Impulsionado pelo aumento do interesse de parte da população por cuidados preventivos de saúde, o mercado brasileiro de vacinas concentra empresas de médio porte que têm ganhado escala com a ampliação da oferta de imunizantes. Essa expansão também é resultado de investimentos em tecnologia e novos modelos de atendimento para expandir a base de clientes.
A Associação Brasileira de Clínicas de Vacinas (ABCVAC) estima que existam cerca de 5 mil serviços privados de vacinação no Brasil. Desse total, entre 60% e 70% são clínicas especializadas em imunização, enquanto o restante abrange locais para aplicação de imunizantes distribuídos entre hospitais, laboratórios de análises clínicas e redes de farmácias, diz Rosane Orth Argenta, vice-presidente do conselho da entidade.
“Cerca de 250 milhões de doses de vacinas são aplicadas anualmente no Brasil, somando os setores público e privado. Estimamos que as clínicas e demais serviços particulares respondam por aproximadamente 10% desse total”, afirma Argenta.
Com foco na facilidade do acesso a serviços de vacinação e exames, a Beep Saúde iniciou este mês uma parceria com o iFood. A novidade permite que clientes acessem a plataforma de entrega de comida para agendar a aplicação de vacinas em domicílio. Todos os serviços são prestados pela Beep, mas com o ingresso feito pelo aplicativo do novo parceiro. O pagamento também pode ser feito no momento do agendamento pelo iFood.
Criada em 2016 pelo médico Vander Corteze, a Beep Saúde surgiu com a proposta de transformar o celular em canal para solicitar aplicações de vacinas e realização de exames, inspirado na conveniência de plataformas como Amazon, Mercado Livre e iFood. “Assim surgiu a ideia da Beep, um aplicativo de saúde para levar atendimento para dentro da casa das pessoas”, diz Corteze.
O modelo ganhou projeção durante a Covid-19. Embora a vacina contra o coronavírus estivesse disponível apenas pelo SUS naquele período, o distanciamento social acelerou o avanço do comércio eletrônico e do delivery de forma geral, despertando demanda por outras vacinas e exames realizados em casa. Números da empresa apontam crescimento de 40% ao ano, com a expectativa de superar R$ 500 milhões em faturamento em 2026.
A ideia é trazer saúde e imunização de forma lúdica e sem causar pânico para crianças e pais”
— Thaís Farias
Segundo Corteze, um dos principais diferenciais está na estrutura operacional, que permite prestar serviço com preços acessíveis. “Aplicamos vacinas em casa, porém, sem ser coisa de rico”, ressalta. A empresa adota estruturas enxutas, posicionadas próximas a grandes vias de circulação, e usa a tecnologia para organizar rotas, otimizar os deslocamentos e reduzir custos. “Um profissional de enfermagem, com um carro e um motorista, consegue visitar pacientes próximos, otimizando os atendimentos diários”, explica o CEO.
A operação da Beep atraiu investidores como o Inovabra, do Bradesco, e o CZI, fundo de Mark Zuckerberg, e David Vélez, fundador do Nubank. A empresa conta com 1,2 mil colaboradores e está presente no Rio, em São Paulo e no Distrito Federal. São mais de 60 mil visitas mensais, com a maior demanda concentrada no calendário pediátrico. Corteze diz que há espaço para crescer na oferta de vacinas a jovens e adultos, como imunizantes contra herpes zóster, HPV e dengue.
Em Eusébio, no Ceará, a Amo Vacinas foi criada pelas irmãs Thaís e Juliana Farias em 2016, com a preocupação de que as instalações - com temas do universo infantil - e o atendimento ajudassem a contornar a aversão dos pequenos à vacinação, tornando a experiência mais leve para toda a família. “A ideia é trazer saúde e imunização de forma lúdica e sem causar pânico para crianças e pais”, afirma Thaís. “Somos uma clínica premium, não competimos por preço, estamos sempre focados na melhor jornada do cliente.”
Em 2022, a empresa, que oferece vacinas para todas as idades, decidiu avançar no mercado com franquias. O faturamento da rede, que hoje inclui 5 unidades próprias e 44 franquias, superou R$ 70 milhões no ano passado. Segundo Thaís, o crescimento no volume de negócios entre 2022 e 2025 foi de 380%. Nos últimos 12 meses, foram aplicadas mais de 200 mil vacinas.
De acordo com a empresária, há muitas oportunidades no Brasil, sobretudo diante do envelhecimento da população, preocupação com qualidade de vida e longevidade, além dos avanços em pesquisas, que incluem vacinas com a tecnologia de RNA mensageiro, que ficou conhecida na pandemia. No entanto, um dos desafios para o setor continua sendo o combate à desinformação e às notícias falsas (fake news) sobre imunizantes.
A vice-presidente da ABCVAC, diz que o público infantil ainda concentra a maior parte das aplicações nas clínicas privadas, mas o setor tem observado aumento na procura entre adultos. Isso ocorre, em parte, pela ampliação do número de vacinas disponíveis para esse público s e pelo envelhecimento da população, que passou a demandar mais medidas preventivas ao longo da vida.
Cerca de 250 milhões de doses de vacinas são aplicadas por ano no Brasil”
— Rosane Argenta
Com mais de 50 anos de atuação na cidade de São Paulo, a Cedipi é especializada em imunizações e em doenças infecciosas e parasitárias. A clínica oferece mais de 40 vacinas e atende pessoas de todas as idades, incluindo aquelas com condições especiais que necessitam de avaliação individualizada do plano vacinal, como imunocomprometidos, gestantes, viajantes e pacientes com comorbidades.
“A Cedipi oferece interação direta com médicos experientes, criando um relacionamento de longo prazo. Vacinar não é apenas aplicar uma dose, é analisar o histórico, avaliar riscos, orientar com clareza e acompanhar toda a jornada de saúde”, afirma Monna Ricotta, head de comunicação da Cedipi.
Para 2026, a empresa projeta crescimento entre 12% e 15% no faturamento, depois de registrar R$ 12 milhões em 2025, patamar próximo de 2024. Na avaliação da Cedipi, o crescimento do mercado de vacinas está diretamente ligado a um movimento em que a prevenção passa a fazer parte do estilo de vida, não apenas em situações emergenciais. O desafio é combater as dúvidas da população em relação aos imunizantes.
Sob a ótica do negócio, uma das preocupações na ABCVAC é o modelo de tributação da atividade. Argenta diz que a vacinação é enquadrada como prestação de serviço - os impostos incidem sobre o valor total cobrado do paciente, mesmo quando grande parte desse valor corresponde ao custo do produto.
“Hoje, a gente emite uma nota de serviço para o cliente. Se eu emitir uma nota de R$ 100, a tributação vai incidir sobre os R$ 100. Entretanto, aproximadamente R$ 60 são custo do produto”, afirma. “Essa característica acaba pressionando as margens das clínicas, especialmente no caso de vacinas mais recentes, que têm custo elevado de aquisição.”