A Anahp realizou nesta quarta-feira (4) mais uma edição do Anahp Ao Vivo, reunindo especialistas para discutir os efeitos das regras de precificação de medicamentos, decisões regulatórias recentes e seus desdobramentos para o sistema de saúde.
O encontro trouxe reflexões relevantes sobre como a regulação econômica influencia o acesso a tecnologias, a previsibilidade do ambiente assistencial e a sustentabilidade das instituições de saúde.
A conversa evidenciou que alterações regulatórias voltadas à precificação de medicamentos produzem efeitos que extrapolam o mercado farmacêutico, alcançando hospitais, gestores e, em última instância, os pacientes.
Quem participou:
Veja, a seguir, os principais pontos debatidos:
Medicamento como parte do cuidado: uma lógica diferente da cadeia comercial
Um dos pontos centrais do encontro foi a distinção entre a lógica comercial do medicamento e seu uso no ambiente hospitalar. Diferentemente do varejo farmacêutico, no hospital os remédios estão inseridos em um processo clínico e operacional complexo, que envolve múltiplas etapas e responsabilidades diretamente associadas à prestação da assistência.
Esse processo inclui, entre outros fatores:
No hospital, o medicamento não pode ser analisado de forma dissociada do ato assistencial, já que seu uso está diretamente vinculado à organização do cuidado e à qualidade da assistência prestada.
Margem zero, custo assistencial e sustentabilidade da operação
Ao abordar a Resolução CMED nº 2/2018, o debate destacou que o ambiente regulatório impõe restrições à aplicação de margens sobre medicamentos utilizados no contexto hospitalar. Na prática, porém, o ponto central da discussão foi como endereçar o custo assistencial associado ao uso do medicamento dentro da prestação do serviço de saúde.
A discussão evidenciou que:
O tema foi tratado sob a ótica da sustentabilidade da operação hospitalar e da necessidade de garantir condições para a continuidade do cuidado.
Judicialização, governança e custo institucional
Pela perspectiva do direito, o debate contextualizou o cenário de judicialização da precificação de medicamentos, destacando seus efeitos sobre a segurança jurídica e a governança do setor.
“A judicialização aparece quando o sistema precisa resolver, no Judiciário, ambiguidades que poderiam estar endereçadas de forma mais clara na regulação” — Teresa Gutierrez
Entre os impactos apontados no debate, estão:
O diálogo regulatório foi indicado como caminho para ampliar previsibilidade e reduzir conflitos no sistema de saúde.
Previsibilidade regulatória e acesso à inovação em saúde
Outro eixo relevante do debate foi o impacto da Resolução CMED nº 3/2025 sobre o ambiente de inovação em saúde. Mudanças em critérios de comparabilidade, no uso de referências internacionais e na classificação de inovações incrementais tendem a aumentar a complexidade do processo de precificação.
“Quando o ambiente regulatório se torna menos previsível, as decisões passam a ser mais defensivas, e isso afeta desde o ritmo de incorporação até a forma como a assistência é organizada na ponta” – Pedro Bernardo
Segundo os especialistas, incertezas regulatórias podem afetar:
Nesse sentido, previsibilidade e clareza de regras foram apontadas como fatores essenciais para garantir acesso sustentável à inovação.
Implicações diretas para os gestores hospitalares
Do ponto de vista da gestão, o encontro reforçou alguns aprendizados estratégicos:
Esses fatores impactam diretamente decisões sobre protocolos clínicos, contratos, estrutura de farmácia hospitalar e relacionamento com operadoras e fornecedores.
O que dizem os especialistas
A discussão sobre medicamentos no ambiente hospitalar vai além da lógica de preço ou margem. Trata-se de assegurar condições para que os hospitais continuem cumprindo seu papel assistencial, com segurança, previsibilidade e foco no paciente.
Em um cenário de decisões regulatórias em evolução, o desafio para o setor é construir caminhos que conciliem regulação econômica, sustentabilidade institucional e qualidade da assistência, reconhecendo que o medicamento, dentro do hospital, é antes de tudo parte do cuidado — e exige estrutura, organização e equilíbrio.