IA nos hospitais: o desafio começa depois da tecnologia
01/06/2026

A inteligência artificial deixou de ser uma aposta distante para se tornar parte dasestratégias de inovação dos hospitais. Ferramentas voltadas à documentação clínica, apoio à decisão, gestão operacional e automação de processos já fazem parte da realidade de muitas instituições. Ainda assim, transformar essas iniciativas em resultados concretos continua sendo um desafio.

Esse foi o tema de mais uma edição do Anahp Ao Vivo, realizada em 28 de maio. O encontro também marcou o lançamento do Escritório de IA Anahp, iniciativa do Instituto Anahp voltada a apoiar hospitais na adoção da inteligência artificial de forma estruturada, segura e alinhada às necessidades do setor.

Participantes:

  • Miguel Trigo, PhD em Inteligência Competitiva
  • Selma Hirai, coordenadora de Projetos da Anahp

 

O especialista Miguel Trigo defendeu que a discussão sobre inteligência artificial precisa avançar para além da escolha de ferramentas. Para ele, o principal desafio está em transformar tecnologia em mudanças efetivas nos processos e na gestão das organizações.

Principais pontos:

Um espaço para apoiar a adoção da IA na saúde

A abertura do encontro foi dedicada à apresentação do Escritório de IA Anahp, criado para apoiar hospitais em temas como capacitação, governança, avaliação de soluções e compartilhamento de boas práticas.

Entre os objetivos da iniciativa estão:

  • ampliar o letramento em IA no setor;
  • apoiar estruturas de governança;
  • disseminar experiências e casos de uso;
  • avaliar soluções com potencial de aplicação hospitalar;
  • facilitar o acesso ao conhecimento por hospitais de diferentes portes.

 

A proposta é aproximar a discussão sobre inteligência artificial da realidade das instituições de saúde, ajudando os hospitais a avançar da experimentação para a aplicação prática.

Muito investimento, pouco impacto

Grande parte da apresentação foi dedicada ao contraste entre o crescimento dos investimentos em inteligência artificial e os resultados efetivamente alcançados pelas organizações.

Entre os dados apresentados:

  • 88% dos projetos-piloto não chegam à produção;
  • 70% das empresas relatam pouco ou nenhum impacto da IA;
  • 42% abandonaram iniciativas relacionadas à tecnologia em 2025.

 

A avaliação apresentada é que muitas organizações ainda tratam a IA como uma solução isolada, quando os problemas que tentam resolver estão ligados a processos, fluxos de trabalho e modelos de decisão.

“Os hospitais não têm um problema de inteligência artificial. Têm um problema de coordenação.” – Miguel Trigo

Onde a IA costuma gerar ganhos — e onde costuma decepcionar

Uma parte importante da discussão foi dedicada aos diferentes níveis de aplicação da IA dentro das organizações.

Muitas iniciativas atuais estão concentradas em atividades específicas, como:

  • produção de relatórios;
  • documentação clínica;
  • busca de informações;
  • automatização de tarefas administrativas.

 

Esses ganhos ajudam a aumentar a produtividade das equipes e reduzir atividades repetitivas. O desafio surge quando a expectativa é que melhorias localizadas sejam suficientes para transformar o desempenho da organização.

Os maiores resultados aparecem quando a tecnologia contribui para reorganizar processos completos e melhorar a interação entre diferentes áreas.

Entre os exemplos debatidos estiveram iniciativas relacionadas a:

  • coordenação do cuidado;
  • gestão de agendas e consultas;
  • integração entre áreas clínicas e administrativas;
  • redução de retrabalho;
  • gestão do ciclo de receita.

 

Acelerar tarefas é importante, mas as maiores oportunidades de ganho estão na revisão dos fluxos que conectam essas tarefas.

O ponto de partida continua sendo o problema

A discussão mostrou que iniciativas de IA tendem a gerar mais resultado quando partem de um problema claramente definido e de objetivos concretos para pacientes, profissionais e organizações.

“O paciente não compra um hospital. O paciente procura um progresso.” – Miguel Trigo

A tecnologia apareceu como um meio para ampliar acesso, melhorar a experiência do paciente, reduzir gargalos operacionais e apoiar decisões clínicas e administrativas — e não como um objetivo em si.

O que os hospitais precisam estruturar antes de escalar a IA

Além da tecnologia, o encontro abordou temas ligados à governança, gestão de riscos e responsabilidade institucional.

Entre os pontos destacados estão:

  • definição de responsáveis pela governança da IA;
  • participação de equipes multidisciplinares;
  • monitoramento do uso informal de ferramentas;
  • conformidade com a LGPD;
  • critérios para avaliação de retorno e impacto das iniciativas.

 

O uso de ferramentas de IA por colaboradores sem supervisão institucional — prática conhecida como Shadow AI — é um dos pontos de atenção para as organizações, especialmente em temas relacionados à segurança da informação e proteção de dados.

Também foi reforçada a importância do envolvimento da liderança na definição de prioridades, critérios de uso e acompanhamento dos resultados obtidos com a tecnologia.

Conclusão

A inteligência artificial foi apresentada como um recurso capaz de aumentar produtividade, apoiar decisões e criar novas capacidades para os hospitais. Os resultados mais consistentes, porém, aparecem quando tecnologia, processos, governança e estratégia avançam na mesma direção.

Para as lideranças hospitalares, a questão central passa por identificar onde estão os principais gargalos da operação e avaliar como a IA pode contribuir para resolvê-los de forma mensurável. Afinal, o valor da tecnologia não está na quantidade de projetos implementados, mas nos resultados que eles conseguem produzir.

Fonte: Anahp




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