Operadoras de saúde focam em PMEs e planos regionais para manter expansão em 2026
15/05/2026
O setor de seguro de saúde aproveita os altos índices de emprego formal e os bons resultados de 2025 para ofertar novos produtos, pensando nas pequenas e médias empresas e no segmento premium. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 2025 fechou com 53,2 milhões de beneficiários de planos de assistência médica (cerca de 87% em planos coletivos, principalmente empresariais), 2% acima de 2024. As operadoras médico-hospitalares tiveram lucro líquido de R$ 23,4 bilhões. 

Em 2025, a sinistralidade, principal indicador do desempenho operacional do setor, foi a menor desde 2020: 81,7%, 2,1 pontos percentuais abaixo do anotado em 2024. De acordo com a agência, essa redução se explica principalmente “pela recomposição das mensalidades, que superou a variação das despesas assistenciais, tendência observada desde 2023”. 
 

A Bradesco Saúde é uma das que vêm apostando em várias frentes, como produtos adaptados aos diversos perfis de clientes, com olhar regional, coparticipação e novas modalidades de reembolso. Tem nas pequenas e médias empresas um foco estratégico. “Nossa carteira de planos SPG [Seguro para Pequenos Grupos] atende a mais de um milhão de pessoas. Em 2025, tivemos um crescimento de 4,7% nessa base, em comparação a 2024”, observa Carlos Marinelli, diretor-presidente da Bradesco Saúde. 

Planos com rede desenhada para as realidades locais foram lançados em São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Em abril, foi a vez do Paraná, e esse tipo de produto chegará em breve a outros mercados. Já Goiás ganhou uma solução de saúde específica para o Estado. Em 2025, a Bradesco Saúde fechou com cerca de 3,9 milhões de beneficiários, alta 3,43% sobre o ano anterior. Cerca de 98% estão em seguros empresariais. 

Outra operadora com ganho de clientes é a SulAmérica Saúde & Odonto: a alta em sua base de beneficiários em 2025 foi de 11,3% sobre o ano anterior, considerando assistência médica e odonto. São cerca de 5,9 milhões, concentrados em planos empresariais, e a expansão seguirá apoiada na ampliação de presença no Rio de Janeiro, Pará, Sergipe e Goiás — e entrada em novos mercados, como o Triângulo Mineiro, no começo de 2026. 
 

Um dos aliados para o crescimento são os produtos regionalizados, com preços de acordo com cada praça, e flexíveis. A flexibilidade na contratação — com escolhas em tipo de acomodação, coparticipação e reembolso — ajuda a atrair pequenas e médias empresas, segmento no qual a SulAmérica cresceu mais de dois dígitos em 2025. 

“As pequenas e médias empresas hoje representam uma das maiores oportunidades de expansão no setor”, diz Raquel Reis, CEO da seguradora. 

Também gigante no setor, a Amil, com 6,1 milhões de clientes — 2,7 milhões em planos odontológicos e 3,5 milhões em planos médicos (dos quais 88% em planos coletivos) —, quer aumentar sua carteira empresarial, ampliando a atuação no interior paulista, em Minas Gerais e nas regiões Sul e Nordeste, além de reforçar seus maiores mercados, Rio e São Paulo. 

Outro foco é ganhar mais espaço no segmento premium. No primeiro bimestre de 2026, a operadora lançou a linha de planos Black. Foram desenhados para atender às demandas alta renda, como tratamento VIP nos principais hospitais, sistema rápido de reembolso, concierge exclusivo, vacinas e odontologia premium, além de coberturas internacionais. “Com essa iniciativa, fortalecemos a nossa posição em um segmento estratégico, no qual estão os tomadores de decisão das empresas”, conta Renato Manso, CEO da Amil. 

Especializada em um público com poucas opções — pessoas acima de 49 anos —, a MedSênior tem motivos para ser otimista. O envelhecimento da população brasileira vem demandando cada vez mais modelos especializados em longevidade. “Projetamos crescimento entre 45% e 50% da carteira em 2026”, diz Maely Coelho Filho, vice-presidente da operadora. 

Para isso, cerca de R$ 181 milhões foram destinados a investimentos neste ano, para projetos já realizados e previstos, de novas instalações de saúde — incluindo hospitais, pronto-socorro e centro de diagnóstico —, em Belo Horizonte, Contagem, Brasília, Vitória, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e Niterói. A ideia é consolidar a atuação da operadora em praças onde já está presente. 

A MedSênior tem 284 mil beneficiários, 80% deles em planos individuais. Desde o segundo semestre de 2025, atua no segmento empresarial, com foco em pequenas e médias empresas, que já são 20% da carteira. 

A verticalização, com aumento da rede própria, é uma das ferramentas para controle de custos. Junto com o fortalecimento dos canais de vendas e do programa de medicina preventiva, além da oferta de produtos regionalizados e segmentados — com opções de planos-entrada até o mais premium —, forma a base do cardápio para a MedSênior buscar suas metas. 

Enquanto as gigantes se esforçam para conquistar mais clientes lançando produtos e espalhando a atuação por outros mercados e faixas de renda, as operadoras pequenas e médias enfrentam dificuldades diante de margens mais estreitas, lembra Gustavo Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). 

Em 2025, essas pequenas e médias operadoras — que atendem cerca de 11,6 milhões de beneficiários, especialmente em cidades do interior — registraram resultado operacional negativo de aproximadamente R$ 200 milhões e cerca de 45% delas fecharam no prejuízo. “Preservar essa capilaridade é importante para ampliar acesso, concorrência e diversidade no sistema”, ressalta o executivo. 

A expectativa do setor para 2026, diz Ribeiro, está diretamente relacionada ao desempenho do mercado formal de trabalho e da atividade econômica. Se ambos continuarem em alta, a tendência é de expansão moderada da base de beneficiários. “A geração de empregos impulsiona os planos empresariais, principal porta de entrada de novos usuários no sistema”, avalia o executivo. 

Para Bruno Sobral, diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), embora o setor tenha chegado a cerca de 53,2 milhões de beneficiários, a proporção da população com acesso à saúde suplementar permanece estagnada. “As despesas crescem muito acima da inflação, e esse é o grande desafio para o fechamento do ano”, diz. 

A entidade, junto com outras do setor, entrou na Justiça e conseguiu, no primeiro trimestre de 2026, a derrubada de uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que determinava auditorias médicas presenciais em detrimento das feitas remotamente. Para a FenaSaúde, a iniciativa do CFM compromete a eficiência do sistema. 

 

A auditoria médica, avalia Sobral, é essencial para garantir o uso racional dos recursos, evitando procedimentos desnecessários e sem evidência científica. “A resolução elimina as auditorias remotas, que se consolidaram com a telemedicina”, observa. Ele também aponta que o CFM está “tentando legislar sobre contratos, algo que cabe à ANS.” 

O CFM diz que continuará tentando reestabelecer a medida, já que a resolução foi editada “diante de crescentes denúncias de negativas de cobertura sem respaldo técnico-científico, associadas à interferência de interesses econômicos nas decisões médicas”. 

Para o CFM, a resolução regulamenta a conduta médica em proteção ao paciente para a garantia de acesso a exames, tratamentos e tecnologias, previstos em protocolos e diretrizes clínicas com vistas a reduzir negativas injustificadas. E diz que a norma não interfere nas atribuições da ANS, uma vez que “se limita a disciplinar a auditoria médica como ato privativo de médico, preservando a relação médico-paciente e a integridade do ato médico, sem prejuízo da regulação setorial”. 

Ana Cândida Sammarco, sócia da área de life sciences e saúde do escritório de advocacia Mattos Filho, observa que há grande probabilidade de que o contencioso entre o setor e o CFM se prolongue por diversas instâncias. Isso porque o tema envolve não só a delimitação de competências (ANS e CFM), como também afeta os milhões de beneficiários de planos de saúde. 

 

Ela aponta que, caso a suspensão da resolução se torne definitiva, os beneficiários de planos podem ser afetados de diversas formas, como receber negativas de cobertura e maior judicialização da saúde. “Para as operadoras, a suspensão dos dispositivos preserva seus mecanismos tradicionais de controle de custos e regulação assistencial”, avalia a advogada. 

Para ela, a auditoria documental e remota, mantida como opção, é significativamente mais ágil e econômica do que a auditoria presencial. “É importante ressaltar que as operadoras argumentam que a auditoria médica robusta, quando bem conduzida, beneficia o próprio paciente ao evitar procedimentos desnecessários e riscos assistenciais”, ressalta Sammarco. 

Apesar das movimentações das operadoras para estimular o crescimento do setor, há quem veja limites. “O aumento contínuo de preços limita a entrada de novos beneficiários e dificulta a expansão”, salienta Leandro Berbert, sócio-líder de saúde da EY. Para ele, o seguro-saúde está muito dependente do emprego formal e dos planos empresariais. 

A inflação médica, lembra Berbert, segue crescendo acima da inflação geral, dificultando o controle de custos. “E, apesar de avanços pontuais, o setor foca no atendimento reativo, com pouco estímulo à prevenção, coordenação do cuidado e uso inteligente da tecnologia”, observa. 

Um ponto relevante para o setor de seguro-saúde, destaca Leonardo Giusti, sócio da KPMG, é o aumento do número de beneficiários acima de 60 anos, o que eleva o uso dos planos e suas despesas assistenciais. Para ele, isso coloca em xeque a sustentabilidade do financiamento da saúde suplementar. Com uma base mais envelhecida, ressalta o consultor, torna-se necessário uma melhor coordenação do cuidado. A tarefa, diz ele, não é fácil, por conta da alta rotatividade de beneficiários — por mudanças de emprego, troca de operadora, reajustes ou redesenho de planos. “Isso reduz significativamente o horizonte de retorno dos investimentos em prevenção, coordenação do cuidado e gestão de crônicos”, salienta Giusti. 





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