A frase dita por Arthur Geise, diretor médico da Pipo Saúde, explica por que, pela primeira vez, a corretora de benefícios corporativos de saúde e bem-estar abordou o tema da saúde social em seu estudo panorâmico de saúde corporativa, feito anualmente. “Nosso estudo mostrou uma correlação tão forte entre o pilar social e mental que confirmou o que já sabíamos: tudo faz parte de um único pilar psicossocial”, afirma Geise.
Segundo a pesquisa, que ouviu mais de 6 mil trabalhadores de 26 segmentos da economia, 60% possuem uma rede de apoio insuficiente - menos de três pessoas de confiança. Para o diretor médico da Pipo Saúde, esse dado é um reflexo do estilo de vida atual e do isolamento no ambiente de trabalho. “A falta de conexões reais aumenta a vulnerabilidade mental”. Nesse sentido, ele pontua que as empresas podem contribuir com esse aspecto sendo intencionais na promoção de relacionamentos, não apenas em tarefas. “Estar conectado, compartilhar valores e sentir que seus valores são respeitados e acolhidos geram uma forte sensação de bem-estar, que irá se refletir na saúde mental.”
Ao mesmo tempo, 80,40% dizem estar satisfeitos com sua rede de apoio. “As pessoas podem estar muito felizes com a única grande amizade que têm”, diz Geise. “Uma quantidade de bons colegas, poucas inimizades e uma única grande amizade podem ser suficientes para qualificar a rede como boa.”
A saúde social é a capacidade de um indivíduo desenvolver relacionamentos significativos, cultivar conexões saudáveis e participar ativamente na comunidade. “Tudo o que nos conecta ao mundo - trabalho, relacionamentos, hobbies... - reflete na nossa saúde social”, diz Geise.
Ao investigar como anda a saúde mental do trabalhador, o estudo indica uma trajetória de queda no risco para esse aspecto. Após atingir um pico de 48% em 2024, o índice caiu para 43,7% em 2025 e agora registra 36,6%, em 2026: uma redução total de 11,4 pontos percentuais no período analisado.
O mapeamento revela que hoje enfrentamos um problema maior de ansiedade do que de sintomas depressivos”
Geise explica que toda medida de saúde mental, inclusive a do estudo da Pipo, é feita por meio de questionários validados e perguntas de autopercepção. “Isso torna os diagnósticos muito dependentes dos momentos vividos e do ambiente ao redor”. Para ele, a queda do risco apontada pelo levantamento “significa que as pessoas têm se sentido melhor consigo mesmas e parecem estar mais em paz com o ambiente ao redor”.
“Não consigo desvincular isso dos esforços das empresas em olhar com mais qualidade e intencionalidade para a saúde mental, resultado da nova NR-1 [norma que passa a incluir riscos psicossociais aos riscos organizacionais]”, explica. “O mapeamento de saúde foi feito com empresas clientes da Pipo e, por isso, sabemos que o tema de saúde mental foi muito falado e trabalhado”, complementa, revelando um possível viés nos resultados.
O estudo mostrou, ainda, que 17,4% das pessoas mapeadas têm, além de uma autopercepção ruim, sintomas objetivos de risco para a saúde mental. “O mapeamento revela que hoje enfrentamos um problema maior de ansiedade do que de sintomas depressivos”, afirma Geise.
Para o especialista, com a atualização da NR-1 em 2026, “as empresas precisam evoluir de ‘oferecer um psicólogo’ para estratégias que combatam a sobrecarga e o estresse na raiz”.
O autocuidado - praticar atividade física, não fumar, não beber em excesso e ter alimentação equilibrada - é um ponto relevante de contribuição com a saúde do trabalhador, física e mental, e foi mais um item abordado na pesquisa.
Embora o número de pessoas fisicamente ativas tenha dado um salto de 39% na pesquisa feita em 2024 para 62,6% em 2026, o levantamento identificou que apenas 13% praticam o chamado “autocuidado mínimo”, que inclui todos os pilares do autocuidado: não fumar, não beber em excesso, exercitar-se 2h30 por semana e ter alimentação equilibrada. Além disso, 42% dos entrevistados estão com o check-up anual atrasado e 67% apresentam sobrepeso ou obesidade.
“O autocuidado e a prevenção estão conectados aos valores e prioridades das pessoas no momento atual de vida”, detalha Geise. “Quem está excessivamente preocupado em dar conta do dia a dia, tem mais dificuldade em valorizar algo preventivo, principalmente quando se trata de algo que pode acontecer em 10 ou 20 anos.”
Para o especialista, a cultura e os valores organizacionais podem interferir nesse aspecto. “Se as empresas oferecem os benefícios, mas sobrecarregam as pessoas com demandas crescentes, o autocuidado perde espaço. Se o tema autocuidado é prioridade na empresa, existe uma permissão para entrar mais tarde, sair mais cedo, aumentar tempo de almoço, para que a pessoa possa de fato ter suas consultas e exames preventivos, que normalmente ocorrem em horário comercial”, afirma. “Eu entendo que ninguém quer ser negligente, mas quando a realidade já está sufocante, pensar no futuro é muito mais difícil.”
Por fim, o estudo mapeou também como anda a saúde financeira do trabalhador, e 53,3% dos respondentes afirmam que sua renda não é suficiente ou que não possuem organização financeira, o que aparece como um dos principais gatilhos para crises de ansiedade. “Aqui tem um ponto importante: a insatisfação financeira é um pilar de percepção”, explica Geise. “Ou seja, pode estar muito mais relacionada às desigualdades percebidas e às dificuldade em atingir metas financeiras do que a um problema financeiro.”
Na visão dele, o que as empresas podem fazer é oferecer aulas, parcerias e outras formas de letrar as pessoas em finanças básicas. “Mas isso nem sempre se reflete em satisfação financeira, porque a satisfação é muito relativa e comparativa, então depende de questões sociais maiores.”