USP em Ribeirão Preto constrói rede para transformar pesquisa em soluções para a sociedade
29/05/2026

Da pesquisa aplicada em saúde às iniciativas de empreendedorismo, tecnologia e inovação social, a USP de Ribeirão Preto consolidou nos últimos anos uma rede que conecta laboratórios, pesquisadores, estudantes, hospital, startups e empresas para transformar conhecimento científico em soluções capazes de chegar à sociedade.

O movimento não está concentrado em uma única estrutura. Ele se espalha por diferentes iniciativas do campus que, embora independentes entre si, passaram a atuar de forma cada vez mais complementar.

Atualmente, essa rede envolve a Agência USP de Inovação e o Inova USP, vinculados à Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, o Supera Parque de Inovação e Tecnologia, a Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) da Faculdade de Medicina (FMRP), o Núcleo de Inovação do Hospital das Clínicas (HC) da FMRP e o Hemocentro, com o Núcleo de Terapia Avançada (Nutera RP) e o Núcleo de Terapia Celular (NuTeC), estruturas voltadas a terapias avançadas e inovação em saúde.

O ecossistema também reúne iniciativas de formação empreendedora, como o coworking Teias Empreendedorismo e Inovação, o Núcleo de Empreendedores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP), além de dezenas de disciplinas, programas e projetos distribuídos pelas unidades do campus.

O sistema não funciona em lógica hierárquica. Cada estrutura ocupa uma etapa diferente da jornada da inovação: algumas trabalham formação e cultura empreendedora; outras atuam na maturação tecnológica; algumas aproximam pesquisadores e empresas; outras oferecem infraestrutura para incubação, validação clínica ou aplicação em saúde.

Em comum, todas tentam enfrentar um desafio histórico das universidades: fazer com que o conhecimento produzido nos laboratórios consiga ultrapassar os limites acadêmicos e circular para além da publicação científica. “Hoje a inovação é entendida pela USP como uma dimensão estratégica da universidade”, afirma o pró-reitor adjunto de Pesquisa e Inovação da USP, Norberto Peporine Lopes. “Não apenas como proteção de patentes, mas porque ela conecta pesquisa, formação de pessoas, empreendedorismo e transformação social.”

A discussão ganhou força especialmente porque universidades passaram a enfrentar pressão crescente para transformar descobertas científicas em produtos, serviços, startups, terapias, tecnologias ou políticas públicas. “Muitas vezes a universidade produz uma excelente descoberta científica, mas transformar isso em produto exige amadurecimento tecnológico, testes, validação regulatória, infraestrutura e conexão com empresas”, afirma Lopes. O pró-reitor lembra que esse não é um gargalo exclusivo da USP: “É um desafio de qualquer ambiente inovador no mundo.”
 

Esse intervalo entre a descoberta científica e a aplicação prática é conhecido internacionalmente como “vale da morte” da inovação, etapa em que tecnologias ainda são consideradas arriscadas demais para o mercado, mas já exigem investimentos, validação e estrutura para continuar avançando.

Em Ribeirão Preto, o ecossistema começou a se consolidar justamente para reduzir essa distância entre universidade e sociedade. Ao longo dos últimos anos, diferentes estruturas passaram a operar de forma complementar, criando uma espécie de percurso contínuo para pesquisadores interessados em transformar conhecimento em inovação.

Agência USP de Inovação: proteção, transferência e articulação

No campus, a Agência USP de Inovação atua como articuladora junto aos habits de inovação como Supera Parque e incubadoras e funciona como uma das principais portas institucionais para pesquisadores interessados em proteger tecnologias, estruturar parcerias ou aproximar pesquisas do setor produtivo. O Polo Ribeirão Preto/Bauru atua diretamente em temas ligados à propriedade intelectual, transferência de tecnologia e empreendedorismo acadêmico.

Segundo dados da Agência USP de Inovação, o polo Ribeirão Preto/Bauru concentra atualmente 537 ativos de propriedade intelectual (entre patentes, softwares, marcas, modelos de utilidade, desenhos industriais e certificados de adição), volume que representa cerca de 20% de todo o portfólio de propriedade intelectual da USP. Apenas Ribeirão Preto reúne 390 patentes, 45 registros de software e 21 modelos de utilidade. Em Bauru, o destaque está principalmente nas áreas de marcas e patentes.

Na área de transferência tecnológica, o polo também responde por cerca de 1/3 dos licenciamentos realizados pela Universidade: são 29 acordos firmados, de um total de 104 existentes em toda a USP. Desses, oito permanecem atualmente ativos.

Na prática, a atuação envolve desde depósitos de patentes e registro de software até acordos colaborativos com empresas, licenciamentos e orientação para criação de spin-offs acadêmicos. “A inovação conecta pesquisa, formação de pessoas e transformação social”, afirma Flávia Prado, coordenadora da Agência USP de Inovação em Ribeirão Preto e Bauru.

Segundo Flávia, o papel da agência é justamente ajudar a criar caminhos para que esse conhecimento consiga circular para além da Universidade. Ela destaca ainda que a agência atua como estrutura de apoio para pesquisadores que muitas vezes têm produção científica robusta, mas pouca familiaridade com processos ligados à inovação, transferência tecnológica e propriedade intelectual.

Inova USP: o espaço entre a tese e a startup

É justamente nesse intervalo entre laboratório e mercado que o Inova USP Ribeirão Preto pretende atuar. “O Inova entra entre o final de um trabalho de graduação ou pós-graduação e antes da incubação em um parque tecnológico”, explica o coordenador Antônio José da Costa Filho. “Existe uma produção muito grande de trabalhos científicos com potencial de gerar inovação, mas que acabam não alcançando essa etapa porque não tiveram apoio nesse período intermediário.”
 

A proposta é funcionar como um ambiente de pré-incubação para projetos ainda imaturos do ponto de vista tecnológico e empresarial. Segundo Costa, o campus já possuía grupos de pesquisa fortemente ligados à inovação, mas faltava uma estrutura que articulasse essas iniciativas e reduzisse a distância entre ciência e aplicação prática. “O Inova completa uma trilha de inovação que começa nos laboratórios e pode culminar na incubação dentro do Supera Parque”, afirma.

O novo prédio do Inova, inaugurado recentemente, deve desempenhar papel central nessa estratégia. A estrutura abrigará laboratórios multiusuários, espaços de coworking laboratorial e ambientes voltados ao desenvolvimento conjunto de projetos. Costa afirma que o espaço pretende funcionar como um “farol” para pesquisadores interessados em empreendedorismo científico e tecnológico. “O objetivo é que pesquisadores, que antes trabalhavam separados, possam agora desenvolver projetos juntos e dentro do mesmo espaço”, afirma.

Segundo ele, Ribeirão Preto desenvolveu uma vocação própria dentro da USP, especialmente ligada à saúde, biotecnologia, terapias avançadas, equipamentos médicos, softwares e ferramentas diagnósticas. “Existe um DNA muito forte do campus voltado à saúde e à inovação aplicada”, diz.

Uma das principais apostas do Inova é o Nidus, primeira residência universitária em inovação do País. O programa terá duração de dois anos e será baseado no desenvolvimento de projetos reais. “Diferente de um curso tradicional de empreendedorismo, o Nidus não se limita à transmissão de conteúdo”, explica o vice-coordenador do Inova USP Ribeirão, Alexandre Dias. “Os participantes são desafiados a transformar ideias em soluções viáveis, com mentorias, validação de mercado e acompanhamento contínuo.”

Supera Parque: onde a inovação ganha escala

Se o Inova atua no amadurecimento inicial dos projetos, o Supera Parque de Inovação e Tecnologia aparece como a principal infraestrutura de incubação e conexão com o mercado. “Quando se pensa em tecnologias para saúde, o Supera aparece como destino natural das inovações surgidas dentro da USP”, afirma Dalton Siqueira Pitta Marques, gerente de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico do parque.
 

A saúde é hoje a principal vocação do parque, embora empresas de outras áreas também integrem o ambiente. Segundo Dalton, o Supera atua justamente no amadurecimento tecnológico e aproximação das soluções produzidas pela universidade das demandas reais do mercado. “A conexão com a Universidade funciona, mas entre os laboratórios e a aplicação prática existe um percurso que envolve validação tecnológica, adaptação e amadurecimento”, explica.

Hoje, a USP é a principal fornecedora de empreendedores do Supera. Das empresas residentes, 14 nasceram diretamente de pesquisas realizadas dentro da Universidade, enquanto 55 foram criadas por ex-alunos da USP.

A taxa de sobrevivência das startups incubadas também chama atenção: segundo o parque, 85% das empresas apoiadas conseguem chegar ao mercado. A demanda crescente já pressiona a infraestrutura disponível. Todas as salas dos prédios e do Container Park estão ocupadas, enquanto empresas já iniciaram a implantação de plantas próprias no loteamento tecnológico. “A expansão é tanto necessidade quanto estratégia”, afirma Dalton.

Hospital das Clínicas: inovação dentro da assistência

A área hospitalar passou a ocupar papel estratégico dentro do ecossistema local de inovação, especialmente após a reestruturação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) do Hospital das Clínicas da FMRP. Criado em 2017 após o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, o núcleo passou a atuar na gestão de propriedade intelectual, transferência tecnológica, prospecção de parcerias e apoio a projetos inovadores surgidos dentro do hospital. “O HC precisava criar um fluxo para que médicos, enfermeiros, equipes de informática e pesquisadores pudessem transformar iniciativas em projetos estruturados”, explica Edwin Tamashiro, coordenador do NIT do HCFMRP.

Segundo ele, o núcleo surgiu por exigência legal, mas também por uma necessidade prática ligada à própria dinâmica hospitalar. “As iniciativas precisavam seguir um fluxo operacional para com um caminho adequado”, afirma.

A proposta é justamente transformar demandas surgidas da assistência hospitalar em projetos tecnológicos. Segundo Tamashiro, muitas soluções já existiam informalmente dentro do hospital, mas sem estrutura institucional para proteção, validação ou continuidade. “O hospital é um ambiente extremamente rico em problemas reais”, afirma. Muitas vezes, diz o coordenador, as demandas surgem da própria assistência, do cotidiano das equipes e da necessidade de resolver gargalos internos.

Segundo ele, o HC possui uma característica singular dentro do ecossistema justamente por reunir assistência, ensino e pesquisa no mesmo ambiente. “Temos pesquisadores, profissionais de saúde, residentes, alunos e pacientes convivendo diariamente no mesmo espaço. Isso cria condições muito favoráveis para o desenvolvimento de soluções aplicadas”, diz.

Além da orientação técnica, o núcleo passou a atuar também na identificação de oportunidades ligadas à saúde digital, softwares, inteligência artificial, dispositivos médicos, fluxos assistenciais e gestão hospitalar. Segundo Tamashiro, inovação hospitalar não envolve apenas tecnologias sofisticadas, mas também reorganização de processos e soluções desenvolvidas internamente pelas próprias equipes. “Grande parte das pessoas ainda desconhece as questões de inovação. Então temos trabalhado muito na disseminação dessa cultura”, afirma.

Para o coordenador, a parte importante do trabalho atual envolve justamente sensibilizar profissionais que já desenvolvem soluções internamente, mas muitas vezes não percebem isso como inovação. “Muitas iniciativas acabam surgindo espontaneamente dentro do hospital. O nosso papel é ajudar essas ideias a encontrarem um caminho estruturado”, explica.

Desde a reestruturação do núcleo, mais de 30 projetos passaram a ser acompanhados pela equipe, incluindo buscas de anterioridade, orientação sobre propriedade intelectual, apoio regulatório e prospecção de parcerias.

Em parceria com o Supera Parque de Inovação e Tecnologia e a Agência USP de Inovação, o HC também lançou recentemente seu Hub de Inovação, com seis eixos prioritários: saúde digital, inteligência artificial, gestão hospitalar, medicina personalizada, biomateriais e dispositivos médicos.

Segundo Tamashiro, uma das preocupações atuais é justamente evitar sobreposição burocrática entre estruturas e facilitar o acesso dos pesquisadores e profissionais às diferentes etapas da inovação. “Temos trabalhado próximos da Agência USP de Inovação para facilitar a vida dos pesquisadores e criar fluxos únicos”, afirma.

Para ele, o desafio atual já não é apenas criar novas iniciativas, mas consolidar uma cultura institucional de inovação dentro do ambiente hospitalar. Para o coordenador, a inovação hospitalar depende muito de conexão e o HC começa agora a estruturar um modelo em que inovação deixe de ser percebida apenas como pesquisa acadêmica e passa também a integrar a rotina assistencial e administrativa do hospital. “A inovação precisa fazer parte do dia a dia da assistência, da gestão e do cuidado com o paciente”, conclui.

Hemocentro: da pesquisa à produção clínica

Poucas estruturas representam tão claramente a tentativa de transformar ciência em aplicação prática quanto o ecossistema de terapias avançadas criado no Hemocentro de Ribeirão Preto. Nos últimos anos, o campus estruturou uma cadeia praticamente completa para terapias celulares: pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico, validação clínica, escalonamento produtivo e produção em ambiente GMP (sigla do inglês Good Manufacturing Practices), que na prática significa um ambiente altamente controlado, criado para produzir medicamentos, terapias celulares, vacinas ou produtos biológicos com segurança e padrão rigoroso de qualidade.
 

O principal símbolo desse processo é o Nutera RP, unidade fabril inaugurada em 2024 dentro do campus da USP por meio de parceria entre Hemocentro, USP e Instituto Butantan. “O Nutera fecha o ciclo produtivo das terapias celulares”, afirma Diego Villa Clé, coordenador do núcleo. “O que faltava era a produção em grau clínico voltada à aplicação prática.”

A estrutura possui 16 salas de produção e é hoje uma das poucas da América Latina capazes de produzir terapias celulares em escala clínica. Hoje, o Hemocentro conduz estudos clínicos com pacientes portadores de leucemias e linfomas utilizando um CAR-T desenvolvido integralmente dentro do próprio ecossistema da USP Ribeirão Preto. “O grande objetivo final é disponibilizar esse tratamento para a população pelo SUS”, afirma Diego.

Segundo ele, o desafio atual não é apenas científico. “Essas terapias exigem infraestrutura cara, logística complexa, equipes treinadas e centros preparados para lidar com tecnologias avançadas”, explica.

Além da produção clínica, o Hemocentro também estruturou o NuTeC, iniciativa voltada ao desenvolvimento, escalonamento e redução de custos dessas terapias. “O Brasil está deixando de ser apenas consumidor para também participar da inovação em terapias avançadas”, afirma Virginia Picanço e Castro, coordenadora do NuTeC. “Hoje já temos infraestrutura, conhecimento técnico e profissionais capacitados para desenvolver terapias celulares no País.”

Segundo ela, a parceria com o Instituto Butantan foi fundamental para aproximar a pesquisa da aplicação clínica. “O Butantan ajudou na construção da planta GMP, no sistema de qualidade e trouxe experiência da indústria farmacêutica”, afirma.

Hoje, a capacidade produtiva do NuTeC já é considerada compatível com aplicação clínica. Para Diego, o conjunto formado por Hemocentro, NuTeC e Nutera acabou se tornando um dos exemplos mais concretos da lógica de ecossistema construída em Ribeirão Preto. “Agora nós conseguimos absorver grande parte da demanda nacional por terapias CAR-T e também ofertar serviços para startups e instituições que não possuem estrutura própria”, afirma.

Embrapii: a aproximação direta com empresas

Outra estrutura que passou a integrar o ecossistema de inovação do campus é a Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) da FMRP, criada em 2022 e coordenada pelo professor Fernando de Queiroz Cunha.
 

A Embrapii é uma organização social ligada ao governo federal voltada ao financiamento de projetos de inovação desenvolvidos em parceria com empresas. Em vez de criar centros próprios de pesquisa, o modelo credencia grupos já consolidados dentro de universidades e institutos de pesquisa, que passam a atuar como “Unidades Embrapii” em áreas estratégicas. “No fundo, a Embrapii surgiu para aproximar a universidade do setor produtivo sem desmontar a estrutura acadêmica que já existe”, afirma Fernando Cunha. “Em vez de criar novos institutos, ela utiliza laboratórios e pesquisadores que já produzem ciência de excelência.”

Segundo ele, o modelo foi inspirado parcialmente na lógica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mas voltado à inovação industrial e tecnológica. “O Estado continua atuando como agente de desenvolvimento tecnológico, mas sem precisar construir novos centros ou contratar novos pesquisadores”, diz.

No caso da FMRP, a unidade foi credenciada pela experiência acumulada em descoberta e desenvolvimento de fármacos, biofármacos e conhecimento das doenças inflamatórias, articulando pesquisadores da medicina, farmácia, Hemocentro, Fiocruz e Hospital das Clínicas. “A unidade não pertence apenas à Faculdade de Medicina. Ela atende todo o campus de Ribeirão Preto”, afirma Fernando Cunha.

Atualmente, a estrutura mantém oito projetos ativos em parceria com empresas, startups e instituições do setor produtivo, movimentando cerca de R$ 25 milhões em investimentos. Entre os projetos em andamento estão o desenvolvimento de novos analgésicos, terapias para psoríase e doenças intestinais, vacinas e novas tecnologias de terapia celular voltadas ao tratamento de câncer.

Um dos projetos mais avançados da unidade envolve o desenvolvimento de um anticorpo monoclonal para tratamento de esclerose múltipla em parceria com Bio-Manguinhos/Fiocruz. O objetivo é desenvolver uma alternativa nacional a medicamentos hoje importados e de alto custo para o Sistema Único de Saúde (SUS). “Se tudo correr como esperamos, poderemos ter um medicamento 100% desenvolvido no Brasil para pacientes com esclerose múltipla”, afirma.

Além do impacto clínico, diz o professor, o projeto também pode reduzir significativamente os custos do tratamento. “Hoje o SUS gasta milhões com medicamentos importados. A expectativa é que uma formulação nacional consiga reduzir esse custo de forma importante.”

Fernando Cunha destaca que o modelo da Embrapii funciona justamente para reduzir o risco financeiro das empresas interessadas em investir em inovação. A empresa entra com parte do recurso, a Embrapii entra com outra parte e a Universidade contribui com infraestrutura, equipamentos, pesquisadores e conhecimento científico.

Na avaliação do pesquisador, isso permite acelerar projetos que dificilmente avançariam apenas com investimento privado. “Muitas vezes a startup ou a empresa já identificou uma tecnologia promissora, mas o custo para transformar aquilo em produto ainda é muito alto”, afirma. “A Embrapii funciona como um agente acelerador dessa interação.”

Hoje, a unidade também passou a priorizar projetos ligados a startups surgidas dentro do próprio ambiente universitário. “As startups muitas vezes nascem de uma tese ou de um resultado científico produzido aqui dentro”, diz. “O aluno percebe que aquilo pode virar produto e começa a trilhar um caminho empreendedor.”

Segundo Fernando Cunha, a conexão com o restante do ecossistema de inovação do campus ocorre justamente nesse processo. “O pesquisador pode começar no Inova USP, amadurecer a tecnologia, encontrar mentoria e depois chegar à Embrapii para desenvolver o projeto em parceria com empresas”, afirma.

Para Fernando Cunha, o diferencial de Ribeirão Preto está justamente na capacidade de integrar pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico, pesquisa clínica e assistência hospitalar dentro do mesmo ambiente universitário. “Aqui nós temos a Faculdade de Medicina, de Farmácia, hospital, Hemocentro, com grupos de pesquisa clínica e de pesquisa básica, trabalhando todos praticamente no mesmo ambiente”, afirma. “O arranjo de Ribeirão Preto é ímpar para o desenvolvimento de medicamentos”.

Segundo Cunha, essa integração permite que projetos avancem desde a pesquisa básica até os ensaios clínicos dentro do próprio campus. “Você consegue sair do mecanismo da doença, desenvolver a molécula, testar experimentalmente e chegar ao hospital para fazer pesquisa clínica”, explica.

A unidade também se apoia na experiência acumulada pelo Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (Crid), um dos principais polos brasileiros de pesquisa translacional na área biomédica. “A nossa unidade nasceu muito da experiência científica construída dentro do Crid”, afirma Fernando Cunha.

Segundo o coordenador, o desafio atual já não é apenas produzir ciência de excelência, mas criar mecanismos para transformar conhecimento científico em desenvolvimento tecnológico. “Durante muito tempo, o papel da universidade era produzir conhecimento e publicar artigos”, diz. “Hoje isso continua fundamental, mas também precisamos criar caminhos para que esse conhecimento chegue à sociedade.”

Fernando Cunha cita como exemplo histórico o trabalho do professor Sérgio Ferreira no desenvolvimento dos estudos que deram origem aos inibidores da enzima conversora de angiotensina, base do captopril, medicamento utilizado mundialmente no tratamento da hipertensão. “Naquela época, o cientista fazia a descoberta e a indústria transformava aquilo em produto”, afirma. “Hoje o processo é muito mais integrado.”

Para ele, a aproximação entre universidade e setor produtivo deixou de ser exceção e passou a ser condição necessária para inovação tecnológica. “A indústria hoje depende do conhecimento científico produzido nas universidades”, afirma. “E a universidade também precisa criar mecanismos para que esse conhecimento consiga gerar impacto real.”

Fernando Cunha enfatiza que estruturas como a Embrapii ajudam justamente a reduzir essa distância. “A inovação depende da integração entre ciência, tecnologia, financiamento e setor produtivo”, afirma. “Nenhum desses elementos funciona sozinho.”

O pesquisador destaca que a ciência biomédica produzida no Brasil já possui reconhecimento internacional. “A ciência biomédica brasileira é considerada padrão ouro internacionalmente. O grande desafio continua sendo transformar esse conhecimento em tecnologia e produtos.”

Mas Fernando Cunha também defende que a pressão por inovação não pode reduzir a importância da pesquisa básica. “O importante continua sendo fazer ciência de primeira qualidade. Uma descoberta pode gerar tecnologia agora ou daqui a décadas”, conclui.

Teias e Núcleo de Empreendedores: a porta de entrada

Na FEA-RP, a inovação aparece principalmente associada à formação empreendedora e à articulação entre estudantes de diferentes áreas. “O Teias é um espaço pensado para promover inovação e empreendedorismo no campus, apesar de estar localizado na FEA-RP, ele é aberto para toda a comunidade universitária”, afirma a professora Clarissa Dourado Freire, coordenadora do Teias.
 

O espaço funciona como coworking colaborativo voltado a oficinas, mentorias, cursos, eventos e atividades integradas com entidades estudantis. Segundo Clarissa, um dos principais objetivos é permitir que estudantes compreendam, na prática, como funciona um ambiente de inovação. “O Teias funciona como porta de entrada para o estudante entender fisicamente como funciona um ambiente de inovação”, afirma.

Ela destaca que o espaço foi pensado justamente para aproximar estudantes da saúde, administração, farmácia, direito, informática biomédica e outras áreas. “A inovação acontece quando diferentes áreas começam a conversar”, diz.

Ao lado do Teias, o Núcleo de Empreendedores da FEA-RP atua na formação de estudantes interessados em empreendedorismo e conexão com o ecossistema de inovação da cidade. “O núcleo atua essencialmente como uma ponte entre o ecossistema universitário da USP e o ecossistema empreendedor de Ribeirão Preto e região”, afirma João Vitor Osti Amancio, presidente do Núcleo de Empreendedores. “O que fazemos é conectar alunos de diversos cursos a problemas reais da sociedade e ao ambiente de inovação local. Para isso, o núcleo reúne pessoas inquietas, conecta essas pessoas ao ecossistema e tenta gerar impacto para a sociedade”, resume.

Segundo João Vitor, o crescimento do interesse por empreendedorismo entre estudantes passou a ocorrer quase de forma orgânica, impulsionado pelas transformações tecnológicas recentes e pela valorização da autonomia profissional.

Segundo ele, o empreendedorismo deixou de ser associado apenas à abertura de empresas e passou a aparecer também como comportamento ligado à autonomia, criatividade e resolução de problemas. “Muitas pessoas estão agindo de maneira empreendedora quase que instintivamente, especialmente nesse momento em que a inteligência artificial está transformando praticamente todos os setores, as oportunidades surgem em escala significativa.”

João Vitor avalia que, nos últimos anos, o perfil dos estudantes também começou a mudar. “A escolha entre empreender e seguir uma carreira mais tradicional passa a ser motivada por desejo real, e não apenas por necessidade”, diz.

Embora sediado na USP, o núcleo mantém atividades e eventos em parceria com instituições como Universidade Estácio, Fatec e Unaerp, ampliando sua atuação para além do campus universitário.

Segundo João Vitor, qualquer universitário interessado em empreendedorismo pode participar das atividades e processos seletivos do grupo, realizados semestralmente. Além disso, os projetos promovem eventos gratuitos abertos a diferentes públicos ao longo do ano. “A principal recomendação é acompanhar o núcleo nas redes sociais, porque praticamente todas as atividades são divulgadas por lá”, afirma.

Além da atuação interna, o núcleo mantém projetos voltados à aceleração de startups, impacto social e capacitação empreendedora. Entre eles estão o StartYou, programa de pré-aceleração de startups universitárias; o Empreenda-se, voltado à capacitação gratuita de pequenos empreendedores; o PontaPé, direcionado a estudantes de escolas públicas; e o Ennergia, projeto voltado à autonomia de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Neste ano, o grupo também iniciou o GêNEse, programa interno de mentorias e capacitações voltado ao desenvolvimento de startups por estudantes. Segundo João Vitor, o StartYou já acelerou mais de 81 startups nos últimos cinco anos. Apenas em 2025, o projeto reuniu cerca de 11 startups universitárias, algumas já em estágio de validação de mercado.

O alcance das iniciativas também ultrapassa o empreendedorismo tradicional. Apenas em 2025, o projeto PontaPé impactou mais de 800 estudantes de escolas públicas com atividades voltadas à universidade e empreendedorismo. Já o Ennergia recebeu reconhecimento internacional por meio de uma premiação global do PRME, iniciativa ligada à Alemanha. “O núcleo é a porta de entrada para o ecossistema”, afirma João Vitor. “Aqui é um espaço onde as pessoas podem errar rápido para aprender rápido.”

Segundo ele, a lógica se aproxima mais da cultura das startups do que da formação universitária tradicional. “Antes de ir diretamente para o mercado, o estudante consegue entender como funciona esse ambiente de inovação”, diz.

Para João Vitor, a USP ainda mantém uma formação predominantemente voltada à pesquisa acadêmica tradicional. “O foco predominante ainda é a formação de pesquisadores. A Universidade tem excelência nisso, mas existe espaço significativo para que o empreendedorismo também ocupe papel mais central na formação dos alunos”, afirma.
Uma rede em construção

Embora já apresente resultados concretos, o ecossistema de inovação da USP em Ribeirão Preto ainda é descrito pelos próprios coordenadores como um sistema em construção.

O desafio agora já não é apenas criar novas estruturas, mas fazer com que elas operem de forma integrada. Para Lopes, isso exige uma mudança cultural dentro da própria Universidade. “O desafio agora é consolidar uma cultura institucional em que a inovação seja entendida como parte natural da pesquisa e da formação”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele defende que a rede preserve autonomia e até certo nível de sobreposição entre estruturas. “Em alguns casos, a sobreposição é saudável porque amplia conexões e reduz descontinuidades”, diz.

Ainda, segundo Lopes, um dos próximos desafios da Universidade será justamente criar mecanismos de gestão e articulação capazes de dar visibilidade a iniciativas que muitas vezes surgem de forma independente dentro das unidades, hospitais, centros e grupos de pesquisa. “O ecossistema cresceu muito nos últimos anos e hoje existe uma quantidade enorme de iniciativas acontecendo simultaneamente”, afirma, e acrescenta: “O desafio passa também por criar formas de integração para que a própria Universidade consiga enxergar melhor essa rede, estimular conexões e evitar que projetos importantes fiquem isolados”.

(Com informações do Jornal da USP)





Obrigado por comentar!
Erro!
Contato
+55 11 5561-6553
Av. Rouxinol, 84, cj. 92
Indianópolis - São Paulo/SP