Saúde baseada em valor: por que mudar a lógica do cuidado é urgente?
26/08/2025

Menos volume, mais resultados. Esse é o princípio que sustenta a saúde baseada em valor (Value-Based Health Care – VBHC), conceito desenvolvido por Michael Porter e Elizabeth Teisberg em meados dos anos 2000. O modelo propõe que a eficiência de um sistema de saúde não seja medida pela quantidade de procedimentos, mas pelos desfechos que realmente importam para o paciente, em relação aos custos. A meta é clara: melhorar qualidade de vida, reduzir complicações e tornar o cuidado sustentável. 

A teoria é simples, mas sua implementação impõe mudanças profundas. É preciso alinhar incentivos, superar a fragmentação e adotar indicadores que expressem valor — um desafio que, para os países latino-americanos, envolve barreiras culturais, regulatórias e estruturais. 

Acesso não basta: qualidade é o novo parâmetro 

No Brasil, a discussão já começou a mudar de tom. Para Carla Soares, diretora-presidente interina da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a lógica centrada apenas em garantir acesso está esgotada. 

“Já conseguimos caminhar teimosamente para que, numa mudança de cultura, se perceba que não basta ampliar o acesso. Acesso com qualidade representa valor em saúde”, afirma Carla na abertura do 2º Congresso Latino-Americano de Valor em Saúde (CLAVS), promovido pelo Instituto Brasileiro de Valor em Saúde (Ibravs)

A diretora-presidente interina defende que as operadoras assumam um papel mais ativo na gestão do cuidado e que o paciente seja orientado ao longo da jornada. “A grande maioria já percebe que não é mera intermediária financeira, mas gestora de cuidados. Sozinho, o cidadão não detém conhecimento para a melhor tomada de decisão. É preciso permitir-se ser orientado”, pontua. 

Assista: ANS avança em modelos de remuneração baseados em valor e qualidade na saúde suplementar

Essa mudança cultural precisa ser acompanhada por instrumentos regulatórios que orientem o setor na prática. Há cerca de 15 anos, a ANS se movimenta em relação à saúde baseada em valor. Maurício Nunes, diretor de Desenvolvimento Setorial da agência, explicou que ANS tem avançado nesse sentido por meio de acordos de cooperação com entidades estratégicas. 

“É importante destacar que a gente tem um acordo de cooperação técnica com quatro entidades: Ibravs, Coffitto, Crefito de São Paulo e de Minas Gerais. No âmbito desse acordo, o Ibravs assumiu dois dos cinco produtos. O primeiro é nos ajudar com a revisão do guia do modelo de remuneração baseado em valor, que é um documento da ANS que já existe, mas que será revisitado com apoio técnico de especialistas.” 

Segundo Nunes, o framework entregue pelo Ibravs, durante o CLAVS’25, é um passo fundamental para esse processo, pois reúne contribuições de profissionais das áreas jurídica, contábil e de auditoria.  

O material funcionará como referência para a atualização do guia oficial, que orientará como a remuneração baseada em valor deve ocorrer na prática, nas relações entre operadoras e prestadores, além de estabelecer diretrizes para o reporte das informações à agência. 

Informação, integração e regulação eficiente 

Nos países vizinhos, os obstáculos são semelhantes. Claudio Stivelman, superintendente de Serviços de Saúde da Argentina, reforça que informação confiável é a base para qualquer avanço. 

“Temos uma situação muito semelhante na cultura de utilização e venda de serviços. Sem informação real, não há como encontrar equilíbrio entre custos, acesso e valor.” 

A Argentina enfrenta o desafio de revisar sua cobertura obrigatória, considerada ampla e desatualizada, e criar mecanismos de avaliação de tecnologias que deem racionalidade ao gasto. “Nosso primeiro passo foi gerar informação que nos permitisse avançar. Sem isso, não há regulação eficaz.” 
 

Valor como motor da sustentabilidade 

A lógica do VBHC também está no centro das propostas defendidas por Christian Maza, presidente da Associação Latino-Americana de Sistemas Privados de Saúde (Alami). Para Maza, o conceito não é uma tendência passageira, mas uma resposta urgente ao esgotamento dos modelos atuais. 

“Não basta contar quantas consultas ou cirurgias foram feitas. Devemos nos perguntar: essa intervenção melhorou a qualidade de vida do paciente? Evitou uma complicação futura?”, reflete. 

Maza aponta três eixos fundamentais para tornar a mudança possível: parcerias público-privadas, saúde digital interoperável, pois “sem dados confiáveis não se fala em valor”, e formação de lideranças, para que os futuros gestores já pensem em resultados e não em volume. 

O desafio, no entanto, não está na falta de diagnóstico, mas na resistência à mudança. Como resume César Abicalaffe, presidente do Ibravs. 

“Parece que todo mundo já tem um diagnóstico. Sabe que o setor está doente, por que não corrige?! Porque é complexo e tem muita gente ganhando com a ineficiência.” 

O consenso entre especialistas aponta: mudar a lógica do sistema exige coragem para alinhar incentivos, construir métricas compartilhadas e, sobretudo, adotar uma visão em que valor não significa quantidade, mas saúde real para a população. 

 





Obrigado por comentar!
Erro!
Contato
+55 11 5561-6553
Av. Rouxinol, 84, cj. 92
Indianópolis - São Paulo/SP