A entrada do Fleury como parceiro da Porto na aquisição das unidades ambulatoriais da Oncoclínicas foi vista pelos analistas como um passo estratégico e financeiramente viável, embora adicione uma dose significativa de complexidade e riscos de execução ao negócio.
Relatórios divulgados nesta segunda-feira (23) convergem na avaliação de que a transação expande a exposição do Fleury a um segmento médico de alta complexidade e crescimento acelerado, mas alertam para os desafios burocráticos e operacionais que as empresas terão pela frente.
Do ponto de vista financeiro, o negócio apresenta uma lógica favorável aos envolvidos. O Jefferies calcula que, caso Fleury e Porto dividam igualmente o aporte inicial de R$ 500 milhões, o valor representaria apenas cerca de 11% do lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) projetado para o Fleury em 2026.
Como a alavancagem atual do Fleury está em um patamar confortável de 1,5 vez a relação entre dívida líquida e Ebitda previsto para 2026, a transação não deve prejudicar seu perfil de crédito, afirmam os analistas Antonio Pedro Cardoso, Alex Wright e Pedro Baptista.
O Citi reforça essa visão, com os analistas liderados por Leandro Bastos destacando que a fatia de investimento é relativamente pequena, cerca de 6% do valor de mercado do Fleury, e ressalta que o formato de coinvestimento promove um bom alinhamento de interesses e compartilhamento de riscos.
Para a Porto, a presença de um parceiro especializado em saúde reduz os riscos de investimento e de execução, segundo o J.P. Morgan. Já para a Oncoclínicas, a operação traz um alívio financeiro necessário com a transferência de passivos, ainda que o Citi pondere que a injeção tenha efeitos limitados na dívida total de R$ 3,5 bilhões.
Apesar das sinergias evidentes da operação, os analistas pregam cautela com os desdobramentos práticos. O Itaú BBA destaca que a execução será o principal desafio do negócio. A transferência das clínicas exigirá a assinatura de novos acordos de credenciamento com as operadoras de planos de saúde.
Além disso, o mercado vê incertezas sobre a quantia exata de Ebitda da Oncoclínicas que será efetivamente transferida à nova companhia operada conjuntamente por Porto e Fleury e o quanto eventuais perdas de credenciamento poderiam corroer a rentabilidade da companhia.
Os analistas alertam que o aumento da complexidade organizacional do Fleury, que já tem uma “joint venture” em oncologia com a Beneficência Portuguesa, pode reduzir a percepção de valor estratégico do grupo, tese reforçada pelo J.P. Morgan, que condiciona os retornos finais aos termos do futuro acordo vinculante.
O Jefferies e o Itaú BBA têm recomendação de compra para os papéis do Fleury, com preços-alvo de R$ 18,20 e R$ 18, respectivamente. O Citi adota uma postura mais conservadora, com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 16.
Na ponta mais pessimista, o J.P. Morgan recomenda a venda das ações do Fleury, com preço-alvo em R$ 15,50, e da Oncoclínicas, sem preço-alvo, reservando a indicação de compra apenas para a Porto, com preço-alvo de R$ 57.