EMS abre a corrida de canetas emagrecedoras nacionais
27/05/2026

A EMS obteve ontem registro da primeira semaglutida sintética análoga ao Ozempic aprovada no Brasil e projeta um faturamento superior a R$ 500 milhões em seu primeiro ano de comercialização. 

O movimento da farmacêutica abre oficialmente uma corrida regulatória em que outras 17 empresas já aguardam autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para disputar um mercado de agonistas de GLP-1 que movimentou cerca de R$ 6,4 bilhões em 2025 - o mercado de canetas emagrecedoras deve chegar a R$ 17 bilhões neste ano, segundo relatório do UBS BB com dados do Sindusfarma (que reúne as indústrias). 

Batizado de Ozivy, o medicamento da EMS marca o fim da exclusividade da Novo Nordisk no país, cuja patente expirou em março. A expectativa da companhia é que o fármaco se torne seu principal produto em faturamento em menos de 12 meses, representando entre 4% e 5% da receita total do grupo. 

 

Apesar do otimismo da fabricante, o setor demonstra cautela quanto ao ritmo de crescimento da demanda total. Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, pondera que a chegada de um novo concorrente não deve gerar, por si só, um choque imediato de consumo. “Não acho que vai haver uma explosão de consumo por causa da entrada de mais uma semaglutida registrada no país”, afirmou. 

Na avaliação do executivo, o principal efeito da ampliação da oferta por fabricantes nacionais tende a ser a formalização do mercado. Segundo Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, o comércio ilegal e informal de semaglutida no Brasil - incluindo contrabando e manipulação em escala industrial - movimenta atualmente um volume cerca de cinco vezes superior, em unidades, ao do mercado farmacêutico oficial. 

A estratégia comercial da EMS para capturar essa demanda reprimida baseia-se em um preço de tabela cerca de 30% menor que o do Ozempic e em uma agressiva recomposição de margens para o varejo. Atualmente, as grandes redes operam com margens apertadas, de aproximadamente 15% nos biológicos importados, mas a EMS sinalizou que pretende entregar entre 30% e 40% de margem para as farmácias com o Ozivy. 

O executivo afirmou que a empresa deixará mais lucro nas prateleiras que a multinacional dinamarquesa para garantir a preferência dos canais de venda. Analistas do Santander avaliam que essa dinâmica deve ser “atrativa do ponto de vista da lucratividade de caixa” para redes como RD Saúde e Pague Menos. 

A comparação com mercados onde a exclusividade da semaglutida já expirou serve de bússola para os analistas. Na Índia, a existência de mais de 40 fabricantes locais pulverizou o preço do medicamento de forma agressiva logo após a queda da patente. 

Contudo, o produto nacional enfrenta um obstáculo logístico competitivo que pode pesar na conveniência para o paciente e para o lojista. Ao contrário do Ozempic, que pode ser mantido fora da geladeira por até seis semanas após o início do uso, o Ozivy exige refrigeração constante (entre 2ºC e 8ºC) durante todo o período de tratamento. 

 

 

Essa exigência técnica é tratada como um desafio adicional para a cadeia de frio do varejo e para o transporte pelo consumidor. Sanchez justifica o rigor como parte da “régua elevada” da Anvisa, que já resultou no indeferimento sumário de processos de concorrentes por insuficiência técnica. 

A escala da oportunidade brasileira, porém, sugere que o teto do mercado ainda está longe de ser atingido. Vinicius Strano, diretor executivo e analista-chefe de research do UBS BB, destaca que as vendas formais de GLP-1 no Brasil atendem atualmente a pouco menos de 1% da população adulta, o que demonstra um vasto espaço para expansão. 

A projeção da UBS BB é que esse mercado atinja R$ 21 bilhões em faturamento até 2027, impulsionado pela liberação da oferta e pela entrada dos similares nacionais. Strano acredita que o preço do tratamento possa cair até dois terços no longo prazo conforme a competição se intensifique. 

A concorrência no pipeline da Anvisa é densa. Atualmente, existem cinco medicamentos sintéticos e um biológico de semaglutida sob revisão técnica da agência. Grupos como Hypera Pharma e Biomm já anunciaram prontidão para entrar no segmento. 

Hypera projeta o fármaco como seu principal vetor de crescimento para 2026, com expectativa de lançamento entre 60 a 90 dias após o registro. Já a Biomm firmou parceria com a indiana Biocon para distribuir sua versão assim que obtiver o aval regulatório. Outros laboratórios, como Eurofarma, União Química, Cristália e Aché, também mantêm pedidos em análise ou manifestaram interesse. 

Para sustentar sua liderança tecnológica, a EMS também acelera a estratégia de expansão internacional. A farmacêutica protocolou junto ao U.S. Food and Drug Administration (FDA) um pedido para a tirzepatida por meio da estratégia de “First to File”, que busca garantir prioridade de mercado antes da expiração das patentes nos Estados Unidos. No Brasil, a companhia investiu R$ 1 bilhão nos últimos dois anos na ampliação de sua fábrica em Hortolândia (SP) e já prepara um novo ciclo de aportes previsto para 2027 e 2028. 
 

No setor público, a viabilidade da semaglutida ainda depende de programas estruturados. Mussolini defende que o medicamento não opera “milagres” isoladamente e que sua eventual inclusão no SUS deveria vir acompanhada de políticas de reeducação alimentar e exercícios. 

A EMS confirmou conversas com o Ministério da Saúde para possíveis Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) focadas em grupos prioritários, como a fila de pacientes para cirurgias bariátricas. A intenção é oferecer uma alternativa financeiramente sustentável ao Estado diante de um impacto orçamentário para o tratamento da obesidade que já foi avaliado em R$ 8 bilhões anuais. 

A comercialização efetiva do Ozivy depende agora da definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), protocolo que a empresa realizou ontem. A previsão é que o produto chegue às prateleiras em aproximadamente 30 dias após essa definição regulatória. 

 

 





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