A transformação digital ganhou espaço definitivo na agenda da saúde. Inteligência artificial, interoperabilidade, telemedicina, medicina de precisão e análise de dados já fazem parte das estratégias do setor. Mas, no caso da saúde pública, o avanço tecnológico traz uma pergunta central: quem, de fato, consegue acessar esses recursos?
Esse foi o eixo da conversa com Cristina Balestrin, assessora de gabinete da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, em entrevista para o Podcast Hospitalar: Estúdio Saúde Business, gravado diretamente da Hospitalar 2026. Ela destacou que inovação não pode ser entendida apenas como incorporação tecnológica, especialmente quando se fala em SUS.
Na avaliação da especialista, inovar em saúde pública exige redesenho de processos, inclusão e atenção às desigualdades regionais e populacionais. Caso contrário, a tecnologia pode apenas digitalizar problemas já existentes, ampliando a fragmentação do cuidado e tornando ainda menos visíveis grupos que já enfrentam barreiras de acesso.
Segundo Cristina, o Brasil vive diferentes estágios de incorporação da inovação em saúde. Mesmo em estados com maior estrutura econômica, como São Paulo, há disparidades relevantes entre regiões e instituições. Por isso, políticas públicas de saúde digital precisam considerar infraestrutura, conectividade, sistemas legados e capacitação profissional, além das diferenças entre territórios e perfis populacionais.
No caso paulista, ela citou a realização de um diagnóstico situacional de maturidade em saúde digital, que analisou regiões de saúde e instituições prestadoras de serviços ao SUS. A partir desse mapeamento, a secretaria passou a estruturar iniciativas voltadas à integração de dados, melhoria da tomada de decisão e ampliação da transparência.
Entre elas está o Núcleo de Informações Estratégicas em Saúde, que reúne painéis com dados sobre instituições, leitos, vigilância sanitária, cobertura vacinal e programas de inovação em saúde digital. A iniciativa busca apoiar decisões públicas e, ao mesmo tempo, informar a população sobre as ações em andamento.
Outro ponto abordado foi a interoperabilidade, ainda vista como um dos principais entraves para uma troca mais eficiente de informações entre os setores público e privado. Para Cristina, além dos desafios técnicos, existe uma barreira cultural relacionada à confiança no compartilhamento de dados. A construção desse ambiente, segundo ela, depende de segurança, governança e clareza sobre o uso das informações.
A inteligência artificial também apareceu na conversa, mas com cautela. Na visão da entrevistada, o setor público está em processo de preparação para incorporar essas ferramentas de forma mais estruturada. Antes de avançar em tecnologias disruptivas, é necessário lidar com questões básicas, como infraestrutura, conectividade, sistemas e treinamento.
Ainda assim, Cristina reconhece que já existem aplicações em áreas como diagnóstico por imagem, além de iniciativas colaborativas com outros órgãos públicos. O ponto central, segundo ela, é avaliar a incorporação tecnológica com governança, segurança da informação e atenção ao risco de ampliar vieses ou desigualdades.
Um dos exemplos citados no episódio envolve o uso de saúde digital para populações privadas de liberdade, incluindo prontuário eletrônico, atenção especializada e telediagnóstico em unidades prisionais. De acordo com Cristina, a iniciativa contribuiu para ampliar o cuidado, reduzir deslocamentos sob escolta e gerar impacto financeiro relevante para o sistema.
Também foram mencionados projetos de teleUTI, teleAVC, teleconsultoria e atenção digital domiciliar, especialmente voltados a públicos que podem ser excluídos pela baixa literacia digital, como os idosos. Para a entrevistada, testar, validar e escalar soluções de forma responsável é essencial para evitar que a inovação reforce vulnerabilidades já existentes.