A segurança do paciente deixou de ser apenas um indicador assistencial e passou a ocupar um lugar estratégico na sustentabilidade das instituições de saúde. Ainda assim, falhas graves no ambiente cirúrgico, como a retenção de corpos estranhos em procedimentos, continuam ocorrendo em volume preocupante no Brasil.
Esse tipo de erro evidencia que protocolos, checklists e tecnologias, quando adotados de forma isolada, não são suficientes sem uma governança clínica bem estruturada e uma cultura organizacional sólida.
Dados do Ministério da Saúde reforçam a dimensão do problema: entre 2022 e 2025, o país registrou 522 cirurgias realizadas exclusivamente para a retirada de corpos estranhos esquecidos em pacientes. Os números acendem um alerta para a necessidade urgente de aprimorar práticas, processos e mecanismos de controle no ambiente cirúrgico, com impacto direto na segurança do paciente e na eficiência da gestão hospitalar.
Um levantamento da Universidade de São Paulo (USP) identificou que gases e compressas são os objetos frequentemente esquecidos durante procedimentos. O erro se tornou tão comum que empresas de dispositivos médicos passaram a incluir um fio azul aos materiais, chamado de radiopaco, para facilitar a identificação em exames de raio-x.
O estudo também revelou que, entre 2.872 cirurgiões entrevistados, 43% admitiram já ter esquecido algum objeto em pacientes, enquanto 73% relataram ter realizado cirurgias para a retirada de corpos estranhos. Esses dados evidenciam a necessidade de uma gestão hospitalar eficiente, que priorize a segurança do paciente e invista na qualificação das equipes médicas.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2025, foram registrados 42.696 ações sobre cirurgias de urgência, 10.136 ações judiciais sobre cirurgias eletivas e 17.579 casos relacionadas a cirurgia geral.
Entre os principais incidentes relacionados a centros cirúrgicos estão a retenção não intencional de corpo estranho em um paciente após a cirurgia, procedimentos cirúrgicos realizados no lado ou local errado do corpo, e até no paciente errado.
Um levantamento, realizado nos Estados Unidos pela Joint Commission, em 2024, apontou que 30% dos problemas em ambientes hospitalares decorrem da falta de comunicação assertiva, frequentemente atribuída a dificuldades no relacionamento interpessoal e na colaboração em equipe. Em segundo lugar, com 15% das notificações, estão as falhas no cumprimento de políticas e protocolos institucionais durante cirurgias.
Diante desse cenário, a gestão clínica desempenha um papel crucial na prevenção desse problema. Segundo Lucas Santos Zambon, diretor científico do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP), a adoção da governança clínica nas organizações de saúde é uma ferramenta estratégica que pode ajudar significativamente a evitar essas ocorrências, promovendo maior segurança e qualidade no atendimento.
“Dentro da governança clínica, existe uma ferramenta específica destinada ao gerenciamento das competências profissionais. Isso inclui a garantia de que a formação dos profissionais está alinhada com as exigências do mercado, tanto em termos de qualificação quanto de especialização e também a inclusão desses profissionais dentro da cultura das organizações”, explica.
A segurança do paciente é um tema relativamente recente na história da saúde e da medicina brasileira. Por essa razão, é essencial que as instituições fortaleçam suas práticas, invistam na qualificação contínua e assegurem que os profissionais estejam plenamente informados e capacitados para garantir um atendimento seguro e de qualidade.
“A incorporação do ponto de vista de diretrizes curriculares, desde a graduação ou até mesmo na residência, também é algo que vem caminhando, mas não está consolidado. Então, invariavelmente, a gente tem que entender que esses profissionais, eles não chegam com toda a bagagem de segurança do paciente que a gente gostaria. E existe sim uma necessidade, uma responsabilidade das organizações de saúde de trazerem esses profissionais para a mesma página”, explica Zambon.
A instituição, por sua vez, deve cumprir seu papel ao elaborar protocolos de forma adequada e, mais do que isso, garantir que a comunicação com os profissionais seja clara e efetiva.
Uma estratégia valiosa é envolver os profissionais no processo de construção desses protocolos. “Ainda é muito comum vermos em algumas instituições naquele processo top down, apenas para execução. E quando as pessoas não se enxergam naquele processo, elas tendem a ser refratárias, a questionar ou até mesmo não valorizar aquela prática”, destaca o especialista em gestão de segurança do paciente.
O uso do checklist na saúde surgiu, justamente, como uma resposta à necessidade de reduzir erros médicos e melhorar a segurança do paciente, especialmente em ambientes de alta complexidade, como centros cirúrgicos. A origem está fortemente associada à implementação de práticas baseadas em evidências e à adaptação de ferramentas de segurança utilizadas em outras indústrias, como a aviação.
Em 2008, A Organização Mundial da Saúde lançou o programa “Cirurgias Seguras Salvam Vidas e instituiu o uso em todo o mundo. No Brasil, a implementação do checklist na saúde foi impulsionada pelo Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), lançado em 2013 pelo Ministério da Saúde, que incluiu o uso dessa ferramenta como estratégia para reduzir eventos adversos e melhorar a qualidade do atendimento.
Além das cirurgias, o checklist foi expandido para outras áreas, como a prevenção de infecções hospitalares, administração de medicamentos e protocolos em UTIs, garantindo maior segurança e padronização nos cuidados de saúde.
Entretanto, logo após a sua criação, estudos realizados ao redor do mundo geraram uma ampla discussão na literatura médica. Os resultados apontaram inconsistências no método, sem evidências claras de redução de mortalidade e complicações.
As falhas estavam geralmente relacionadas à falta de adesão dos profissionais, ao preenchimento mecânico ou superficial do checklist, à ausência de treinamento adequado e à resistência cultural em adotar a ferramenta como parte integral do processo de trabalho.
“Muitas vezes as organizações têm excelentes números de utilização do checklist. Ou seja, utilizam o checklist em 100% das cirurgias, mas continuam tendo eventos adversos que ocorrem por falhas previstas no procedimento. Isso mostra que o checklist não foi incorporado de fato como uma ferramenta de segurança pelos profissionais”, alerta Zambon.
Portanto, é fundamental lembrar que, assim como todos os protocolos de segurança, o checklist precisa estar alinhado a uma boa cultura de segurança dentro da instituição. Caso contrário, ele se torna apenas mais uma burocracia, um papel preenchido e anexado, sem cumprir seu papel como ferramenta de segurança.
Gestão clínica como estratégia de segurança
A prática da gestão clínica nas instituições tem se mostrado um dos caminhos mais eficazes para evitar erros e garantir a segurança dos pacientes. Nesse contexto, a governança clínica surge como um dos pilares fundamentais dessa abordagem, fornecendo diretrizes e mecanismos essenciais para assegurar a qualidade, a segurança e a eficácia nos cuidados de saúde.
Por meio da governança clínica, é possível implementar processos estruturados, promover a capacitação contínua dos profissionais e criar uma cultura organizacional voltada para a melhoria contínua.
Para Zambon, não existe apenas uma forma correta de se trabalhar para a segurança do paciente e nem a fórmula secreta para que esses erros não aconteçam. Ele explica que faz parte de um conjunto que engloba a instituição, os protocolos instituídos, a capacitação dos profissionais e como tudo isso junto é aplicado. E fazer uma boa governança clínica é fundamental.
“Importante lembrar que o conceito de governança clínica trata da capacitação de profissionais como uma de suas áreas-chave. Ela promove a educação continuada e o desenvolvimento das equipes de saúde para garantir que os profissionais estejam atualizados com as melhores práticas, protocolos baseados em evidências e avanços tecnológicos”, ressalta.
Investir em treinamento contínuo para os profissionais de saúde, adotar tecnologias avançadas para rastreamento de materiais e promover uma cultura de segurança são medidas que podem reduzir significativamente esses incidentes.
Além disso, a integração entre equipes médicas e administrativas é essencial para garantir que os processos sejam seguidos à risca, evitando erros que podem comprometer a saúde dos pacientes e gerar custos adicionais para o sistema de saúde.
Portanto, uma gestão hospitalar eficiente não apenas melhora os resultados clínicos, mas também fortalece a confiança dos pacientes e da sociedade no sistema de saúde, promovendo um atendimento mais seguro e de qualidade.
Campanha de Segurança Cirúrgica
O Hospital Nipo-Brasileiro criou a “Campanha de Segurança Cirúrgica”, um projeto de conscientização que acontece uma vez por ano a fim de sensibilizar e atualizar dos profissionais da saúde sobre a importância da segurança do paciente.
A ação está alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e busca engajar profissionais de saúde, pacientes e gestores na construção de um ambiente mais seguro e eficiente.
Durante uma semana, no mês de dezembro, todos os profissionais são obrigados a participar dessas atividades. São realizadas palestras, capacitação técnica, atividades direcionadas, gincanas e encontros que tratam do tema.
Segundo Liana Thome Catalan, gerente de enfermagem do Hospital Nipo-Brasileiro, a campanha reforça a implementação do checklist cirúrgico, a capacitação contínua das equipes, com treinamentos regulares para médicos, enfermeiros e técnicos, e promove a cultura de segurança da instituição, incentivando a comunicação aberta entre as equipes.
“Outro ponto importante é o monitoramento de indicadores, que nos ajudam a acompanhar dados sobre complicações e eventos adversos, permitindo avaliar e aprimorar continuamente os nossos processos. Além disso, temos como obejtvo reforçar a importância da participação ativa também dos pacientes. É fundamental que eles façam perguntas e se envolvam no planejamento de seus cuidados, pois isso contribui diretamente para a segurança e a qualidade do atendimento”, explica Liana.
Outro exemplo positivo é o uso da tecnologia a favor da cultura de segurança das instituições.
O A.C.Camargo Cancer Center utiliza tecnologia avançada para a contagem e controle de instrumentos cirúrgicos, para garantir a segurança do paciente e evitar falhas. Segundo Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores de Mama, a checagem é feita o tempo todo em todas as áreas, mas na sala de cirurgia é feito um “Checklist de Segurança de Cirurgia Segura”.
“Nesse processo, fazemos a confirmação do nome do paciente, o local e a lateraridade que vai ser operada, quem é o cirurgião desse paciente e se todo o material que foi pedido está na sala. Além disso, fazemos uma checagem se o paciente tem alguma alergia e se o material do anestesista está ok”, explica a líder.
Há um protocolo rigoroso que as equipes médicas devem seguir durante as cirurgias. Todo o material utilizado deve ser entregue em uma caixa devidamente lacrada ao centro cirúrgico. Os itens precisam ser contabilizados em três momentos cruciais: antes do início da cirurgia, novamente antes de o cirurgião realizar a sutura no paciente e, por fim, ao término do procedimento.
O hospital utiliza tablets para gerenciar os instrumentos na sala cirúrgica e a identificação dos instrumentos é feita por códigos. Cada instrumento possui um número individual reconhecido pelo sistema, que permite identificar todos os componentes da caixa de utensílios utilizados.
“A contagem dos materiais cirúrgicos é rigorosa, o número de itens que entra na sala deve ser obrigatoriamente igual ao que sai”, reforça Makdissi.
Cada player dentro de um centro cirúrgico tem a responsabilidade por algum tipo de checagem que deve ser feita não como burocracia, mas sim realmente como um cuidado ao paciente.
Mesmo com o apoio tecnológico tanto os profissionais como a instituição devem estar cientes da responsabilidade para com o paciente. “Costumo dizer que somos um grupo que precisa a trabalhar em sintonia, como se fosse uma grande orquestra, ou um grande corpo de baile. Para que o espetáculo aconteça, todos têm que trabalhar em harmonia e se sentir realmente valorizado dentro do seu trabalho”, complementa.
E por falar em tecnologia, hospitais americanos já utilizam um método similar a caixa preta dos aviões. Por meio câmeras através de sofwares de inteligência artificial (IA), a sala de cirurgia é monitorada por vídeo em tempo real que prevê mitigar erros ou corrigí-los antes mesmo do fim do procedimento.
A tecnologia consegue captar movimentos, mapear e identificar riscos, como problemas de comunicação, até mesmo não verbal, falhas de memórias e atenção e até mesmo devidas chegagens que devem ser feitas para preservar a segurança. “Provavelmente, no futuro a gente deve caminhar para resoluções que consigam incorporar a visualização em tempo real com a IA para que a intervenção seja imediata e não a posteriori. A barreira que podemos ter nesse caso, a princípio, é econômica”, completa Zambon.