A saúde é uma das áreas que mais rapidamente absorve as transformações do tempo. Em 2026, ao completar 50 anos de trajetória na enfermagem — um marco que divido com a história do próprio Hcor —, é impossível não olhar para o retrovisor e notar que a profissão que abracei nos anos 70 e a que praticamos hoje parecem pertencer a mundos distintos, embora compartilhem o mesmo DNA: o cuidado.
Quem ingressa hoje em uma unidade de terapia intensiva, cercado por monitores de alta precisão e prontuários digitais, dificilmente imagina o cenário de cinco décadas atrás. Naquela época, a enfermagem era uma profissão de resistência e improviso técnico. As agulhas eram de metal e precisavam ser esterilizadas para o reuso; os recipientes de drenagem eram adaptados de frascos de soro e cada linha da evolução de um paciente era escrita à mão, em caligrafias que contavam histórias de dedicação sob luzes muitas vezes precárias.
Essa evolução não foi apenas tecnológica, mas de paradigma. O Brasil transformou sua estrutura assistencial, elevou a complexidade dos atendimentos e, acima de tudo, profissionalizou a gestão do cuidado. O que antes era baseado essencialmente no esforço físico e na intuição empírica, hoje é guiado por protocolos científicos rigorosos e sistemas integrados de segurança do paciente.
No entanto, a modernização trouxe consigo um desafio reflexivo: como garantir que a inovação não automatize a empatia?
Dados recentes do estudo Demografia da Enfermagem e Mercado de Trabalho no Brasil, realizado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Fiocruz, mostram que os postos de trabalho na área cresceram quase 44% entre 2017 e 2022. Esse crescimento não é apenas numérico, ele é um reflexo de uma sociedade que envelhece e que convive cada vez mais com doenças crônicas, exigindo uma presença técnica mais constante e qualificada.
Outro ponto fundamental dessa evolução é o rosto da nossa profissão. Com cerca de 85% da força de trabalho composta por mulheres, a enfermagem é o pilar que sustenta a saúde brasileira. Hoje, deixamos de ser apenas as executoras de ordens médicas para ocupar posições estratégicas na gestão hospitalar, na liderança de equipes multidisciplinares e na tomada de decisão clínica. A enfermeira contemporânea é uma gestora do cuidado, técnica e decisiva.
Ao olhar para os próximos anos, o horizonte aponta para a inteligência artificial e a medicina de precisão. Mas a lição que meio século à beira do leito me ensinou é que nenhuma linha de código substitui o “olho no olho”, o toque humano ou a palavra de conforto ao familiar em um momento de fragilidade.
Neste Dia da Enfermagem, a reflexão que fica é que a tecnologia é o meio, mas o cuidado é — e sempre será — o fim. Celebrar a evolução da enfermagem é reconhecer que, embora as agulhas agora sejam descartáveis e os dados estejam na “nuvem”, a essência da nossa missão permanece no solo, ao lado de quem precisa de nós. O futuro da saúde exige inovação, mas sua sobrevivência depende, invariavelmente, de humanidade.
*Fumico Sonoda é enfermeira do Hcor há quase 50 anos.