A ciência em saúde no Brasil tem avançado de forma significativa graças às parcerias público-privadas (PPPs), que vêm se consolidando como um dos principais motores da inovação no setor. Instituições públicas, indústria farmacêutica, hospitais privados, universidades, startups e operadoras de saúde têm contribuído para ampliar a capacidade de pesquisa e acelerar a incorporação de tecnologias de ponta na assistência e na pesquisa clínica. Segundo dados da Plataforma Lattes, o número de projetos de pesquisa em saúde com cofinanciamento privado aumentou mais de 30% entre 2018 e 2023.
“As parcerias vêm amadurecendo de forma significativa no Brasil, com uma crescente abertura de universidades, hospitais e centros de pesquisa à colaboração com o setor produtivo. Essa mudança é impulsionada por políticas públicas, como o Marco Legal da Inovação, mas também pela consolidação de ecossistemas mais integrados, que favorecem a pesquisa transnacional e a aplicação de práticas do conhecimento científico. Startups, por sua vez, têm se aproximado da indústria com soluções digitais, enquanto hospitais e universidades ampliam sua atuação em pesquisa clínica e inovação aberta”, analisa Renato Porto, presidente-executivo da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).
O executivo lembra que o Marco Legal da Inovação, especialmente após sua atualização, em 2016 (Lei nº 13.243), e regulamentação, pelo Decreto nº 9.283/2018, trouxe avanços como o uso compartilhado de infraestrutura entre Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs) e empresas, a facilitação de contratos e a atuação de pesquisadores em projetos de inovação privada.
“Essas mudanças ampliaram a segurança jurídica e tornaram o ambiente mais favorável a parcerias estratégicas, com impactos concretos na geração de propriedade intelectual, no estímulo à pesquisa aplicada e na criação de soluções inovadoras para a saúde. A sinergia com a Lei de Pesquisa Clínica reforça esse ecossistema inovador.”
Segundo Porto, a criação de políticas que incentivem a inovação e a pesquisa científica, desburocratizem processos regulatórios e ofereçam previsibilidade jurídica é essencial. “A Lei de Pesquisa Clínica, aprovada e publicada após quase dez anos de tramitação, foi um avanço nesse caminho, ao estabelecer regras claras, éticas e modernas para estudos clínicos no Brasil, ampliando a atratividade do país, mas seguimos aguardando sua regulamentação, que na nossa visão é urgente para que o Brasil consiga explorar todo o seu potencial na área.”
Um dos principais instrumentos para conectar o conhecimento técnico dos hospitais de excelência com as demandas reais do Sistema Único de Saúde (SUS) é o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), que tem se mostrado um catalisador da inovação científica, da pesquisa clínica e da incorporação de novas práticas assistenciais no país.
Criado em 2009 e coordenado pelo Ministério da Saúde, o Proadi-SUS já viabilizou centenas de projetos com foco em cinco eixos estratégicos: pesquisa, capacitação profissional, avaliação de tecnologias, gestão e assistência de alta complexidade.
A pesquisa clínica vem ganhando cada vez mais relevância nesse cenário. Diversos projetos conduzidos pelos hospitais participantes — Hcor, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Hospital Moinhos de Vento, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e Hospital Sírio-Libanês — têm investigado desde medicamentos inovadores até terapias de alta complexidade.
“Entre os destaques está o projeto CAR-T, do Hospital Israelita Albert Einstein, que busca viabilizar a aplicação da terapia com células CAR-T para tratar leucemias refratárias — um avanço de ponta na oncologia. Já o projeto Ártemis, do Hospital Moinhos de Vento, usa medicina de precisão para estudar o impacto de variações genéticas no risco de AVC na população brasileira”, conta Admilson Reis, superintendente de Responsabilidade e Gestão de Riscos do Hospital Moinhos de Vento e um dos representantes do Programa neste triênio.
Outras iniciativas relevantes incluem o estudo Dica-HF, que investiga o manejo da hipercolesterolemia familiar com base na Alimentação Cardioprotetora Brasileira, e o PegaSUS, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que fortalece o controle da resistência bacteriana em hospitais públicos. Também merece destaque o projeto Mapa Genoma Brasil, da BP, que está construindo um banco de dados genéticos e clínicos para avançar na gestão de doenças crônicas como câncer e cardiopatias.
Reis diz que, além da pesquisa, o Proadi-SUS também aposta na inovação tecnológica como vetor de transformação. Projetos como o Ciência de Dados (Hospital Oswaldo Cruz), o Banco de Imagens (Einstein) e o Boas Práticas (BP e Hcor) utilizam inteligência artificial para agilizar diagnósticos e apoiar decisões clínicas. Entre os resultados práticos estão algoritmos para detecção precoce de tuberculose em radiografias, lesões cutâneas malignas em imagens de pele e infarto em eletrocardiogramas — todos voltados à realidade do SUS.
Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento, destaca que, por meio do Proadi-SUS, a instituição tem aprovados, no triênio 2024–2026, 38 projetos, sendo 26 deles no Rio Grande do Sul, em 78 municípios e 165 frentes de trabalho.
Além do Ártemis, já citado, destacam-se também o Onco-Genomas Brasil, em parceria com o Genomas Brasil, que posiciona o SUS na vanguarda da oncogenômica e da medicina personalizada, e o Promote, que alia farmacoterapia de baixo custo e tecnologia digital para ampliar a prevenção do acidente vascular cerebral (AVC) em larga escala no Brasil.
O hospital conta também com um Centro de Pesquisa Clínica, que atualmente acompanha 208 estudos ativos — muitos deles multicêntricos e desenvolvidos em parceria com indústrias farmacêuticas e universidades. A estrutura de pesquisa também inclui um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), um Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) e a MOVE Academic Research Organization, com capacidade para coordenar ensaios clínicos randomizados.
Atualmente, as prioridades dos projetos Proadi-SUS incluem doenças crônicas (diabetes, hipertensão, câncer), doenças raras, saúde materna e infantil, além de temas emergentes como saúde digital e medicina personalizada.
Para o triênio 2024–2026, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (Sectics) já acompanha uma série de projetos estratégicos, como o estudo sobre tratamento inovador para anemia falciforme e a oferta de cursos de formação em pesquisa clínica. As prioridades para o triênio seguinte (2027–2029) ainda serão definidas, mas o foco deve continuar sendo o fomento à ciência aplicada, à formação de pesquisadores e ao desenvolvimento de soluções com impacto direto na população.
Hospitais investem em parcerias para garantir inovação
As parcerias estratégicas vêm possibilitando que centros de excelência como o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InCor) desenvolvam soluções inovadoras com alto impacto assistencial, científico e social.
Atualmente, o InCor possui mais de 1.170 projetos científicos cadastrados, conduzidos por diferentes departamentos e coordenados por sua Comissão Científica. A maioria dessas iniciativas envolve colaborações com universidades, centros de pesquisa, agências de fomento e empresas nacionais e internacionais. O foco é transformar conhecimento em valor para a saúde, com soluções escaláveis, seguras e sustentáveis.
Um dos destaques é o projeto TAC – Teleorientação do Ato Cirúrgico, desenvolvido em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Cisco, que utiliza tecnologias de telepresença para permitir apoio técnico e científico remoto a procedimentos cirúrgicos em tempo real, ampliando a segurança, a educação médica e a equidade no acesso ao cuidado especializado.
“Além disso, participamos de estudos multicêntricos sobre terapias avançadas em insuficiência cardíaca, doenças pulmonares raras e prevenção cardiovascular, em parceria com redes nacionais e internacionais de pesquisa clínica”, explica Paulo Pêgo Fernandes, presidente da Comissão Científica do InCor.
No campo da ciência translacional, o Instituto mantém colaborações com a Universidade de São Paulo e centros internacionais, como a KHIDI, da Coreia do Sul, e hubs de saúde digital em Israel e na Dinamarca, por meio do programa InovaInCor.
“O objetivo é transformar descobertas laboratoriais em soluções clínicas, de forma ágil e com aplicabilidade real. Projetos como o PhysioSync, voltado à avaliação de custo-efetividade de tratamentos para insuficiência cardíaca, e o TelePen, que aplica inteligência artificial no ambiente de UTI, são exemplos concretos desse modelo de inovação aplicada”, comenta Fabio Jatene, diretor do Serviço de Cirurgia Cardiovascular e vice-presidente do Conselho Diretor.
Fernandes avalia que as parcerias estratégicas têm sido fundamentais para democratizar o acesso à saúde especializada, com modelos inovadores de cuidado conectando o hospital ao cotidiano dos pacientes, promovendo o acompanhamento proativo, a redução de internações e a inserção de novas populações em linhas de cuidado especializadas.
“Já os ensaios clínicos abrem portas de acesso à população aos mais novos tipos de tratamentos em diversas frentes. As parcerias permitem a incorporação de novas tecnologias, ampliação da capacidade diagnóstica e desenvolvimento de protocolos mais eficazes, o que reduz o tempo de resposta e melhora os desfechos clínicos. Isso resulta em maior cobertura e acesso, especialmente em áreas de alta complexidade”, destaca Jatene.
Para garantir a sustentabilidade dessas iniciativas, o InCor opera com uma matriz de financiamento diversificada, que inclui recursos públicos vindos de instituições como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), além de investimento internacional, aportes da indústria e, cada vez mais, projetos incentivados pela Lei de Informática.
“Essa estrutura nos permite não apenas diversificar nossas fontes de financiamento, mas também manter um ambiente de inovação, colaboração e impacto, essencial para o avanço da ciência translacional e a formação de parcerias de longo prazo”, destaca Fernandes.
No Instituto de Neurologia de Curitiba (INC), que também tem avançado na ciência por meio de parcerias, a ciência translacional se concretiza por meio de parcerias público-privadas estratégicas focadas no fortalecimento tanto da produção científica quanto da inovação aplicada à assistência em saúde.
“Temos dois tipos de pesquisa: pesquisas clínicas, nas quais prestamos serviços para a indústria farmacêutica nos testes de novos medicamentos e/ou vacinas, e pesquisas próprias, como o desenvolvimento de novas técnicas, levantamento de dados clínicos, avaliação de resultados e outros”, destaca Pedro Kowacs, neurologista e chefe do Centro de Pesquisa Clínica do INC.
O executivo cita como exemplo de parcerias bem-sucedidas a realizada, em 2021, com a pós-graduação em Biotecnologia Industrial da Universidade Positivo, na qual foi desenvolvido in vivo um monitor invasivo por WiFi da pressão intracraniana. “Essa pesquisa rendeu uma patente, apresentação de diversos trabalhos e publicação no Neurosurgery, uma das principais revistas científicas do mundo da especialidade.”
Outro exemplo é a colaboração com o Instituto Nupen de Laserterapia, iniciada em 2022, que viabilizou pesquisas sobre a associação da terapia fotodinâmica intraoperatória com o corante 5-ALA no tratamento de gliomas malignos. O trabalho, além de gerar evidência científica robusta, já foi incorporado à prática clínica do INC, demonstrando o impacto direto das parcerias na qualidade do cuidado prestado.
Em relação às estratégias de financiamento, Kowacs diz que boa parte dele advém dos contratos firmados com os parceiros, que garantem verba ao centro de estudos do INC. “Isso assegura previsibilidade e continuidade às linhas de pesquisa, além de possibilitar a expansão de projetos voltados ao re-propósito de fármacos e à criação de novas tecnologias assistenciais.”
As operadoras de planos de saúde têm ampliado sua atuação para além da assistência, assumindo um papel cada vez mais estratégico na promoção da ciência, da inovação e da sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro. Uma das formas mais eficazes de concretizar esse avanço tem sido por meio das parcerias público-privadas.
Um dos exemplos vem do Instituto de Pesquisa da Hapvida NotreDame (IPE-Hapvida), que mantém colaborações estratégicas com instituições nacionais e internacionais de reconhecida excelência acadêmica e científica. Entre os parceiros, destacam-se Centros de Pesquisa dos Hospitais Albert Einstein, A.C. Camargo Cancer Center, Sírio-Libanês e Bar-Ilan University (Israel). Também há parcerias com a indústria farmacêutica e de tecnologias médicas, por meio de acordos de colaboração em estudos clínicos multicêntricos.
A seleção de parceiros, conta Odrigo Sardenberg, diretor nacional do Instituto, segue critérios baseados em excelência científica, alinhamento estratégico com as linhas de cuidado prioritárias da Hapvida, capacidade operacional para execução de projetos multicêntricos e histórico de conformidade ética e regulatória. As decisões são respaldadas por comitês técnico-científicos internos e análises de viabilidade ética, financeira e regulatória.
“Os achados científicos provenientes das parcerias são submetidos a processos estruturados de validação clínica e análise de custo-efetividade. Após essa etapa, poderão ser incorporados aos protocolos assistenciais por meio de diretrizes internas, capacitação de equipes e integração aos sistemas eletrônicos de saúde. Isso garante a tradução rápida e segura do conhecimento científico em benefício direto ao paciente, promovendo medicina de precisão, rastreamento populacional inteligente e terapias personalizadas”, explica o executivo.
Sardenberg diz ainda que a governança do Instituto é baseada em pilares de sustentabilidade científica, ética e financeira. “Contamos com um conselho consultivo científico, comitês de compliance e avaliação de impacto, além de um núcleo de gestão de projetos responsável por captar recursos junto a agências de fomento nacionais (como CNPq e Finep), fundos internacionais e parcerias com a indústria. A integração das linhas de pesquisa às estratégias assistenciais e operacionais da rede garante que os investimentos em ciência retornem em valor assistencial, inovação e diferencial competitivo sustentável.”
A startup LifeTime tem atuado para ampliar a representatividade de brasileiros em estudos multicêntricos globais. Em um país continental como o Brasil, onde os desafios de acesso à informação e à saúde de qualidade ainda são grandes, a LifeTime aposta na escuta ativa, na colaboração com associações de pacientes e em parcerias com centros de excelência para transformar o cenário da pesquisa clínica nacional.
“No Brasil, existem milhares de associações e Organizações Não Governamentais (ONGs) e nem todas possuem uma estrutura de governança para atender esse paciente no tempo e da forma adequada. Nesse cenário, criamos soluções direcionadas, em parceria com essas associações, trazendo assim um maior dinamismo na jornada do paciente”, conta o diretor comercial da empresa, André Andrade.
Para garantir impacto real e abrangência nacional, a LifeTime construiu uma rede de parcerias com instituições de ponta em diversas regiões do Brasil, como IBCC Oncologia, BR Trials, Instituto do Câncer Brasil, Science Valley Institute, Ruschel Medicina e Instituto de Oncologia do Paraná, entre outras.
“Essas colaborações fazem com que a pesquisa clínica ganhe voz, ganhe representatividade na sociedade. Nosso maior desafio é falar de pesquisa com quem não faz pesquisa; é atuar junto ao médico que não tem o conhecimento que pode ofertar uma oportunidade terapêutica para o seu paciente.”
Entre os resultados já alcançados, destaca-se a parceria com o IBCC Oncologia, que permitiu o recrutamento de mais de 500 voluntários, dos quais mais de 90 tiveram acesso direto a estudos clínicos. Inicialmente com impacto local, a atuação da LifeTime evoluiu para uma plataforma de alcance nacional, que hoje disponibiliza aos pacientes e profissionais 100% da base de estudos clínicos registrados no Brasil.
O executivo da Interfarma comenta que as parcerias precisam ser construídas com base na confiança, transparência, no diálogo e na colaboração entre todos os atores envolvidos: governos, operadoras, médicos, pacientes, instituições acadêmicas e organizações da sociedade civil.
“Devem ser muito bem estabelecidas antes de serem iniciadas, para que fique claro o papel de cada ente envolvido. São acordos bem estruturados que trazem segurança jurídica e garantem benefícios mútuos entre as partes em ambientes colaborativos, com marcos legais adequados, governança transparente e ética”, comenta.
Na visão de Porto, o futuro aponta para um fortalecimento dos modelos de inovação aberta, com ambientes colaborativos que conectam indústria, academia, setor público e sociedade civil em torno de objetivos comuns, impulsionando o desenvolvimento de terapias mais eficazes e centradas no paciente.
“A medicina de precisão tende a avançar, com o uso de biomarcadores, terapias personalizadas e maior coordenação entre dados clínicos e estratégias de cuidado. Ao mesmo tempo, a regulamentação da Lei de Pesquisa Clínica cria um ambiente propício para estudos de alta complexidade, aumentando a atratividade do Brasil como polo de pesquisa e inovação em saúde.” À medida que o Brasil consolida uma cultura de colaboração entre os setores público e privado, o país avança rumo a um ecossistema de inovação mais robusto e alinhado às necessidades da população. As parcerias estratégicas têm contribuído para acelerar o desenvolvimento científico, modernizar infraestruturas, formar profissionais e viabilizar pesquisas com impacto real na vida dos pacientes.