Longevidade: Saúde Suplementar diante do espelho demográfico
22/04/2026

Um estudo recente do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) trouxe à tona um dado que, à primeira vista, parece indicar uma inclusão crescente da população mais madura no sistema privado: entre 2015 e 2025, o número de beneficiários com 50 anos ou mais em planos de saúde cresceu 20,6%. O número, embora expressivo, revela um complexo paradoxo quando colocado em perspectiva com as transformações demográficas, econômicas e regulatórias que o Brasil atravessa. A análise aprofundada dos dados sugere que o setor corre em uma esteira rolante, esforçando-se para avançar enquanto o chão se move em velocidade ainda maior.

O primeiro ponto de análise que salta aos olhos é a comparação do crescimento de beneficiários com o envelhecimento geral da população. Segundo o Censo de 2022 do IBGE, o contingente de brasileiros com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em apenas 12 anos. Este descompasso entre as taxas de crescimento é a chave para entender a dimensão do desafio. Enquanto o número absoluto de idosos na saúde suplementar aumenta, a cobertura relativa do setor não avança na mesma proporção. Estimativas indicam que aproximadamente três em cada quatro idosos no Brasil dependem exclusivamente do SUS, evidenciando os limites estruturais da expansão privada.

O pano de fundo para essa dinâmica é a própria arquitetura financeira da saúde suplementar. O modelo é historicamente fundamentado no princípio do mutualismo, onde uma base ampla de beneficiários jovens ajuda a equilibrar os custos assistenciais mais elevados da população idosa. Contudo, a realidade demográfica brasileira impõe uma pressão crescente sobre este modelo. Com uma taxa de fecundidade de apenas 1,57 filhos por mulher em 2023 e a projeção de que a população total do país começará a diminuir a partir de 2041, a estratégia de sustentar o sistema com uma base de jovens em contínua expansão torna-se matematicamente questionável. A pirâmide etária brasileira está se invertendo de forma irreversível.

É uma realidade atuarial que os custos assistenciais aumentam com a idade. Dados do setor mostram que a despesa média por beneficiário com mais de 59 anos chega a ser o dobro daquela na faixa entre 54 e 58 anos. Este fator econômico é central para a equação da sustentabilidade das operadoras. Curiosamente, dados recentes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam um período de recuperação financeira para o setor, com um lucro líquido de R$ 17,9 bilhões nos primeiros nove meses de 2025 e uma queda na sinistralidade geral para 81,9%, o menor índice desde 2021. Isso sugere que a gestão de custos e a recomposição das mensalidades têm sido eficazes.

Em janeiro de 2026, o setor de assistência médica alcançou a marca de 53 milhões de beneficiários, um crescimento de mais de um milhão de vidas em 12 meses. No entanto, este número esconde uma altíssima taxa de rotatividade de 28,34% no acumulado do período. Isso significa que, para cada novo beneficiário que entra, outro sai, indicando uma base volátil de clientes e uma competição acirrada, muito dependente dos ciclos de emprego formal, que adicionaram 1,7 milhão de vagas entre janeiro e setembro de 2025. A instabilidade dessa carteira reflete a vulnerabilidade estrutural do modelo.

Paralelamente à recuperação financeira das operadoras, observa-se um fenômeno que acende um sinal de alerta: o atrito na ponta. Em 2025, as reclamações de consumidores contra os planos de saúde atingiram o maior nível em 12 anos, com quase 35 mil queixas registradas, segundo a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). A principal fonte de insatisfação, respondendo por 76% dos casos, foram as negativas de cobertura. Este paradoxo — de um setor financeiramente mais saudável, mas com um pico de insatisfação do cliente — sugere que a busca por eficiência e controle de custos pode estar gerando fricções significativas na entrega do serviço.

A questão demográfica torna-se ainda mais premente. A expectativa de vida do brasileiro atingiu o recorde de 76,6 anos em 2024, e a população com 60 anos ou mais já soma 34,1 milhões de pessoas. Um dado novo do IBGE mostra que um em cada quatro idosos permanecia ativo no mercado de trabalho em 2024, o que pode prolongar a permanência em planos coletivos empresariais, mas também evidencia a necessidade de renda complementar para custear despesas de saúde. Essa população economicamente ativa, porém envelhecida, representa um segmento estratégico para o setor. Todo este cenário se desenrola em meio a um intenso debate político e regulatório.

A tramitação do Projeto de Lei 7419/2006, que propõe uma ampla reforma na Lei dos Planos de Saúde, coloca em pauta temas sensíveis como a proibição do cancelamento unilateral de contratos de idosos e a imposição de novos limites para os reajustes por faixa etária. Propostas como o PL 2.036/2024, já aprovado na Comissão de Direitos Humanos do Senado, visam aumentar a proteção ao consumidor idoso. O avanço de tais medidas colide diretamente com a lógica atuarial de precificação de risco. O setor argumenta que tais medidas poderiam levar a um aumento generalizado das mensalidades para toda a base de beneficiários, tornando o acesso ao sistema ainda mais restrito.

Neste contexto, estudos como o do IESS são peças importantes no debate. Ao destacarem o crescimento do custo assistencial atrelado ao envelhecimento, eles municiam a discussão com a perspectiva do setor, argumentando que a sustentabilidade do sistema depende de um delicado equilíbrio entre receitas, despesas e a composição da carteira de beneficiários. A discussão, portanto, transcende uma simples análise de crescimento de mercado e mergulha nas complexas e difíceis escolhas que o Brasil terá de fazer.

O que se desenha no horizonte é um trilema de difícil solução: como garantir a proteção e acesso do consumidor, especialmente o idoso; acomodar a transformação demográfica acelerada; e assegurar a sustentabilidade financeira das operadoras. A resposta não virá de uma única lei ou perspectiva. Exigirá mecanismos inovadores de financiamento, modelos de planos mais flexíveis e uma transparência radical na comunicação entre operadoras, prestadores, reguladores e beneficiários. A longevidade é uma conquista social significativa, mas seu financiamento é o verdadeiro desafio estrutural que o Brasil precisa encarar com urgência.


*Gilmara Espino é professora do MBA de Gestão em Saúde do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e presidente da GPeS Comunicamos Saúde.





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