Porto negocia aporte de R$ 1 bilhão e controle da Oncoclínicas
17/03/2026

Oncoclínicas e a Porto estão em negociações para um acordo em que a seguradora colocaria R$ 1 bilhão na rede de tratamento de câncer. Desse valor, R$ 500 milhões seriam uma antecipação para a companhia melhorar seu caixa, e a seguradora iria abatendo esse valor das despesas médicas dos seus usuários. Em apenas um ano, esse é o custo que a Porto tem com os pacientes com câncer tratados na Oncoclínicas. A outra fatia de R$ 500 milhões seria em debêntures conversíveis em ações, segundo o Valor apurou. 

A informação do aporte foi antecipada pelo site Brazil Journal. 

Com o aumento de capital de R$ 500 milhões, a Porto passaria a ter 33% do capital da Oncoclínicas e 66% das ações com direito a voto, tornando-se, assim, a controladora de uma empresa a ser criada apenas com a rede de clínicas — com cerca de 150 unidades —, sem os hospitais. 
 

Atualmente, a Oncoclínicas tem como principais acionistas Centauro (18,3%), Latache (14,62%), Banco de Brasília (8,68%), Mak Capital (6,31%), Geribá (5,9%), Bruno Ferrari (4,79%) e Goldman Sachs (2,86%). 

A Porto informou, por meio de comunicado, que "avalia de forma permanente a possibilidade de potenciais investimentos em diversos negócios e verticais, incluindo no que se refere a certos negócios explorados pela Oncoclínicas do Brasil Serviços Médicos S/A. Não obstante tal fato, a companhia informa que não há, neste momento, nenhum documento vinculante assinado que se refira aos negócios mencionados na matéria referenciada [do Brazil Journal]". 

A lógica da operação 

A Porto não tem interesse em uma rede de clínicas, nem tampouco em ser verticalizada, mas, hoje, a seguradora não tem outras opções para encaminhar seus pacientes oncológicos. A opção seriam as clínicas de oncologia da Rede D’Or que, por sua vez, é dona da SulAmérica — concorrente da Porto Saúde. 

Também, não é de hoje que transações envolvendo a vertical Saúde estão no radar do Grupo Porto. Há praticamente dois anos, o tema “M&A” (fusões e aquisições) tem sido alvo de questionamentos de analistas em teleconferências, que passaram a levantar a possibilidade de uma fusão ou compra de outros “players” diante do nível de capital da companhia e da aceleração de algumas de suas unidades de negócio. 

O montante representa pouco menos da metade do faturamento da vertical em 2025. No ano passado, a divisão teve aumento de 22% no lucro, para R$ 170 milhões, e avanço de 22% na receita, para R$ 2,3 bilhões. O grupo como um todo registrou receita de R$ 41 bilhões, com crescimento anual de 12%, e lucro de R$ 3,4 bilhões, após crescimento de 28%. 

Em fevereiro, durante a apresentação do balanço do quatro trimestre, Sami Foguel, presidente da vertical, disse que a companhia tinha uma visão “superaberta” sobre parceiros estratégicos nessa área. “Temos um tema aqui que é bastante peculiar. Não precisamos de caixa. Não precisamos fortalecer o balanço. A máquina está rodando, hoje, com suficiência de capital, de provisões. Então, desse ângulo, está OK. Só faria sentido ter um parceiro que agregasse em alguma dimensão do negócio, seja lá qual for”, afirmou. 

Em entrevista ao Valor, em outubro de 2025, o presidente da Porto, Paulo Kakinoff afirmou que entre as propostas que tinham sido recebidas e analisadas, o maior interesse era na área de saúde. 

“É um setor superdesafiador, de margens estreitas, e sempre que há um alto nível de competição há um ambiente adequado para M&As”, disse Kakinoff, na época. 

Outro motivo de atratividade, segundo o executivo, seria o modelo construído pela Porto Saúde, “que é um negócio que se aproxima muito mais de um conceito de ‘health tech’ do que de uma operadora de saúde tradicional”, disse. 

“Não temos investimento em parede, em tijolo, nem dentro de hospitais, mas uma verticalização virtual que não é exatamente uma inovação, mas uma maneira diferente de endereçar os desafios do setor.” 

Mais motivos para uma M&A 
 

Vale dizer também que desde 2022, a Oncoclínicas e a Porto têm uma joint venture em que os usuários dos planos de saúde da seguradora são encaminhados, preferencialmente, às unidades da Oncoclínicas. Nessa joint venture, a rede de clínicas tem 60% e a Porto, 40%. 
 

Há ainda um imbróglio envolvendo os credores e acionistas das partes. O Banco do Brasil (BB) e o Santander são credores da Oncoclínicas e buscam formas de solucionar a crise financeira da empresa e não perder dinheiro diante dos riscos de uma recuperação extrajudicial ou judicial. 


 

Ainda de acordo com fontes, a proposta inicial era um aporte direto de R$ 1 bilhão, o que teria desagradado a Latache que considerou o “valuation” baixo. Após negociações chegou-se a uma proposta com metade do valor aplicada em debêntures. 
 

O Santander e Safra estão assessorando a Oncoclínicas. A BR Partners e o banco Rothschild são “advisers” da reestruturação da rede de clínicas. 
 

A transação ainda depende de diligências e do sucesso das negociações da companhia junto aos debenturistas. Ainda de acordo com fontes, há muita negociação em andamento. 
 

Na segunda-feira (9), a companhia informou que está negociando com os debenturistas a prorrogação do pagamento do principal e juros da dívida para o próximo dia 1º de junho. A rede de clínicas também busca a liberação da cláusula (“covenant”) que limita a alavancagem em 3,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Isso porque há uma expectativa de que a Oncoclínicas não consiga apresentar seu balanço de 2025 (programado para ser divulgado em 30 de março) dentro desses parâmetros — o que deixaria a empresa inadimplente possibilitando aos credores executar a antecipação total da dívida. 
 

No terceiro trimestre, a empresa tinha uma dívida bruta de R$ 4,8 bilhões e uma alavancagem de 4,2 vezes o Ebitda. 

Banco Master 

A situação da Oncoclínicas tem se deteriorado ainda mais com sua ligação com o Banco Master, em liquidação, que detinha 20% da empresa, após um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão. Esses recursos foram aplicados em CDBs do próprio banco. A companhia perdeu R$ R$ 433 milhões (R$ 217 milhões foram provisionados).





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