Após encerrar 2025 com queda nos principais indicadores que foram impactados pelo desempenho em São Paulo, a Hapvida estuda fechar unidades ociosas e ampliar a oferta de rede credenciada.
A operadora, fundada no Ceará e com 830 unidades próprias no país, não divulgou quais seriam os estabelecimentos encerrados e localidades afetadas, mas sua principal dificuldade está nas praças do Sul e Sudeste.
Dos 140 mil usuários perdidos no ano passado, 120 mil eram de São Paulo - região com uma cultura bem diferente das demais praças de atuação da companhia. A Hapvida entrou no mercado paulista adquirindo a NotreDame Intermédica.
Também não haverá aberturas de unidades relevantes nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde a empresa conquistou 98,5 mil novos usuários em 2025.
“Estamos analisando com mais atenção a ocupação e a capacidade ociosa do nosso portfólio de saúde. Ativos ociosos destroem retornos. Agiremos onde não houver justificativa econômica para sustentar os custos fixos, ajustando a capacidade”, disse Luccas Adib, atual vice-presidente financeiro e de relações com investidores da Hapvida.
“Nem todo mercado exige o mesmo grau de verticalização e nem toda batalha precisa ser travada. Alocaremos capital e operações onde houver o melhor equilíbrio entre crescimento e o retorno dos projetos”, afirmou Adib, que a partir do próximo mês assume como CEO, em substituição a Jorge Pinheiro, que terá uma cadeira no conselho.
O investimento (capex) da companhia, neste ano, vai ficar entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões. “O valor inclui intangíveis e ativos fixos. Portanto, este será um ano mais rigoroso. Estamos considerando o fechamento de unidades”, disse o vice-presidente.
A reação das ações da companhia ontem foi atípica para um dia de apresentação de balanço fraco. Os papéis chegaram a abrir o pregão com queda de 10%, mas encerram com valorização de 14,98% cotados a R$ 9,44. Foi a maior alta do Ibovespa. Segundo fontes, a virada no papel foi devido à família Pinheiro ter adquirido ações no mercado para reduzir o impacto. Procurada pela reportagem, a família não comentou.
No último dia 13 de novembro, quando o papel chegou a desvalorizar quase 50% durante o pregão, os Pinheiro desembolsaram pelo menos R$ 250 milhões e a companhia fez uma grande recompra de ações. Na época, o papel movimentou R$ 2 bilhões, num só dia.
A companhia encerrou o ano com prejuízo de R$ 237,6 milhões revertendo o lucro líquido de R$ 270 milhões, em 2024. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado caiu 11% para R$ 3,3 bilhões. A taxa de sinistralidade subiu 4,5 pontos percentuais atingindo 75,5%, em dezembro.
Os analistas do BTG, Bradesco BBI, Citi, BB, Itaú BBA, e Jefferies foram unânimes em destacar que o resultado trimestral veio abaixo do esperado num cenário em que as projeções já eram pessimistas.
O Ebitda ajustado ficou 30% inferior ao estimado pelo Citi. Os analistas do banco calculam que houve uma queima de R$ 496 milhões no fluxo de caixa livre para o acionista, que também foi impactado por um patamar elevado de investimento.
Os analistas do Itaú BBA esperavam uma queda de 50 mil usuários, ou seja, muito menor do que os 140 mil reportados pela companhia. A equipe do banco destacou que a operadora teve um volume de cancelamento de planos de saúde, em São Paulo, muito superior ao total de contratações, provocando um resultado líquido negativo. A operadora encerrou o ano passado com 8,7 milhões de usuários de convênio médico.
Em sua apresentação para analistas e investidores, Pinheiro foi enfático ao assumir que o desempenho não lhe agradou.
“O resultado final ficou aquém de nossas expectativas. Não estamos satisfeitos com isso. Enfrentamos uma pressão significativa sobre o desempenho em mercados mais competitivos e um trimestre particularmente difícil em termos de sinistralidade e dinâmica comercial. Este não é o resultado que gostaríamos de apresentar, e é exatamente por isso que a empresa está acelerando uma agenda objetiva de transformação e correções”, disse. Pinheiro informou que a sinistralidade nos meses de janeiro e fevereiro deste ano ficou em patamares normais.
A concorrência foi mais forte, principalmente, em São Paulo com a Amil que vem ofertando produtos com preços semelhantes. Além disso, a Amil é uma marca mais conhecida entre os paulistas e menos verticalizada. “Não vamos entrar em guerra de preço que destrói valor”, afirmou o CEO da Hapvida.
A companhia enfrentou ainda aumento nas linhas de processos judiciais e ressarcimento SUS. Quando uma pessoa com convênio médico é atendida na rede pública de saúde, a respectiva operadora é obrigada a reembolsar o governo. Essa despesa somou R$ 135,9 milhões, nos últimos três meses de 2025, o que representa um adicional de R$ 24,4 milhões sobre o trimestre imediatamente anterior.
No quarto trimestre, a Hapvida apurou R$ 66,8 milhões de contingências cíveis, sendo R$ 64,5 milhões de provisões referente à prognósticos judiciais desfavoráveis. Segundo Adib, a companhia está criando novos produtos e trabalha para melhorar a relação com os usuários “Quando a experiência melhora, a taxa de cancelamento diminui, os litígios diminuem, a conversão aumenta e as operações se tornam mais eficientes”, disse.