Fundadores de hospital recompram negócio pela metade do valor
23/04/2026
Diante da escassez de investidores para novas transações, fundadores que venderam seus hospitais em 2021, no “boom” do movimento de consolidação do setor, tornaram-se uma opção para grupos de saúde que se alavancaram nos anos seguintes e precisaram vender ativos para reduzir o endividamento. Há três casos no mercado em que os antigos proprietários recompraram hospitais por valores muito inferiores aos negociados na época da transação - em geral, quase metade do valor. Há ainda outro caso, em que o fundador voltou a ser dono do imóvel do hospital que havia vendido. 

Entre eles estão DasaMater Dei e Oncoclínicas, que revenderam, respectivamente, os hospitais São Domingos, Porto Dias e o Centro Médico de Uberlândia (UMC) aos fundadores. A Kora vendeu o imóvel do Hospital Anchieta, em Brasília, para os antigos proprietários, que pagaram R$ 388,7 milhões pela propriedade e passaram a cobrar o aluguel do imóvel, num contrato de 30 anos. 
 

A desvalorização dos ativos ocorre em diferentes empresas de saúde. A operação do Sul da Hapvida que, segundo fontes, pode ser vendida por ser deficitária, é avaliada em até R$ 1,1 bilhão nas estimativas do Citi. Porém, o investimento feito na região foi de cerca de R$ 4 bilhões, nas aquisições da Clinipam e do Centro Clínico Gaúcho e a construção de três hospitais. 

“Os fundadores tornaram-se uma alternativa. Alguns ainda têm apego à operação, não tinham muita certeza da venda, foram atraídos pelos valores, pelos múltiplos elevados praticados na época. Essa situação está mais estabilizada hoje, mas ainda podem surgir casos. A Hapvida quer vender sua operação no Sul, mas é uma região difícil para buscar investidor financeiro porque a Unimed local tem uma força relevante. O fundador pode ser uma opção”, disse Fernando Kunzel, sócio da JGP Financial Advisory. 
 

‘’Houve um ânimo exagerado. Taxa de juro de 2% não é padrão no Brasil” 

— Fernando Kunzel 

No fim de dezembro, a Dasa anunciou que revendeu o Hospital São Domingos, de São Luís, à família fundadora por R$ 1,2 bilhão. O estabelecimento havia sido adquirido em 2021 pela companhia, por cerca de R$ 2 bilhões, sendo R$ 800 milhões em dinheiro e o restante em ações. A devolução fez parte da reestruturação da Dasa para reduzir alavancagem e voltar a atuar exclusivamente no mercado de medicina diagnóstica, sua área de origem. 
 

A Oncoclínicas abriu mão do Complexo Hospitalar de Uberlândia, em Minas Gerais. Esse ativo foi adquirido em 2021 por R$ 400 milhões, e repassado ao fundador, Alexandre de Menezes Rodrigues, por R$ 160 milhões, numa transação que envolve basicamente assunção de dívida. A operação foi anunciada no ano passado e o fechamento, há cerca de dois meses. 

O Complexo UMC é formado por um hospital geral, uma empresa de exames de imagem e uma unidade de cardiologia. A Oncoclínicas também se desfez do ativo para baixar endividamento e voltar a operar apenas com clínicas de tratamento de câncer, que é seu negócio de origem. 

Há ainda o caso do Porto Dias, em Belém, que foi comprado pelo Mater Dei, também em 2021, numa transação avaliada em R$ 2 bilhões - sendo R$ 800 milhões em dinheiro e mais ações. Em 2024, o ativo voltou para as mãos da família Porto Dias, que pagou R$ 410 milhões e devolveu as ações que havia recebido, o equivalente a 7% do capital da Mater Dei. A rede hospitalar mineira teve R$ 200 milhões de créditos tributários e dividendos que amenizaram a perda. 



Segundo comunicado do Mater Dei, na época, a devolução do Porto Dias foi decidida porque as operadoras de planos de saúde de Belém estavam pagando o hospital num prazo de 119 dias - acima da média da companhia. A devolução do Porto Dias ajudou o Mater Dei a recuperar sua margem e, na época, foi bem recebida pelo mercado. 

 

“O mercado transitou de um cenário de capital abundante e ampla presença de investidores estratégicos qualificados para um ambiente de custo de capital substancialmente mais elevado e escassez de compradores. Restando, em grande parte, apenas os antigos detentores dos ativos”, disse Maurício Nozawa, sócio da BR Finance. 

Nozawa destaca que, em paralelo, os principais grupos encontraram-se alavancados e diante de desafios significativos na integração de ativos, passando a priorizar disciplina de capital, desalavancagem e rotação de portfólio. “Deste modo, criou-se um cenário propício para uma recompra com desconto por parte dos ex-sócios do Porto Dias, São Domingos e UMC.” 

Na visão de Kunzel, houve um ânimo exagerado com a taxa de juros na casa dos 2% há cinco anos. “Esse não é um cenário padrão de Brasil. Se alavancar com esse patamar de juros, acreditar que seria para sempre, não era viável. Na época, a métrica usada era o valor por leito hospitalar. Quando os juros subiram, passou a valer o Ebitda, ou seja, a eficiência operacional”, disse o sócio da JGP Financial Advisory. 

Além disso, houve ainda casos de ativos adquiridos em praças distantes em que o comprador não conseguiu abrir outras operações para capturar mais sinergias. 

As ações do setor de saúde passaram por uma forte desvalorização nos últimos anos. Em 2021, o valor de mercado do Mater Dei era de R$ 5,1 bilhões e hoje é de R$ 1,9 bilhão. Na Dasa, caiu de R$ 18,5 bilhões para R$ 4 bilhões. Já na Oncoclínicas, a desvalorização foi de 72%, para R$ 1,5 bilhão, segundo levantamento do Valor Data. 

Essa queda no preço dos papéis também explica a redução nos valores negociados nas transações que envolveram troca de ações. 

Além disso, vários hospitais perderam valor devido à mudança estrutural do setor. Muitos deles foram descredenciados pelas operadoras em busca de redução de gastos. Ao contrário de alguns anos atrás, em que os planos de saúde tinham uma ampla rede credenciada, hoje é comum um convênio médico com número limitado de hospitais credenciados. As operadoras fazem acordos em que encaminham mais pacientes aos hospitais credenciados em troca de tabela de valores mais atrativa. 

Procurados pela reportagem, Rodrigues, do Complexo Hospitalar de Uberlândia, a família Porto Dias, Mater Dei e São Domingos informaram que preferem não comentar. Oncoclínicas e Hapvida não retornaram. A Dasa disse que não há informações adicionais ao fato relevante, de 30 de dezembro. No documento, a companhia destacou que o “movimento reforça a estratégia da companhia em entregar maior eficiência operacional e melhoria contínua dos resultados, ao mesmo tempo que fortalece a posição financeira da Dasa e a redução do endividamento”. 





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