A compra da Medley pela EMS consolida a liderança da farmacêutica brasileira no segmento de genéricos. O conglomerado de Carlos Sanchez anunciou, na sexta-feira (6), acordo para adquirir integralmente o laboratório da francesa Sanofi.
Apontada como umas das favoritas para fechar o negócio, a EMS disputava o ativo com a indiana Sun Pharma e os grupos nacionais Aché, Biolab e Hypera. A transação fortalece a posição das farmacêuticas brasileiras em genéricos.
Os termos comerciais do acordo não foram divulgados, mas o Valor apurou que a operação foi avaliada em R$ 3,6 bilhões, um múltiplo de 18 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da companhia. A transação depende ainda do aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A família Sanchez pagou caro para se consolidar na liderança isolada de genéricos. A indiana Sun Pharma também estava disposta a fazer um pesado desembolso pela Medley para ter uma fatia relevante no setor, disse uma fonte a par do tema.
Com a aquisição, o grupo de Sanchez passa a ter 31% de participação no mercado de genéricos, segundo Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS. “Com a aquisição, adicionaremos entre 7% e 8%. Nosso grupo tem entre 23% e 24%”, disse Sanchez. “Isso não traz uma concentração absurdamente relevante.”
Segundo ele, o grupo vai continuar investindo em expansão de capacidade produtiva. A EMS vai herdar a fábrica da Medley em Campinas (SP). “Será uma planta importante, com manutenção e talvez até investimento dentro das possibilidades de espaço físico.”
Sanchez lembra que as unidades da EMS e da Medley tiveram investimentos recentes, mas encontram-se no limite. “No caso da EMS, já anunciamos nova onda de investimentos de R$ 1 bilhão nos próximos anos em expansão fabril. Com a Medley no nosso portfólio é normal que façamos um olhar cruzado do que eventualmente uma empresa poderia fazer para outra e do que deveriam manter 100% segregada, do ponto de vista de operações”, disse. Medley e EMS têm sinergias tanto em portfólio, que podem ser absorvidos no curto prazo, quanto operações, no médio e longo prazos.
A tendência, segundo Sanchez, é a de que investimentos para novas fábricas sejam priorizados em Manaus.
Para Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, sindicato da indústria farmacêutica, o movimento feito pela EMS “mostra a pujança da empresa de capital nacional. Isso é muito importante para a consolidação do mercado farmacêutico no Brasil”.
Segundo levantamento da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), feito com base em dados da consultoria IQVIA e compartilhado com o Valor, o mercado total de genéricos no país foi de R$ 23 bilhões nos últimos 12 meses encerrados em janeiro deste ano. A Medley detém 10,3% desse total, ou R$ 2,4 bilhões, e o grupo NC, com as marcas EMS, Legrand, Germed e Nova Química, 25%, ou R$ 5,9 bilhões.
A Alanac também vê a operação da EMS como positiva para o setor. “Questão até de soberania, da indústria nacional prover a sua população com medicamentos”, disse Henrique Tada, presidente-executivo da entidade.
Levantamento recente da Alanac mostra que, de cada dez remédios vendidos no país no ano passado, oito eram de laboratórios brasileiros. “Com essa aquisição conseguimos alavancar rumo a um futuro não muito distante, de médio prazo ou curto, com nove produtos em cada dez”, disse Tada.
A concentração no mercado de genéricos não deve ser o foco de análise do Cade, segundo uma fonte a par do tema. O órgão antitruste deve olhar para o subgrupo de cada produto para comparar e identificar sobreposições de categorias de medicamentos.
Segundo o advogado especializado em concorrência Marcos Verissimo, ex-conselheiro do Cade, o órgão antitruste não analisa fusões como um bloco único, mas agrupa os medicamentos por classe terapêutica e finalidade de tratamento para avaliar a concorrência de forma detalhada em cada um desses mercados. Caso identifique excesso de concentração em algum deles, o órgão pode exigir a alienação de ativos, ou seja, a venda de produtos ou marcas. “E não necessariamente na operação como um todo”, disse.
Outros tipos de análise da empresa pós-fusão podem ser feitas depois. “Mas a primeira etapa é analisar mercado por mercado, a partir da classe terapêutica em geral”, afirmou Veríssimo.
Para Tada, da Alanac, a entrada de novos atores estrangeiros no segmento, em que indústrias de capital nacional dominam o varejo, pode se tornar mais difícil. “O custo Brasil tem se refletido em decisões dessas multinacionais de transferirem a produção para outros países.”
Mussolini não acredita que a operação crie grandes barreiras para a entrada de novas companhias no segmento de genéricos, incluindo os estrangeiros. “Não é um grande problema porque as barreiras para entrar no mercado de genérico não são muito grandes”, disse. “E também há alguns ‘players’ que poderiam muito bem produzir aqui ou fora e trazer o produto pronto para o Brasil”, disse, referindo-se a forma que as estrangeiras poderiam produzir com menor custo.
O laboratório Medley, que pertencia à família Negrão, foi comprado em 2009 pela francesa Sanofi, por R$ 1,5 bilhão, quando o setor de genéricos estava em franca expansão no país. Outras multinacionais também fizeram importantes aquisições no segmento no país.
Nos últimos anos, contudo, grandes laboratórios internacionais passaram a investir em produtos de inovação e começaram a se desfazer de ativos considerados de baixo valor agregado.