O setor de saúde suplementar no Brasil parece ter aceitado um caminho perigoso: o de que os custos devem subir sempre mais enquanto a percepção de cuidado só diminui. Todos os anos, empresas e indivíduos lidam com reajustes que sufocam o orçamento, sob a justificativa da inflação médica e pela sinistralidade incontrolada. Mas a verdade é que estamos pagando caro não apenas pela tecnologia que está sendo investida ou pelos insumos da saúde, mas sim por uma desorganização estrutural que está muito próximo ao limite do que é insustentável e inviável. E quando tratamos de doenças crônicas, encontramos uma lógica de sistema que é, de longe, ineficiente.
O grande erro do nosso sistema é o foco exclusivo na reação. Fomos condicionados a acreditar que ter um bom plano de saúde é ter um guia com milhares de nomes e a liberdade de bater na porta de qualquer pronto-socorro ao menor sinal de dor. O resultado desse “acesso livre” é uma saúde fragmentada. O paciente está solto em um mar de especialistas que não se conversam, repetindo exames desnecessários e, pior, deixando doenças silenciosas evoluírem por falta de uma visão clara do todo.
A hipertensão é o exemplo perfeito dessa falha. Ela não dói, não avisa e atinge quase um terço dos adultos brasileiros. Embora o país some mais de 30 milhões de pessoas com a doença, a taxa de controle adequado é alarmante: menos de 35% dos hipertensos conseguem manter a pressão arterial em níveis seguros. No modelo atual de atendimento, esse paciente geralmente só aparece para o sistema quando já sofreu um problema grave, como um infarto ou um AVC.
E aqui a conta se torna cruel. Em 2025 os custos hospitalares ultrapassaram R$ 2,5 bilhões nas internações por infarto no Brasil, segundo a Revista de Enfermagem UFPE. É um valor muito alto que consome o orçamento das empresas e operadoras para apagar um incêndio que poderia ter sido evitado. E essa conta não fica restrita ao sistema, ela também chega aos pacientes, seja por meio de reajustes, seja em uma experiência fragmentada, descoordenada e sem a segurança necessária para indicar o melhor caminho de cuidado.
Neste mês, além da conscientização à hipertensão, também celebramos datas dedicadas à enfermagem e ao médico de família. Para muitos, são apenas homenagens anuais sem tanta importância. Mas para quem pensa a saúde de forma estratégica, essas figuras representam uma das únicas saídas para a crise financeira do setor e para um cuidado de mais qualidade e mais eficiente. A conta da saúde só volta a fechar quando entendemos que o controle de uma doença crônica depende de vínculo, não de burocracia.
Quando um médico pessoal e uma equipe de enfermagem trabalham em conjunto, o paciente deixa de ser um número e passa a ter um rosto. O enfermeiro monitora o dia a dia e garante que o tratamento seja seguido, enquanto o médico ajusta a rota antes que a pressão suba. Essa coordenação é o que permite romper a barreira do controle irracional. Se, de acordo com o Registro LHAR, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, a média nacional de sucesso no tratamento da pressão mal chega aos 30% que estão controlados, modelos focados no cuidado próximo mostram que é possível dobrar ou triplicar essa eficiência.
Controlar a saúde de quem já é doente não é apenas uma questão médica, é uma questão de sobrevivência para o mercado. O cálculo é simples: o desperdício é o que alimenta a inflação médica. Mas não é somente sobre aspectos financeiros. O custo da saúde também é a qualidade de vida de cada paciente e a satisfação com o cuidado que recebe. Então, a soma desses dois fatores não deixa dúvidas: a coordenação das áreas médicas é a melhor e mais eficiente saída para todos os envolvidos.
Precisamos parar de medir a qualidade de um plano de saúde pelo tamanho do seu catálogo de médicos e começar a medi-la pela capacidade de manter as pessoas fora do hospital. A prevenção não é um conceito romântico, mas sim a prova matemática de que o cuidado de perto é o único modelo de negócio que ainda faz sentido. O futuro da saúde não está no próximo exame caro, mas na inteligência da união dos profissionais que sabem para onde o paciente deve ir para ter o melhor para ele.
*Rebeca Schvartzburd é Gerente de Operações Clínicas na Sami Saúde.