A recente intensificação da fiscalização do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre a atuação ilegal na medicina marca um ponto de inflexão importante para o setor de saúde no Brasil. Mais do que uma resposta a práticas irregulares, esse movimento revela uma tentativa de reorganizar as bases da profissão em um momento em que a expansão do ensino médico, a digitalização e a crescente demanda por serviços de saúde criaram um ambiente mais complexo, competitivo e, por vezes, vulnerável.
Nesse contexto, o Profimed surge como uma peça relevante dentro de um sistema mais amplo de controle e qualificação. Ao atuar na fiscalização dos profissionais “em formação”, enquanto a plataforma do CFM concentra esforços sobre os médicos já formados, estabelece-se uma linha contínua de supervisão que acompanha o profissional desde o início da sua trajetória até o exercício pleno da medicina. Essa integração tende a reduzir lacunas históricas entre formação e prática, criando um ambiente mais coerente e rastreável.
Um dos efeitos mais imediatos da medida é o fortalecimento do ambiente de atuação dos médicos regulares. Ao reduzir a atuação irregular e valorizar aqueles que operam com formação adequada, responsabilidade técnica e conformidade regulatória, o sistema passa a premiar consistência e não apenas visibilidade, posicionamento de mercado e marketing. Em um cenário onde práticas oportunistas frequentemente se apresentam como serviços de saúde, essa diferenciação se torna não apenas desejável, mas essencial para a proteção do paciente e da própria credibilidade da medicina.
Ao mesmo tempo, a medida eleva significativamente o nível de exigência sobre a operação dos profissionais e das instituições de saúde. Credenciais passam a ter um peso ainda maior, assim como estruturas de governança, qualidade de prontuário, obtenção de consentimento informado e segurança jurídica nas decisões clínicas. Não se trata apenas de cumprir normas, mas de estruturar uma prática que seja auditável, transparente e sustentável no longo prazo. Isso muda, de forma definitiva, o perfil do médico que terá sucesso nos próximos anos: menos improviso e informalidade, mais processo e responsabilidade estruturada.
A ideia de posicionar o Profimed como uma espécie de “OAB dos médicos” ajuda a ilustrar seu papel, além de trazer à tona um conjunto de desafios. A criação de um filtro mais rigoroso tende a elevar o padrão médio da profissão, reduzir a informalidade e reforçar a percepção de valor do médico qualificado. Por outro lado, existe o risco de se construir um ambiente excessivamente burocrático, que dificulta a adaptação a novas tecnologias e modelos de cuidado. O equilíbrio entre fiscalização e inovação será determinante, porque um sistema que orienta e desenvolve pode transformar a profissão.
Esse debate inevitavelmente nos leva à base do problema: o modelo de educação médica. A expansão acelerada de cursos nos últimos anos, nem sempre acompanhada de infraestrutura e qualidade equivalentes. De acordo com o estudo Demografia Médica no Brasil de 2020, o país vive esse crescimento acelerado no número de profissionais, saindo de cerca de 230 mil médicos em 2000 para mais de 500 mil em 2020. Esse avanço foi impulsionado principalmente pelo aumento de vagas, mas não se traduziu em equilíbrio no acesso à saúde.
Nas últimas quatro décadas, o Brasil experimentou uma expansão significativa na densidade médica, com a proporção de profissionais por mil habitantes mais do que dobrando ao longo do período. Em 1980, havia 0,98 médicos para cada mil habitantes, índice que subiu para 1,68 em 2010, alcançou 2,0 em 2015 e, mais recentemente, chegou a 2,4.
O futuro da medicina exigirá uma mudança nesse paradigma. A formação deve ser entendida como um processo contínuo, com avaliações ao longo da carreira, maior integração entre teoria e prática e incorporação de competências que vão além do conhecimento técnico. Gestão, ética, comunicação e uso de tecnologia passam a ser tão relevantes quanto o domínio clínico. Nesse sentido, iniciativas como o Profimed têm o potencial de atuar não apenas como mecanismos de fiscalização, mas como indutores de um novo modelo educacional, mais dinâmico e orientado à qualidade.
O que está em curso é uma transformação estrutural. A medicina caminha para um cenário em que a validação profissional será contínua, a governança será indispensável e a diferenciação entre profissionais ficará cada vez mais evidente.
Nesse novo contexto, a confiança deixa de ser presumida e passa a ser construída e comprovada ao longo do tempo. A profissão tende a se afastar de um modelo centrado apenas no diploma e se aproximar de outro, baseado na capacidade real de entregar valor com responsabilidade, consistência e transparência.
*Matheus Reis é CEO da Back4you.