Alta complexidade na saúde exige gestão, equipes fortes e viabilidade econômica
20/05/2026

A alta complexidade em saúde não depende apenas de tecnologia, excelência médica ou infraestrutura hospitalar. Para José de Jesus Peixoto Camargo, o J.J. Camargo, referência mundial em transplante pulmonar, ela exige uma combinação difícil de sustentar: financiamento adequado, equipes multidisciplinares, gestão eficiente, dados consistentes e compromisso humano com o paciente.

O tema conduziu o terceiro episódio do Podcast do Portal Saúde Business, gravado durante a Hospitalar 2026. Na conversa, Camargo revisitou sua trajetória na cirurgia torácica, a construção de programas de transplante no Brasil e os principais gargalos que ainda limitam o avanço da alta complexidade no país.
 

Membro titular da Academia Nacional de Medicina, escritor e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre, Camargo liderou o primeiro transplante pulmonar da América do Sul e participou da consolidação de uma das maiores experiências mundiais na área. Durante a Hospitalar, o médico também foi reconhecido como Personalidade do Ano em um evento especial realizado na noite de 19 de maio.

Transplante como motor de qualificação hospitalar

Ao falar sobre a construção de centros de excelência, Camargo defendeu que o transplante deve ser entendido como um qualificador da instituição. Segundo ele, preparar um hospital para realizar transplantes significa elevar a qualidade de áreas que beneficiam todos os pacientes, mesmo aqueles que nunca passarão por esse tipo de procedimento.

“Se você qualificar um hospital a ponto de ele se tornar apto a fazer transplante, mesmo que não faça nenhum, você fez um grande investimento. Porque as coisas indispensáveis para o transplante não são exclusivas do transplante”, afirmou.

Na avaliação do médico, a alta complexidade só se sustenta quando há resultados, apoio da sociedade, participação de lideranças e capacidade de enfrentar perdas, falhas e desânimos inevitáveis em procedimentos de maior risco.
 

Custo e financiamento seguem como entraves

Um dos pontos mais críticos da entrevista foi o financiamento. Camargo alertou que a incorporação tecnológica encareceu os transplantes, enquanto muitos hospitais enfrentam dificuldade para manter procedimentos de alta complexidade diante da diferença entre o custo real e a remuneração recebida.

Ele citou o ECMO, equipamento usado para manter o paciente vivo quando o órgão não está funcionando adequadamente, como exemplo dessa pressão financeira. Segundo Camargo, o custo de alguns componentes pode representar uma fração relevante do valor pago por um transplante inteiro pelo SUS.

Para o cirurgião, a decisão de incorporar novas tecnologias precisa considerar a viabilidade econômica. Sem escala, dados e capacidade de replicação, a inovação corre o risco de se transformar em uma experiência isolada.

“Banco de dados é fundamental. Senão você pode envelhecer fazendo a mesma coisa sem ter experiência”, disse.

Equipes multidisciplinares e humanização

Além da estrutura, Camargo destacou o papel das equipes. Para ele, programas de transplante não sobrevivem quando dependem de protagonismos individuais. A alta complexidade exige integração entre médicos, enfermagem, laboratório, assistência social, anestesia e diferentes áreas de apoio.

“Se você quer ser a estrela do espetáculo o tempo todo, você vai trabalhar sozinho. E aí vai naufragar, porque esse trabalho é multidisciplinar ou inexistivo”, afirmou.

Na conversa, ele também defendeu uma formação médica que una técnica e humanismo. Para Camargo, o profissional da saúde precisa enxergar o paciente para além da doença, mantendo escuta, sensibilidade e capacidade de lidar com o sofrimento humano.

“Ninguém prospera fazendo só técnica. Por melhor que seja, ele terá perdido o lado mais encantador da medicina, que é a proximidade do paciente, o encontro, a gratidão”, disse.
 

Doação, logística e gestão do cuidado

Ao discutir os desafios do transplante no Brasil, Camargo também citou a necessidade de estimular a doação de órgãos, qualificar UTIs e melhorar a gestão do potencial doador. Segundo ele, falhas de processo, logística e cuidado intensivo ainda levam à perda de órgãos que poderiam ser aproveitados.

Para o médico, ampliar o acesso aos transplantes passa por uma cadeia complexa, que envolve desde a identificação da morte encefálica até o transporte, a preservação dos órgãos e a organização das equipes.





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