O Ambulatório de Filantropia do Sírio-Libanês passou a oferecer assistência gratuita e especializada em diabetes tipo 2 para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) atendidos no Ambulatório Geral e Didático da Disciplina de Clínica Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (AGD HC-FMUSP). A iniciativa tem como foco promover mudanças sustentáveis no estilo de vida, ampliar o acesso a cuidados que não estão rotineiramente disponíveis no SUS e melhorar a qualidade de vida, a autonomia e a prevenção de complicações associadas à doença.
Desenvolvido em conjunto com o AGD-HCFMUSP, o projeto é voltado a adultos entre 45 e 65 anos com diagnóstico de diabetes tipo 2 e propõe uma reorganização do cuidado multiprofissional, com acompanhamento interdisciplinar integrado, educação em saúde e incorporação de estratégias de autocuidado e hábitos saudáveis como parte essencial do tratamento, indo além da prescrição medicamentosa tradicional.
A iniciativa coloca o paciente no centro do cuidado e trabalha a corresponsabilização nas decisões terapêuticas. “O diabetes precisa ser tratado para além do medicamento e de forma centrada. Quando o cuidado considera o estilo de vida, o contexto social e as necessidades reais do paciente, os resultados clínicos melhoram e a qualidade de vida se transforma de forma consistente”, afirma Felipe Duarte Silva, gerente de práticas médicas e pacientes internados do Hospital Sírio-Libanês.
Atualmente, cerca de 589 milhões de adultos entre 20 e 79 anos vivem com diabetes no mundo, o equivalente a 1 em cada 9 pessoas nessa faixa etária, segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF). A projeção é que esse número ultrapasse 850 milhões até 2050, com impacto direto sobre sistemas públicos de saúde, especialmente em países em desenvolvimento.
No Brasil, aproximadamente 16,6 milhões de adultos convivem com a doença, o que coloca o país na sexta posição no ranking mundial em número absoluto de casos. A prevalência aumenta com a idade, atingindo quase 22% da população entre 65 e 99 anos, o que reforça a importância de intervenções precoces, preventivas e centradas no paciente.
No modelo adotado pelo Programa, os pacientes terão acesso a recursos que não fazem parte da rotina assistencial do SUS, como exames de bioimpedância, avaliação digital do fundo de olho e análise especializada da pisada, consideradas ferramentas importantes para o rastreamento precoce de lesões em órgãos-alvo e para a prevenção de complicações, especialmente nos pés. “Ao oferecer esse tipo de cuidado aos pacientes, conseguimos atuar de maneira mais preventiva e reduzir o risco de complicações que comprometem a autonomia e a qualidade de vida, contribuindo também para a sustentabilidade do sistema de saúde”, explica Luiz Francisco Cardoso, diretor de Governança Clínica do Hospital Sírio-Libanês.
O fluxo assistencial prevê que os pacientes sejam inicialmente identificados no Hospital das Clínicas, com base em critérios clínicos definidos em conjunto pelas instituições. Durante 12 meses, o acompanhamento será compartilhado: o Sírio-Libanês ficará responsável pelos exames de acompanhamento e pelo cuidado multidisciplinar relacionado especificamente ao diabetes, enquanto o HC manterá o seguimento clínico. Após esse período, o paciente retorna integralmente ao acompanhamento no HC.
A expectativa é atender até 40 pacientes por mês. Entre os critérios de participação estão idade entre 45 e 65 anos, diagnóstico de diabetes tipo 2, ausência de quadros clínicos graves e condições para adesão às atividades propostas.
Um dos principais diferenciais da iniciativa é a avaliação multidisciplinar integrada e coordenada, que considera aspectos orgânicos, psicológicos e sociais. A partir dessa análise, o plano terapêutico com foco em mudanças reais e sustentáveis no cotidiano do paciente é traçado.
“Nossa meta é evitar que o diabetes avance de forma silenciosa e comprometa a vida do paciente, com perda de autonomia, afastamento do trabalho e maior sobrecarga ao sistema de saúde, bem como melhorar a qualidade de vida de cada indivíduo acompanhado pelo serviço”, conclui Maria do Patrocínio.
Além das atividades assistenciais, o Programa deverá contribuir para a geração de conhecimento com projetos de pesquisa atrelados em ambas as instituições. “A pesquisa neste contexto permite não apenas aprimorar o olhar para a doença, mas para aspectos relacionados ao modelo e à gestão do cuidado, o que pode apoiar na construção de políticas públicas orientadas ao conceito de entrega de valor”, afirmou Chin An Lin, Chefe dos Ambulatórios do Serviço de Clínica Geral do HCFMUSP.