Quando especialistas são questionados sobre as tendências para o futuro da saúde, alguns temas aparecem de forma consistente: uso intensivo de dados para o desenvolvimento de medicamentos e terapias mais personalizadas, inteligência artificial, técnicas menos invasivas, “wearables” (dispositivos eletrônicos vestíveis), telemedicina, robótica, nanotecnologia e biotecnologia.
Sidney Klajner, cirurgião e presidente do Einstein Hospital Israelita, explica que a medicina segue o mesmo caminho de outros setores da economia, ao incorporar a transformação digital e a ciência baseada em dados para entregar personalização. Com isso, deixa-se de tratar doenças de forma isolada para olhar o indivíduo como um todo. “Cada vez mais conseguimos enxergar, principalmente na oncologia, que cada tumor tem um comportamento biológico diferente, baseado nas características genéticas da pessoa ou na predisposição ao aparecimento da doença. Isso permite não perder tempo com um tratamento que não vai dar certo”, afirma.
Como esses avanços dependem de grandes volumes de informação, o Einstein tornou-se um dos membros-fundadores da Mayo Clinic Platform_Connect, iniciativa que conecta oito organizações de saúde no mundo para acelerar a inovação. O projeto reúne dados anonimizados de cerca de 50 milhões de pessoas em quatro continentes. A participação amplia a representatividade da América Latina em pesquisas globais, já que a população da região é historicamente sub-representada em estudos de inteligência artificial e tecnologia aplicada à saúde. Levantamentos da área indicam que mais de 50% dos dados usados para treinar sistemas de IA vêm dos Estados Unidos e da China.
Ao falar sobre as áreas da medicina que devem dar os maiores saltos nos próximos anos, Klajner destaca as cirurgias minimamente invasivas, que utilizam recursos tecnológicos para reduzir traumas e acelerar a recuperação; a engenharia tecidual, que poderá permitir a geração de tecidos e até órgãos em laboratório a partir de células-tronco do próprio paciente; e a genômica, com potencial para substituir ou neutralizar genes associados a doenças. “Na minha área, como cirurgião digestivo, há casos em que somos obrigados a remover um órgão inteiro porque sabemos que aquele gene vai gerar câncer. Imagina poder substituir ou neutralizar esse gene?”, diz.
A ingestão de cápsulas com microcâmeras poderá substituir exames invasivos como colonoscopia, diz Carlos Martins
Para Carlos Martins, presidente da Roche Diagnóstica, mais do que uma tecnologia isolada, o que vem elevando o padrão da medicina é a integração entre diferentes soluções. Ele cita como exemplo um novo sensor para monitoramento do diabetes, que combina um dispositivo não invasivo aplicado na pele, conectividade via celular e algoritmos de inteligência artificial capazes de prever a glicemia do paciente nas sete horas seguintes. “Essa predição é crucial para prevenir episódios de hipoglicemia noturna, que podem ser fatais, e deixa o paciente muito mais empoderado do que com métodos tradicionais”, afirma.
Outro campo em rápido desenvolvimento é a nanotecnologia aplicada ao diagnóstico. A Roche trabalha no desenvolvimento de cápsulas microscópicas que, ao serem ingeridas, transmitem informações sobre enzimas, sangue e tudo o que estiver no trajeto delas pelo trato digestivo. “É possível incorporar uma microcâmera nessa cápsula e observar o que está acontecendo no organismo. A colonoscopia, por exemplo, poderia deixar de ser necessária”, diz Martins.
Todo esse avanço, no entanto, exige investimentos elevados e de longo prazo. Em 2024, a Roche investiu 15 bilhões de francos suíços (R$ 103 bilhões) em pesquisa e desenvolvimento. “Cerca de 3 bilhões de francos suíços (R$ 20 bilhões) foram destinados às fases iniciais de projetos que só chegam ao mercado em cinco ou dez anos, sabendo que algumas dessas iniciativas vão dar certo e outras não”, afirma.
O conjunto de novas tecnologias de prevenção, monitoramento e tratamento promete ampliar a longevidade. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer passou de 71,1 anos, em 2000, para 76,6 anos em 2024.
Ainda assim, viver mais não é sempre sinônimo de viver melhor. Segundo Maisa Kairalla, geriatra do Hospital Sírio-Libanês, a tecnologia é uma aliada importante. “Ela joga a nosso favor em todas as áreas. Temos exames apoiados por inteligência artificial, telemedicina e acesso a especialistas em qualquer lugar”, observa. Na geriatria, há uso crescente de robôs, desde os que auxiliam em tarefas domésticas até os que simulam animais de estimação e interagem socialmente. “Isso reduz a solidão e se traduz em melhora da memória, da depressão e da funcionalidade.”
Além disso, doenças crônicas e degenerativas, como diabetes, Alzheimer e Parkinson, terão tratamentos novos e mais eficazes. Ainda assim, recomendações médicas conhecidas há bastante tempo permanecem. “Cerca de 70% do nosso envelhecimento depende da gente. Apesar de todo esse arsenal tecnológico, o ser humano continua se beneficiando do básico: hábitos saudáveis, atividade física, vínculos sociais, fé e exames em dia”, conclui.