Ao analisar uma base de dados com 1,1 milhão de trabalhadores de 274 empresas, a Vidalink, especializada em planos de bem-estar corporativo, concluiu que 8,3% dessa população adquiriu pelo menos um medicamento voltado ao tratamento de saúde mental em 2025. O índice se manteve estável em relação ao ano anterior.
"O dado de 8,3% é bastante relevante e não pode ser tratado como trivial", afirma Luis Gonzalez, CEO e cofundador da Vidalink. "Estamos falando de quase 1 em cada 12 colaboradores que, ao longo de um ano, precisou adquirir ao menos um medicamento para ansiedade ou depressão. Se pensarmos na quantidade de usuários de nosso benefício, isso representa um volume expressivo de pessoas em tratamento ativo."
Os dados fazem parte do programa de subsídio corporativo monitorado pela Vidalink, em que as empresas cobrem até 100% do custo dos medicamentos de seus funcionários.
O estudo, antecipado ao Valor, também mostrou que as mulheres são maioria entre as pessoas que compram medicamentos para tratamento de saúde mental.
Embora a base total de beneficiários seja composta por 51,3% de homens e 48,7% de mulheres, no grupo daqueles que efetivamente compraram medicamentos de saúde mental, 61,8% são mulheres e 38,2% são homens.
As razões para isso podem ser muitas, como pontua Gonzalez: mais mulheres relatam viver dupla jornada (casa e trabalho) em comparação aos homens, o que aumenta o nível de estresse, reduz o tempo de descanso e impacta diretamente a saúde emocional; pressões socioculturais que historicamente recaem sobre as mulheres; conjunto de fatores que criam um ambiente de maior sobrecarga psicológica; e o fato de as mulheres costumarem buscar mais ajuda e aderir mais ao tratamento, enquanto homens ainda enfrentam barreiras culturais.
"O maior percentual de consumo não aponta apenas para uma questão individual, mas pode refletir desigualdades estruturais, carga mental ampliada e diferenças no comportamento de busca por cuidado", diz Gonzalez.
Outro indicador da pesquisa é que o consumo de medicamentos para tratamento da saúde mental aumenta conforme a idade.
Do total de beneficiários analisados, a taxa de compra foi de 20,66% para os nascidos entre 1928 e 1945; de 13,59% entre os baby boomers; 11,07%, na geração X; 8,97%, entre millennials; e 4,48% na geração Z.
Aqui, também, há uma série de fatores que podem levar a esse comportamento, segundo Gonzalez.
Primeiro, há o efeito do tempo de exposição. "Ao longo da vida, as pessoas passam por mais eventos potencialmente estressores, pressão profissional crescente, esponsabilidades financeiras, cuidado com filhos e familiares, doenças crônicas, luto e inseguranças econômicas. Esse acúmulo pode aumentar a probabilidade de quadros de ansiedade e depressão que demandem tratamento medicamentoso", detalha.
Segundo, faixas etárias mais altas costumam ter maior regularidade em consultas médicas. "Isso eleva a chance de diagnóstico formal e prescrição", diz o executivo.
Por fim, Gonzalez pontua que é importante destacar que o menor consumo entre jovens não significa menor sofrimento. "O próprio Check-up de Bem-Estar 2025 [outro estudo da Vidalink] mostra altos níveis de insatisfação e sentimentos negativos entre a geração Z", afirma. "A diferença pode estar mais relacionada ao estágio de busca por ajuda e acesso ao cuidado do que necessariamente à intensidade do problema."