A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, todos os anos, cerca de 670 mil mulheres perdem a vida para o câncer de mama. O dado revela uma realidade dramática - a cada minuto, uma mulher morre da doença em algum lugar do mundo. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) registra quase 21 mil óbitos anuais, muitos dos quais poderiam ser evitados se a doença fosse diagnosticada em estágios iniciais. “Infelizmente, a maioria dos casos só é descoberta tarde demais”, afirma Daniella Castro, cofundadora e diretora de tecnologia da Huna, startup de saúde sediada em São Paulo.
Fundada em 2022, a Huna concebeu um modelo de inteligência artificial capaz de identificar pacientes com maior risco de desenvolver a doença. A IA é treinada com base nos resultados de exames de pacientes com e sem câncer, o que permite identificar conjuntos de variações que, isoladamente, não constituiriam sinal da doença.
Além do câncer de mama, foco inicial de pesquisa, a tecnologia está disponível para outros quatro tipos de câncer - colorretal, de próstata, pulmão e colo do útero. Juntos, eles representam metade de todos os casos da doença.
No exterior, empresas estão usando IA para o diagnóstico precoce de câncer com base em marcadores genéticos, que são caros e de difícil acesso. A Huna se apoia no hemograma, um exame simples, rápido e barato.
“Nosso desafio era entender como aplicar IA a emergências de saúde pública em países de baixa renda”, diz Vinicius Ribeiro, cofundador e executivo-chefe da companhia. “O hemograma é idêntico em qualquer lugar do mundo e gera um volume imenso de dados - globalmente, são realizados cerca de 3 bilhões de exames por ano.”
“Huna” é a palavra maori para algo oculto, não descoberto. Foi escolhida para batizar a empresa porque muitos tipos de câncer não apresentam sintomas até que seja tarde demais, com repercussões graves para o paciente e o sistema de saúde.
Quando a doença é descoberta em estágio inicial, as chances de sobrevivência do paciente superam 95%, dependendo do câncer. A cada etapa, elas diminuem: de 80% a 90% na segunda fase, de 50% a 70% na terceira (diagnóstico tardio), e de 25% a 30% na última, a de metástase.
A cada quatro semanas de atraso, o risco de mortalidade aumenta entre 6% e 13%, segundo artigo publicado na “Jama Oncology”, revista da Associação Médica Americana. Apesar disso, dois entre três casos no mundo são diagnosticados tardiamente, segundo a OMS.
'' Infelizmente, a maioria dos casos só é descoberta tarde demais”
— Daniella Castro
O modelo da Huna é destinado ao uso profissional, explica Castro, PhD em IA. A maior parte dos clientes são operadoras de planos de saúde. Depois que a base de segurados é triada pela inteligência artificial, a Huna emite alerta à operadora para que as pessoas com maior risco sejam submetidas a exames confirmatórios e, quando necessário, iniciem o tratamento.
Cuidar da doença mais cedo proporciona à operadora uma economia de 50%, em média, afirma Castro. Isso é vital diante da pressão crescente dos gastos. A previsão é que a partir de 2030 as doenças oncológicas superem as cardíacas em custos para os sistemas de saúde, ocupando o primeiro lugar. O cálculo da OMS é que as despesas totais com doenças oncológicas entre 2020 e 2050 cheguem a US$ 25,2 trilhões.
A Huna completou duas rodadas de investimento, com a maior parte dos recursos vinda de fundos de venture capital - KX Ventures (gestora do fundo Kortex Ventures, formado pelo Grupo Fleury, Bradesco Seguros e Sabin); Niu Ventures, cuja ênfase é conectar empresas brasileiras ao Vale do Silício; New Ventures Capital (de iniciativas com repercussão social ou ambiental mensurável); e “big bets” (aportes em estágios iniciais do empreendimento). O volume total de investimento soma US$ 2,4 milhões. Está nos planos uma nova captação para fortalecer o segmento de atuação mais recente da empresa - serviços.
Até 30% dos pacientes oncológicos abandonam ou atrasam o tratamento depois dos primeiros exames suspeitos, alerta a OMS. Entre os motivos está o desconhecimento sobre o que fazer a seguir - onde realizar os exames, como acessar os resultados, quais as terapias disponíveis, observa Ribeiro.
É nesta etapa, a transição do alerta inicial para a coordenação do cuidado, que a Huna passou a atuar, também com IA. “Queremos reduzir essa fricção”, afirma o executivo. “Explicar como deve ser feito um pedido médico, informar qual o laboratório mais próximo, lembrar da data do exame.” Os serviços para câncer de mama já estão em funcionamento e serão expandidos para os demais tipos.
A previsão da Huna é chegar ao equilíbrio financeiro entre meados e o fim do próximo ano.
A criação da metodologia foi acompanhada de artigo publicado em revista especializada, a “Nature Scientific Reports”, um quesito importante na pesquisa científica. A Huna é a única brasileira entre as cinco finalistas do programa MIT Solve, que envolveu 393 empresas de 68 países neste ano. A tecnologia será apresentada em maio, na Assembleia Geral da OMS, em Genebra.
Esse tipo de reconhecimento, aliado ao fato de o modelo se basear em hemograma, fácil de replicar, proporciona oportunidades de expansão no exterior. Além dos fundos de private equity, que podem ampliar o retorno financeiro, a Huna conta com investidores-anjos brasileiros e estrangeiros, incluindo médicos americanos interessados em adotar a tecnologia. “O caminho da internacionalização é inevitável”, diz Ribeiro.