Encerramos 2025 com uma percepção clara que a maturidade digital dos hospitais não evoluiu na velocidade que esperávamos. Houve avanços importantes, sim, especialmente na expansão da infraestrutura crítica, na integração de dados assistenciais e na adoção de ferramentas de apoio à decisão clínica. Mas também houve desapontamentos por conta das expectativas otimistas sobre a capacidade de execução, orçamento e mudança cultural. Entramos em 2026 com a responsabilidade de fazer um acerto de contas com a realidade, para que possamos construir algo sustentável em vez de repetir promessas vazias.
Uma das frustrações de 2025 foi perceber que parte significativa dos hospitais continuou apostando em soluções de digitalização, como aplicações, interfaces e novos módulos sem equilibrar a base que sustenta tudo isso. Quando faltam redes resilientes, gestão adequada de dispositivos, arquitetura de dados clara e governança consistente, qualquer avanço se torna frágil.
Muitos projetos travaram não por questões técnicas, mas estruturais, por conta de ambientes híbridos mal dimensionados, interoperabilidade subestimada, ausência de mapeamento de processos e maturidade baixa em segurança da informação. A consequência foi que as expectativas de automação, integração e eficiência não se concretizaram.
Outra previsão que não se confirmou em 2025 foi a crença de que o corpo clínico estaria mais engajado com novas rotinas digitais. A verdade é que a mudança cultural segue como o principal desafio. Profissionais de saúde lidam com alta pressão assistencial, falta de tempo e processos fragmentados. Esperar adoção imediata de ferramentas digitais, sem repensar fluxos e sem incluir esses profissionais desde o projeto da solução, é um erro. TI não deve ser apenas fornecedora de tecnologia, mas parceira de construção de processos, e quando isso não acontece, a maturidade estagna.
A maturidade digital do setor segue travada pela incapacidade de fazer os sistemas conversarem entre si e seguirmos com a pauta da interoperabilidade. Em 2025, era esperado um avanço mais acelerado em padrões de integração, centralização de dados clínicos e uso inteligente de indicadores assistenciais. Em 2026, não haverá mais espaço para tolerar dados ilhados. Interoperabilidade deixou de ser tendência, é condição mínima para garantir segurança, produtividade e qualidade assistencial.
Se houve um ponto positivo nisso tudo, veio por conta da cibersegurança, já que os incidentes que marcaram o setor deixaram claro que maturidade digital não existe sem uma postura de segurança robusta. Mas apesar dessa tomada de consciência, muitas instituições passaram 2025 ainda “tapando buraco”, em vez de trabalhar com estratégias estruturantes de Zero Trust, controle de acesso, segmentação e gestão contínua de vulnerabilidades. A expectativa otimista de que a segurança estaria mais madura esbarrou nos orçamentos curtos e na dificuldade de reter especialistas.
2026: o ano em que TI precisa assumir seu papel estratégico
O amadurecimento digital dos hospitais não nascerá de compras pontuais de tecnologia, mas da consolidação de uma visão estruturada. No próximo ano, a TI precisa ocupar definitivamente o lugar que ainda hesitamos em assumir, o de área estratégica, orientando a operação e influenciando nas decisões clínicas e administrativas. Isso significa fazer:
Hospitais que desejam dar um salto real em 2026 devem abandonar a ideia de “projeto” como solução isolada e abraçar a jornada como estratégia contínua. Isso exige coragem para rever processos, clareza para priorizar e humildade para reconhecer limites, inclusive os que ficaram expostos ao longo de 2025.
A jornada da maturidade digital requer consistência e se há algo que o último ano nos ensinou, é que somente os hospitais que tiverem disciplina técnica, visão de longo prazo e respeito pelos desafios humanos conseguirão avançar de verdade.
*Edgard Nienkotter é CEO na Hexa IT.