A estratégia, segundo ela, une crescimento orgânico e incorporações, em um movimento que, nos últimos anos, contribuiu para praticamente dobrar a receita do grupo. Desde 2017, foram concluídas 21 aquisições em medicina diagnóstica, que totalizaram mais de R$ 2,2 bilhões, estando ainda sob aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a aquisição do Laboratório Femme.
IA na prática
Na apresentação, Tsutsui apontou algumas das principais transformações estruturais do setor. Hoje, no Fleury, a inteligência artificial não é vista como uma ferramenta do futuro. Ela já está incorporada a dezenas de soluções que vão desde o agendamento de exames até a análise de imagens médicas e a otimização logística.
Na radiologia, por exemplo, algoritmos conseguem identificar padrões em exames e priorizar casos graves, acelerando diagnósticos em situações críticas. Em outra frente, sistemas de roteirização aumentam a eficiência do atendimento domiciliar, enquanto soluções internas reduzem desperdícios em insumos laboratoriais.
Apesar do entusiasmo com as possibilidades, Tsutsui fez questão de reforçar limites. “A inteligência artificial é uma ferramenta de suporte. O laudo continua sendo um ato médico”, disse, alinhando-se a diretrizes recentes do Conselho Federal de Medicina (CFM).
A executiva também destacou preocupações com custo e governança. O uso de IA, segundo ela, exige investimentos relevantes em infraestrutura e deve ser direcionado a problemas concretos. “Não é tecnologia pela tecnologia. É preciso priorizar o que traz benefício real para o paciente e para o sistema”, afirmou.
Genômica e o avanço da medicina personalizada
Outro eixo da apresentação foi a genômica, apontada como uma das principais tendências para o futuro da medicina. Diferentemente do modelo tradicional, baseado em sintomas e tratamentos padronizados, a nova abordagem busca entender as características genéticas de cada indivíduo para orientar decisões clínicas com mais precisão.
Esse avanço já permite, por exemplo, identificar predisposição a doenças, escolher terapias mais adequadas e até evitar intervenções desnecessárias. No Grupo Fleury, a genômica responde por cerca de 4% da receita de medicina diagnóstica da companhia, em linha com um mercado que deve se expandir rapidamente nos próximos anos. A expectativa é que o segmento praticamente dobre de tamanho em até cinco anos, alcançando cerca de R$ 2 bilhões, impulsionado pelo avanço das tecnologias de sequenciamento e pela ampliação do uso clínico desses testes.
A companhia investe no tema por meio de iniciativas próprias e parcerias estratégicas, como a joint venture com o Hospital Israelita Albert Einstein, que resultou na criação de um dos maiores laboratórios de genômica da América Latina.
Além do foco em tecnologia, a executiva insistiu em um ponto que considera central: a prevenção continua sendo a ferramenta mais eficiente para melhorar a saúde da população e reduzir custos. Apesar disso, para a CEO, ainda é deixada em segundo plano. Em um sistema pressionado por envelhecimento populacional e aumento de doenças crônicas, investir em hábitos saudáveis, vacinação e diagnóstico precoce pode gerar mais impacto do que tecnologias sofisticadas aplicadas indiscriminadamente. “A incorporação de inovação precisa caminhar junto com a sustentabilidade do sistema”, destacou.
Imersão prática
Após a palestra, os participantes do curso tiveram a oportunidade de aprofundar o conteúdo em uma visita à sede do Grupo Fleury, no Morumbi, em São Paulo. No local, assistiram a uma aula sobre longevidade saudável, tema que conecta prevenção, estilo de vida e envelhecimento populacional, que foi ministrada por Pedro Saddi, consultor médico em endocrinologia e coordenador médico do Fleury Medicina e Saúde. A turma também pôde conhecer de perto o Núcleo Técnico Operacional da empresa.
Considerado uma das maiores estruturas do tipo na América Latina, o local reúne áreas altamente especializadas, como biologia molecular e pesquisa e desenvolvimento, além de linhas automatizadas de processamento de exames. A visita permitiu visualizar, na prática, a escala e a complexidade por trás das operações apresentadas na aula.
Ciência, confiança e futuro
A participação de Tsutsui também marcou o início das celebrações dos 100 anos do Grupo Fleury, que serão completados em 2026. A campanha institucional da companhia, estrelada pela ginasta Rebeca Andrade, maior medalhista olímpica do Brasil, reforça valores como resiliência, excelência e confiança, conceitos que, segundo a executiva, também orientam a atuação da empresa. “Somos uma companhia que evoluiu ao longo do tempo, incorporando tecnologia sem perder a essência do cuidado”, disse.