A ausência de cobertura total de serviços de saneamento básico no Brasil continua a ser fator de pressão nos atendimentos do sistema público de saúde. O alerta partiu de especialistas sobre o tema reunidos nesta segunda-feira (23) no seminário “Caminho das Águas”, realizado no Museu do Amanhã, no Rio. Na prática, pontuam eles, a falta de serviços de saneamento, em determinadas regiões, leva a aumento em condições de saúde graves, que se refletem em crescimento de atendimentos, na rede pública de saúde do país.
Em painel cujo tema era a relação entre saneamento, educação e saúde, o médico Luís Fernando Corrêa afirmou que a falta de acesso à água potável e esgoto tratado, em determinadas regiões do país, atraem incidência de doenças. Isso, na prática, eleva gastos públicos em saúde. “Sem água limpa, não há higiene básica. Isso aumenta infecções e internações”, resumiu. Doenças como a leptospirose seguem associadas a enchentes e áreas com infraestrutura precária, lembrou.
Além das doenças de veiculação hídrica, como diarreia, ele alerta para a disseminação de bactérias multirresistentes, classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos principais riscos globais.
O avanço do saneamento depende também de educação, acrescentou. Corrêa, destacou papel das escolas na disseminação de práticas de higiene e na conscientização das famílias.
O médico frisou ainda sobre o impacto econômico negativo nas despesas de governo nesse cenário. Isso porque, comentou, quanto mais internações, maior custo para o sistema de saúde.
Corrêa citou no evento estudo da OMS de 2012 sobre o tema. No estudo, os pesquisadores calcularam que cada US$ 1 investido em saneamento pode gerar economia de até US$ 4 em saúde, podendo chegar a US$ 7 em regiões mais vulneráveis em termos de serviços de saneamento.
Também no evento, o presidente do Instituto Aegea, Edson Carlos, ressaltou que a falta de serviços de saneamento tem impacto direto sobre populações mais vulneráveis e reforça desigualdades estruturais. Ele pontua que, muitas vezes, a ausência de saneamento básico ocorre nas regiões mais pobres do país.
“Quem não tem acesso ao saneamento tem rosto: é a população mais pobre, majoritariamente negra e em áreas periféricas”, disse. “Em muitas regiões, as pessoas convivem tanto com a precariedade que deixam de reconhecer doenças como um problema. Isso mostra o tamanho do desafio”, afirmou.