Março traz um convite à reflexão — e à ação. No Mês da Mulher, o Saúde Business lança a série especial Mulheres na Saúde, dedicada a lideranças que influenciam decisões, moldam estratégias e impulsionam a transformação do setor.
Mais do que destacar trajetórias individuais, a proposta é ampliar o debate sobre equidade de gênero como agenda estratégica para a sustentabilidade da saúde.
As mulheres representam cerca de 70% da força de trabalho em saúde, segundo a Women in Global Health Brazil. Na liderança, o número não é tão expressivo, mas há avanços. O Atlas CBEXS 2024 mostra que o percentual passou de 44%, em 2021, para 51% em 2023. A evolução é relevante, mas a construção da equidade ainda está em curso.
A discussão sobre o tema, porém, não se limita ao mercado de trabalho. Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública — quatro mortes por dia.
Diante desse cenário, dar visibilidade a mulheres que ocupam espaços de decisão na saúde é também reafirmar que igualdade de gênero não é apenas pauta corporativa, mas compromisso social e de governança.
Na interseção entre ciência, gestão pública e transformação digital, a trajetória de Ana Estela Haddad reúne experiências que atravessam a prática clínica, a academia e a formulação de políticas públicas.
Da atuação em consultório próprio à liderança na Secretaria de Informação e Saúde Digital, sua carreira acompanha movimentos relevantes na organização da educação e da saúde no país.
Com formação em Odontologia e trajetória consolidada na Universidade de São Paulo, onde atua em ensino e pesquisa, Ana Estela ingressou na gestão pública no início dos anos 2000. Desde então, participou da formulação e implementação de iniciativas voltadas à educação superior e à qualificação da formação em saúde, além de programas que incorporam tecnologia à assistência, como a telessaúde.
Ao longo desse percurso, esteve envolvida em projetos estruturantes tanto no campo educacional quanto no sistema de saúde, com foco na integração entre ensino e serviço e na ampliação do acesso.
Em 2023, passou a liderar Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI), criada na gestão da ministra Nísia Trindade, responsável por coordenar a estratégia nacional de informação e saúde digital.
Na entrevista a seguir, a secretaria destaca lideranças do setor, os principais marcos de sua trajetória e os desafios atuais da transformação digital no SUS.
Saúde Business: O setor da saúde é historicamente hierarquizado. Na prática, há diferenças no acesso ao poder e na forma de liderar quando a liderança é feminina?
Ana Estela Haddad: A hierarquia está presente de forma geral no serviço público, na academia e na sociedade; a saúde não é diferente de outras áreas. Não resta dúvida de que, apesar de muitos avanços alcançados quando se consideram gerações passadas, ainda enfrentamos grandes desafios de gênero e raça no acesso aos espaços de poder.
Infelizmente, a dinâmica de funcionamento das redes sociais e de movimentos políticos conservadores tem contribuído para a escalada da violência de gênero e racial.
Características femininas, em geral, são capazes de influenciar os espaços de poder e gerar uma forma de exercer a liderança distinta da masculina, agregando valor, diversidade, harmonia e equilíbrio.