OSS no SUS: eficiência sem abrir mão da segurança do paciente
27/04/2026

As Organizações Sociais de Saúde (OSS’s) têm ganhado espaço na gestão de unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), prometendo mais eficiência no uso de recursos públicos. A eficiência é essencial, sim, mas não pode vir às custas da qualidade e da segurança na assistência. Precisamos de um equilíbrio delicado: otimizar gastos sem comprometer o desfecho do paciente.

No SUS, onde os recursos são escassos, o modelo de OSS oferece agilidade administrativa e foco em resultados. Contratos com metas claras permitem contratações rápidas e auditorias rigorosas, reduzindo desperdícios como internações prolongadas desnecessárias que custam bilhões anualmente. Dados da saúde suplementar já apontam R$ 10,6 bilhões em prejuízos por insegurança assistencial. No público, o cenário é pior: 36 mil óbitos por eventos adversos em 2017 revelam falhas evitáveis que matam mais que muitas doenças.

Por que as pessoas ficam internadas mais do que deveriam? Um leito hospitalar é um recurso caro e escasso. Quando um paciente permanece internado por mais tempo do que sua condição exige, não é apenas dinheiro que se perde, mas outra pessoa em estado grave fica sem vaga. Pesquisas mostram que as causas desse problema são bem conhecidas: demora na realização de exames, lentidão nas autorizações de procedimentos, falta de estrutura para cuidar do paciente em casa após a alta e dificuldades de comunicação com familiares.

Um sistema de saúde eficiente não é aquele que tem mais leitos é aquele que precisa usar cada leito pelo menor tempo necessário, com o melhor resultado possível.

Da mesma forma, muitas internações poderiam simplesmente não acontecer. Uma atenção primária de qualidade com postos e UBSs bem equipados e com médicos disponíveis é capaz de resolver a grande maioria dos problemas de saúde antes que eles exijam hospitalização. Quando isso falha, o paciente vai parar na emergência, superlota o pronto-socorro e acaba internado por condições que eram totalmente tratáveis de forma ambulatorial.

Contudo, o risco é real: priorizar cortes pode levar a protocolos frouxos e falta de investimentos em prevenção. Mesmo OSS de pequeno porte, como as que gerem UPA’s regionais, devem insistir em modelos baseados no desfecho do paciente e mortalidade ajustada por risco, readmissões e satisfação. Certificações como a ONA (Organização Nacional de Acreditação) e protocolos de segurança, para prevenção de infecções, não são opcionais. Elas garantem que a “eficiência” não se traduza em leitos liberados às pressas, mas em cuidados que evitam retornos e complicações.

Criticamente, o poder público deve fiscalizar: contratos sem indicadores de qualidade viram armadilhas. OSS’s bem-sucedidas, que buscam certificações e aprimoramentos constante, algumas até mesmo premiadas como as do Prêmio Hospitais Líderes na Entrega de Valor em Saúde (curadoria do IAG Saúde, ONA e Consórcio Internacional para Medição de Resultados em Saúde – ICHOM), provam que é possível: menor mortalidade que o esperado, com uso proporcional de recursos.

Observo que entre as instituições premiadas, um número expressivo é gerido por Organizações Sociais de Saúde vinculadas ao SUS. Isso não é coincidência. É o resultado de uma gestão focada em resultados, de protocolos assistenciais rigorosos e de uma cultura institucional que trata a qualidade do cuidado como prioridade estratégica, não como burocracia.

Mas para as menores, o desafio é maior: sem escala, dependem de disciplina férrea em evidências clínicas. Precisamos persistir com esse foco e na educação continuada como obsessão.

O SUS precisa de OSS’s que transformem eficiência em valor real: mais saúde por real investido, com pacientes seguros. Sem isso, avançamos para o abismo do desperdício humano.


*Letícia Turim é presidente do Grupo Chavantes.





Obrigado por comentar!
Erro!
Contato
+55 11 5561-6553
Av. Rouxinol, 84, cj. 92
Indianópolis - São Paulo/SP