A adoção de modelos de remuneração baseados em valor avança como uma das mudanças mais relevantes para a sustentabilidade do setor de saúde no Brasil. Ao substituir a lógica tradicional de pagamento por volume, esses modelos buscam alinhar eficiência financeira, qualidade assistencial e desfechos clínicos, estimulando práticas centradas no paciente.
Especialistas e gestores compartilham experiências que vão além da teoria, com condições para tornar essa transição viável — desde a definição de indicadores até a criação de mecanismos que equilibrem previsibilidade para os pagadores e incentivos à qualidade para os prestadores.
Na implementação dos episódios de cuidado, as propostas e estratégias em desenvolvimento reforçam que a seleção das condições clínicas prioritárias deve levar em conta prevalência, impacto financeiro, complexidade assistencial e disponibilidade de dados.
A avaliação desses fatores é mandatória, segundo André Médici, conselheiro do Instituto Brasileiro de Valor em Saúde (Ibravs), economista e mentor em inovações em VBHC, durante o 2º Congresso Latino-Americano de Valor em Saúde (CLAVS).
“O objetivo do pagamento por episódio não é reduzir custos. Reduzir custos pode ser consequência da eliminação de desperdícios, mas a finalidade central é melhorar desfechos e garantir maior resolutividade para o paciente”, ressalta Médici.
O conselheiro defende que a mudança requer um novo olhar sobre a remuneração. “Não se trata de pagar menos, mas de pagar melhor. O futuro da saúde não é pagar por fazer, e sim pagar por resolver”, afirma.
Entre os pontos destacados por Médici, estão a necessidade de equilibrar componentes fixos e variáveis nos pagamentos, combinando previsibilidade com incentivos à qualidade. Isso pode envolver modelos prospectivos e retrospectivos, que ajustam valores conforme o desempenho e o risco assumido.
“É fundamental contar com dados robustos para ajustes de risco e com protocolos bem definidos, mesmo que não obrigatórios, mas baseados em boas práticas”, alerta.
Para Médici, a falta de padronização clínica, bases de dados frágeis, ausência de ajustes por risco e falhas na governança são os principais riscos para o sucesso do modelo. “Sem dados confiáveis, não conseguimos avançar. Como dizia Deming, em Deus nós confiamos; para todos os outros, precisamos de dados”, reforça.
O conselheiro também chamou atenção para a importância da transparência e da clareza contratual, inclusive em mecanismos de compartilhamento de risco, como economia dividida e bônus por qualidade.
“Os parâmetros mudaram. O pagamento baseado em episódios exige previsibilidade e regras bem definidas, mas também flexibilidade para ajustes diante da complexidade assistencial”, conclui.
Como exemplo concreto da aplicação de modelos de remuneração baseada em valor, Aline Chibana, gerente do Escritório de Valor do A.C.Camargo Câncer Center, apresentou, no CLAVS’25, a experiência da instituição no desenho e implementação de bundles oncológicos para cinco linhas prioritárias: mama, próstata, pulmão, colorretal e colo de útero.
Desenvolvido com base no guia da ANS, o projeto adota uma lógica progressiva para lidar com a complexidade da jornada oncológica. “Optamos por dividir em bundles menores. Começamos pelos cirúrgicos e agora estamos na fase de implementar o sistêmico. É um modelo recente, em que temos trabalhado há um ano e meio”, explica.
A construção do modelo envolveu estratificação detalhada por estadiamento, subtipos tumorais e risco clínico, criação de clusters de cuidado e definição de indicadores de eficiência e desfecho, como tempo entre diagnóstico e início do tratamento, sobrevida livre de progressão, complicações, reinternações e relatos de qualidade de vida.
“Nosso objetivo é garantir desfechos relevantes para o paciente e eficiência para o sistema”, pontua. Aline conta que os resultados preliminares são positivos. “Até agora, os pacientes seguiram bem, sem reinternação e sem reoperação”, enaltece.
Mas os aprendizados vão além da técnica. Para a executiva, a construção colaborativa com as operadoras é decisiva para a sustentabilidade do modelo. “É muito mais proveitoso construir junto do que chegar com o produto pronto e descobrir que não era isso que a operadora esperava”, explica.
Na construção de modelos de cuidado em saúde, a escuta ativa é essencial. “Ouvir as expectativas dos parceiros permite ajustar o modelo para atender às prioridades, como redução de reinternações ou foco no tratamento sistêmico, por exemplo”, sugere Aline.
A executiva é categórica quanto a dois elementos fundamentais na relação entre o prestador e a operadora: confiança e transparência.
“O sistema pede previsibilidade, mas para isso precisamos dar um passo em relação à confiança, na qualidade da assistência e no controle de dados que o prestador vai ter. Transparência sobre como o modelo é conduzido e como a remuneração variável será acordada é indispensável”, completa.
Aline reforça a importância da governança e da clareza nos critérios de avaliação. “Com a nossa contribuição para o guia de novos modelos de remuneração, esperamos ajudar a definir indicadores que são essenciais para um projeto e que não podem faltar nesse modelo”, disse.
Repensar a lógica de remuneração, ainda centrada em volume em vez de valor, é um desafio urgente. “Temos uma medicina que nos orgulha, mas ela não cabe no orçamento. Precisamos ser efetivos, reduzir desperdícios e adotar soluções personalizadas para cada realidade”, destaca Stephen Stefani, oncologista e professor de avaliação em tecnologia e economia em saúde.
Nesse contexto, o professor acrescenta. “O modelo atual não captura valor. Precisamos migrar para um sistema que considere os desfechos alcançados e a eficiência do cuidado”, reforçando que a ética e a transparência são pilares indispensáveis para o sucesso dessa transformação.