Durante muito tempo, a carteirinha do plano de saúde no bolso foi sinônimo de tranquilidade. Era ela que dava a sensação de que, se algo acontecesse, haveria acesso rápido a médicos, exames e à estrutura que a medicina tem de mais avançada.
Mas essa percepção começa a mudar e os dados ajudam a mostrar essa virada. O Relatório Global sobre Saúde Corporativa 2026, da consultoria internacional Howden, ouviu quase duas mil empresas e colaboradores ao redor do mundo, incluindo um recorte importante no Brasil.
Entre os brasileiros, 59,2% dos beneficiários dizem já ter deixado de procurar atendimento médico por causa de custos adicionais, como a coparticipação. Esse número costuma aparecer em debates como prova de que a coparticipação estaria afastando pacientes do sistema. Mas a realidade é mais complexa e olhar apenas para esse fator acaba escondendo um problema muito mais profundo.
A coparticipação é apenas um sintoma de um sistema que vem se transformando há algum tempo.
Nos últimos anos, um movimento silencioso ganhou força: muitos médicos começaram a sair das redes credenciadas dos planos. A razão é simples. Em muitos casos, o valor pago pelas operadoras pelas consultas se tornou baixo demais para sustentar a prática médica.
Diante disso, profissionais passaram a priorizar o atendimento particular e orientar os pacientes a solicitar reembolso depois. Esse movimento muda completamente a dinâmica do sistema.
O paciente continua tendo plano de saúde, mas encontrar consulta dentro da rede credenciada passou a ser cada vez mais difícil.
É justamente nesse espaço que começaram a crescer as clínicas médicas especializadas em consultas. Elas oferecem agendas mais rápidas, preços claros e, muitas vezes, um atendimento mais acessível do que esperar semanas, ou até meses, por uma consulta dentro do próprio plano.
Na prática, surge uma situação curiosa: pessoas que têm plano de saúde, mas que acabam pagando consultas por fora porque precisam de atendimento rápido. Isso mostra que o problema não é apenas financeiro. Ele é, principalmente, de acesso.
Criou-se uma espécie de “zona cinzenta” na saúde suplementar: pacientes que tecnicamente têm cobertura, mas que enfrentam obstáculos cada vez maiores para usar o serviço que já pagam.
Esse cenário fica ainda mais contraditório quando olhamos para a evolução da medicina. Nunca tivemos tantos avanços. Diagnósticos mais precisos, tratamentos menos invasivos e tecnologias capazes de acelerar a recuperação dos pacientes.
Mesmo assim, muitas dessas inovações demoram anos para chegar aos sistemas de cobertura ou encontram barreiras burocráticas para serem utilizadas. A justificativa quase sempre é a mesma: controlar custos.
O problema é que, na saúde, a economia de curto prazo muitas vezes vira despesa maior no futuro. O que se evita gastar hoje com diagnóstico precoce ou tecnologia mais eficiente frequentemente reaparece depois na forma de tratamentos mais complexos, internações longas e recuperação mais difícil para o paciente.
A sustentabilidade financeira dos planos é, claro, uma discussão necessária. Saúde é um setor complexo e precisa de equilíbrio econômico para funcionar. Mas quando a discussão se limita apenas a cortar custos ou restringir acesso, o sistema começa a perder o seu propósito.
No Brasil, cerca de 70% dos planos de saúde são corporativos, oferecidos pelas empresas aos seus funcionários. O que começa a aparecer agora é uma contradição cada vez mais evidente: as empresas continuam pagando pelo benefício, enquanto os colaboradores sentem que o acesso ao atendimento está ficando mais difícil.
Quando esse tipo de desequilíbrio se instala, a consequência costuma ser previsível. A corda acaba arrebentando sempre na ponta mais frágil: o paciente.
Se quisermos preservar o papel da saúde suplementar no Brasil, será preciso ir além das explicações simplistas. O debate precisa incluir remuneração médica, qualidade da rede, acesso real ao atendimento e a incorporação responsável de inovação.
Porque um plano de saúde só faz sentido quando abre portas. Quando começa a criar barreiras, é sinal de que o sistema precisa ser repensado.
*Andrea Mendes é CEO do Grupo Hemocat e idealizadora da Cath Care.