Ao iniciarmos um novo triênio, a oncologia brasileira se depara com um cenário desafiador. As projeções do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o período de 2026-2028 reforçam o que nós, que atuamos na ponta do sistema, já sentimos diariamente: a incidência do câncer continua a crescer. Os novos dados revelam que são esperados um total de 781 mil novos diagnósticos de câncer por ano no país – um aumento de 10,9% nos novos casos de neoplasias malignas. E, especificamente para o câncer de mama, a estimativa é de mais de 78,6 mil novos diagnósticos anuais, um crescimento de cerca de 6,2% em relação à projeção anterior.
Diante desta realidade estatística, a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA) reitera sua atuação firme em prol da saúde da mulher em jornada oncológica, para seu acolhimento oportuno e oferta dos tratamentos mais adequados para cada caso, definindo suas prioridades para 2026 com um objetivo claro: transformar a legislação em vida e a tecnologia em acesso.
Encerramos o ano de 2025 com vitórias legislativas notáveis, mas também com alertas preocupantes. Celebramos a aprovação do Projeto de Lei 265/2020 na Câmara dos Deputados, uma conquista histórica do nosso advocacy que prevê a oferta de testes genéticos para detecção de risco hereditário de câncer no SUS e na saúde suplementar. Contudo, a lei, por si só, não cura. O ano de 2026 deve ser marcado pela implementação plena da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC). Precisamos garantir que o texto legal saia do papel e se traduza em jornadas de tratamento ágeis e dignas em todo o território nacional.
Neste contexto, a Medicina de Precisão emerge como um cenário de atuação urgente contra a desigualdade. Não podemos aceitar que o acesso a diagnósticos refinados e terapias-alvo seja um privilégio de poucos. É inadmissível que, com toda essa inovação já disponível para quem tem condições de pagar, ainda enfrentemos resistências anacrônicas para sua disponibilização no sistema público, como foi observado com o parecer desfavorável da CONITEC sobre a incorporação de testes para mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 – o qual pode ser revertido pela Consulta Pública 3/2026, que contabilizou mais de 4 mil contribuições, e que pode levar a uma eventual audiência pública.
O argumento de que o SUS necessita de uma “linha de cuidado” perfeita antes de incorporar uma tecnologia que salva vidas ignora a urgência de milhares de pacientes. Sempre frisamos: o tempo da burocracia não é o tempo do câncer. A incorporação da tecnologia é, justamente, o motor necessário para organizar e qualificar a rede.
Além da medicina personalizada, nossa bússola aponta para a Navegação de Pacientes. O sistema de saúde é complexo e fragmentado. Fortalecer iniciativas que orientem a jornada oncológica não é apenas uma medida de humanização, mas de eficiência de gestão, garantindo que o paciente chegue ao tratamento correto no tempo adequado. Para isso, ressaltamos a importância da efetiva implementação do NavegaSUS no sistema público, com objetivo de superar as barreiras de acesso ao cuidado que vemos hoje.
Além disso, nossas pautas transversais para este ano são igualmente vitais. Defenderemos políticas que qualifiquem o rastreamento do câncer de mama e ampliaremos nosso olhar para a preservação da fertilidade, assegurando o direito de pacientes planejarem seu futuro reprodutivo. Além disso, a FEMAMA avalia com cautela a ampliação de seu escopo para outros cânceres que impactam a saúde da mulher, entendendo que a luta contra o câncer exige uma visão integral.
É importante ressaltar que o câncer de mama, que atinge dezenas de milhares de brasileiras anualmente — sendo cerca de 10% destes casos de origem hereditária — exige mais do que campanhas de conscientização que são lembradas apenas lá no Outubro Rosa: exige ação política e orçamentária. A recusa em incorporar tecnologias custo-efetivas, que evitam gastos futuros com doenças avançadas, não é economia; é a manutenção de uma desigualdade cruel.
Em 2026, a FEMAMA seguirá trabalhando de forma firme, ética e incansável. Por meio da informação qualificada e de parcerias internacionais, continuaremos a levar a conscientização e sensibilizar autoridades para que o acesso à inovação na saúde deixe de ser uma loteria baseada no CEP ou na renda da paciente. A ciência avança rápido, e o SUS, nosso cartão postal mais relevante do país, não pode ficar para trás.
*Luiz Ayrton Santos Júnior é mastologista e Presidente Voluntário da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA).