essas metas não estão sendo cumpridas. A dívida com os estabelecimentos de saúde cresceu de R$ 1,6 bilhão para R$ 2 bilhões sob a nova gestão. Em junho, a Unimed Ferj liderava o ranking de reclamações da ANS, entre as grandes operadoras. 

A ANS informou que “sobre a extensão do prazo de cumprimento das obrigações econômico-financeiras, ele se encontra em conformidade com o plano de adequação ao TC e não houve, no momento da análise do pedido, impedimentos para sua autorização.” 






Obrigado por comentar!
Erro!
Contato
+55 11 5561-6553
Av. Rouxinol, 84, cj. 92
Indianópolis - São Paulo/SP