O mercado privado de oncologia movimenta atualmente cerca de R$ 100 bilhões por ano, o que representa um terço das despesas médicas totais pagas por planos de saúde. A expectativa é que, com o envelhecimento da população brasileira, o custo de pacientes oncológicos seja ainda mais representativo. Em 2030, quando o Brasil deverá ter a quinta população mais idosa do mundo, o tamanho do mercado de tratamento para câncer pode dobrar, para R$ 210 bilhões, segundo projeções da JGP Advisory Financial.
Há oportunidades para consolidação, segundo especialistas. Essa é uma área que cresce acima do setor de saúde e tem poucos ‘players’. Os três maiores grupos - Oncoclínicas, Oncologia D’Or e Rede Américas (fruto da fusão de Amil e Dasa) - possuem juntos 10% do mercado, sendo que a Oncoclínicas sozinha tem 7%. Outras empresas vêm despontando, como o Grupo Orizonti, de Ernane Bronzatti e Marcelo Guimarães (fundadores e ex-sócios da Oncoclínicas), e a Croma, uma joint venture entre Bradsaúde, Fleury e BP-Beneficência Portuguesa.
“Ainda há espaço para consolidação e esse é um momento interessante. A Oncoclínicas está perdendo pacientes e médicos. A Dasa não deve fazer aquisições porque está focada na desalavancagem. Já a Rede D’Or é uma dúvida, porque não acho que vá comprar clínicas de oncologia individualmente. A companhia está muito grande e o interesse deles é mais por negócios transformadores”, disse Fernando Kunzel, sócio da JGP Advisory Financial.
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As projeções da consultoria mostram que a receita vinda de quimioterapia terá um crescimento anual médio de 21% entre 2023 e 2030. Já nos demais serviços hospitalares, a expansão deve ser de 9%, considerando o mesmo período. Na Rede D’Or, a receita bruta de oncologia subiu 22,4%, enquanto o faturamento do grupo hospitalar como um todo cresceu 13,4% no ano passado.
A carência de redes de tratamento de câncer ficou ainda mais evidente com o interesse da Porto pela Oncoclínicas. Uma das razões que motivaram a seguradora a lançar a oferta de aquisição é a sua dependência. A maior parte dos tratamentos oncológicos dos usuários da Porto é realizada nas unidades da Oncoclínicas. Não há opções de mesmo porte no mercado para uma troca de rede de atendimento.
As outras duas maiores empresas do setor são ligadas a operadoras de planos de saúde, portanto, concorrentes. A Oncologia D’Or pertence à Rede D’Or que, por sua vez, é dona da SulAmérica. A Rede Américas tem como sócia a Amil, também concorrente da Porto.
A Oncoclínicas tem cerca de 145 unidades e está presente em 47 cidades do país. A segunda colocada é a Rede D’Or, com cerca de 70 clínicas, seguida pela Rede Américas com 38 pontos. Ou seja, quando somadas, a segunda e a terceira maiores não chegam ao tamanho da Oncoclínicas que, por sua escala, consegue oferecer tratamentos com um custo menor.
A Oncoclínicas cresceu, mas algumas de suas estratégias de expansão são evitadas pelos competidores. Entre elas estão o investimento em hospitais especializados em oncologia (conhecidos no setor como ‘cancer center’) e alçar os fundadores das clínicas adquiridas a sócios da holding.
Bronzatti e Guimarães, que fundaram a Oncoclínicas e hoje controlam a Orizont, saíram da líder do setor por discordar dessas estratégias, entre outras razões.
No grupo mineiro Orizonti, o modelo predominante é que o dono da clínica adquirida continue como sócio relevante em sua unidade para se dedicar à operação assistencial. O racional desse modelo é que o médico não tenha “distrações” com as demandas da holding e deixe de lado a clínica. O grupo tem um hospital em Belo Horizonte e possui clínicas em São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina.
“Estamos em negociação para duas aquisições neste ano. Há muitas oportunidades, médicos querendo se associar ao nosso grupo. Mas vamos com calma, queremos crescer de forma sustentável”, disse Bronzatti, que prevê encerrar o ano com receita de R$ 1,2 bilhão, sem considerar as futuras aquisições.
O oncologista Paulo Hoff, da Rede D’Or, defende o modelo com hospitais bem estruturados para dar suporte ao trabalho das clínicas. Em geral, essas unidades têm um hospital do grupo na mesma região e esse modelo deve prevalecer. Hoff lembra que, atualmente, a maior parte do tratamento oncológico é ambulatorial e, com o aumento dos casos de câncer - hoje são 781 mil por ano -, muitos hospitais já têm uma estrutura robusta para tratar a doença.
“No Brasil, 25% da população tem saúde privada, são 50 milhões de pessoas. Há muitos países que não têm essa população. Aqui, temos o envelhecimento da população e, ao mesmo tempo, há maior incidência de câncer em jovens. Há risco de aumento de câncer de pulmão, que vinha caindo no Brasil, porque há mais jovens fumando, usando ‘vape’, que é uma porta de entrada para o cigarro”, disse Hoff, responsável pela oncologia da Rede D’Or.
A Rede Americas contratou, recentemente, o oncologista Antonio Carlos Buzaid, que anteriormente era da BP-Beneficência Portuguesa e Sírio-Libanês, e vai erguer uma unidade ambulatorial especializada, nos Jardins, na capital paulista. Segundo o médico Gustavo Fernandes, vice-presidente de oncologia da Rede Américas, a estratégia também combina ter hospitais robustos para complementar o tratamento.
“Com o avanço dos tratamentos e medicamentos, há também uma redução da mortalidade, com o câncer se tornando uma doença crônica, que demanda acompanhamento. Então, temos essas situações e também os novos casos diante dos hábitos alimentares, sedentarismo”, afirmou Fernandes.