Com a perspectiva de cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil até 2028, o país entra em uma fase em que a capacidade de organizar o cuidado pode ser tão decisiva quanto o acesso a terapias inovadoras. Essa projeção, apresentada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), reforça um cenário de pressão crescente sobre serviços já marcados por gargalos operacionais e desafios de coordenação assistencial.
O debate público sobre oncologia costuma se concentrar em medicamentos de última geração e avanços diagnósticos. Embora fundamentais, esses elementos não são suficientes para garantir bons desfechos clínicos. Em ambientes de alta complexidade, a forma como unidades especializadas estruturam fluxos, definem prioridades e integram equipes influencia diretamente a segurança das pessoas em tratamento, o padrão assistencial e a sustentabilidade das instituições.
A governança do cuidado envolve protocolos baseados em evidências, monitoramento contínuo de indicadores e decisões compartilhadas entre diferentes especialidades. Oncologistas, cirurgiões, radioterapeutas e demais equipes médicas, além de enfermeiros, farmacêuticos, nutricionistas e profissionais de apoio, precisam atuar de forma coordenada para evitar a fragmentação do cuidado e garantir que a jornada terapêutica aconteça com previsibilidade. Procedimentos cirúrgicos e tratamentos como a radioterapia compõem uma parcela relevante dos custos assistenciais em oncologia e precisam estar rigorosamente alinhados em termos de agendas, protocolos e disponibilidade de estrutura. Quando essa articulação falha, aumentam atrasos, retrabalhos e riscos clínicos, impactando não apenas a experiência do paciente, mas também a eficiência financeira das instituições e do sistema de saúde como um todo.
A sofisticação crescente das terapias amplia esse desafio. Protocolos personalizados exigem revisão constante de diretrizes, auditorias clínicas e acompanhamento rigoroso de resultados. Métricas como tempo para início da intervenção, taxa de complicações e continuidade do cuidado passaram a orientar decisões estratégicas, deixando de ser apenas instrumentos operacionais. Ao mesmo tempo, a administração de quimioterápicos e a condução de procedimentos complexos demandam padronização, rastreabilidade e comunicação estruturada para reduzir falhas assistenciais.
A eficiência operacional passou a ser, portanto, um elemento central. A organização de agendas, a gestão de filas de infusão, a disponibilidade de leitos e a logística de medicamentos de alto custo desafiam diariamente estruturas dedicadas ao tratamento do câncer. Iniciativas de melhoria contínua e o uso mais inteligente de dados têm permitido redesenhar processos e ampliar a capacidade instalada sem comprometer o nível de entrega clínica. Nesse contexto, soluções digitais surgem como aliadas importantes para antecipar demandas e otimizar recursos.
O componente financeiro intensifica a urgência dessa discussão. Dados de relatório global divulgado pela IQVIA, empresa internacional de análise de dados e consultoria especializada no setor de saúde, indicam que os gastos com medicamentos oncológicos devem ultrapassar US$ 425 bilhões até 2027, refletindo a rápida incorporação tecnológica e o envelhecimento populacional. Esse movimento pressiona sistemas públicos e privados a buscar modelos assistenciais mais eficientes e sustentáveis, capazes de equilibrar inovação terapêutica e viabilidade econômica.
Diante desse cenário, reorganizar a forma como o cuidado oncológico é conduzido deixa de ser uma agenda técnica e passa a representar uma escolha estratégica. Sem avanços na coordenação assistencial, o país corre o risco de ampliar o acesso a terapias modernas, mas manter dificuldades na entrega efetiva do tratamento. Em um contexto de incidência crescente e custos acelerados, a qualidade da organização do cuidado pode definir não apenas a eficiência do sistema de saúde, mas também as chances reais de melhores resultados para quem enfrenta o câncer.
*Leandro Veloso Maia Lemos é Diretor Médico na Croma Oncologia.