O Edelman Trust Barometer 2026 edição especial Confiança e Saúde revela que os brasileiros estão tomando decisões sobre saúde em um ambiente fragmentado, no qual médicos e especialistas seguem altamente confiáveis, mas passam a disputar influência com inteligência artificial, familiares, influenciadores, redes sociais e experiências pessoais.
De acordo com o estudo, 75% dos brasileiros acreditam que pelo menos uma das seis afirmações sobre alimentos, vacinas e medicamentos que dividem opiniões é verdadeira. Entre elas, 43% acreditam que a proteína animal é mais saudável do que a proteína vegetal, 32% que leite cru é mais saudável do que leite pasteurizado, 30% que flúor na água é prejudicial ou não traz benefícios à saúde, 29% que vacinas são usadas como forma de controle populacional e 28% que os riscos da vacinação infantil superam seus benefícios.
O dado desafia a ideia de que afirmações sobre saúde que dividem opiniões estariam restritas a grupos específicos ou associadas apenas à falta de escolaridade. No Brasil, 73% das pessoas com ensino superior acreditam em pelo menos uma dessas afirmações, percentual próximo ao registrado entre pessoas sem diploma universitário, de 78%. Essas crenças também atravessam diferentes inclinações políticas: estão presentes em 82% das pessoas identificadas com a direita, 78% das pessoas de centro e 68% das pessoas de esquerda.
O estudo mostra ainda que o problema não parece estar apenas na falta de informação. Pelo contrário: brasileiros que acreditam em mais afirmações que dividem opiniões sobre saúde também são os que mais consomem conteúdos sobre o tema. Entre aqueles que acreditam em três ou mais afirmações sobre saúde que dividem opiniões, 72% consomem notícias tradicionais sobre saúde, 69% acompanham conteúdos sobre saúde associados a diferentes perspectivas políticas e 63% consultam plataformas de IA pelo menos uma vez por mês para obter respostas a dúvidas relacionadas à saúde.
Nesse cenário de excesso de informação e múltiplas fontes de influência, os brasileiros estão menos seguros sobre como decidir. A confiança na própria capacidade de encontrar respostas e tomar decisões informadas sobre saúde caiu 11 pontos em relação a 2025, caindo para 52%.
“O estudo mostra que a confiança em saúde está sendo disputada em um ambiente mais fragmentado, no qual credenciais formais continuam importantes, mas já não são suficientes para orientar decisões. Para empresas, instituições e lideranças, o desafio é deixar de tratar confiança como uma mensagem a ser transmitida e passar a construí- la como uma ponte entre diferentes crenças, experiências e fontes de informação”, afirma Ana Julião, Gerente Geral da Edelman Brasil.
A inteligência artificial já ocupa um espaço relevante nessa jornada. No Brasil, 38% dos entrevistados afirmam usar IA para administrar aspectos relacionados à saúde ou tomar decisões sobre o tema. Entre esses usuários, 89% utilizam a tecnologia para obter respostas imediatas a dúvidas gerais de saúde, 87% para receber recomendações de sono, atividade física ou nutrição, 83% para interpretar resultados de exames médicos, 79% para receber sugestões de tratamento e 78% para obter uma segunda opinião sobre diagnósticos.
A percepção sobre o potencial da IA também avança para áreas antes associadas à expertise médica. Seis em cada dez brasileiros acreditam que alguém sem formação médica formal, mas com domínio de inteligência artificial, pode desempenhar pelo menos uma tarefa tão bem quanto ou melhor que um médico. Isso inclui responder a perguntas gerais sobre saúde e medicina, avaliar se uma pessoa precisa procurar atendimento profissional, determinar tratamentos ou medicamentos adequados, realizar procedimentos médicos básicos e diagnosticar doenças ou condições de saúde.
Apesar desse avanço, médicos e especialistas continuam sendo as vozes mais confiáveis no ecossistema de saúde. No Brasil, 79% confiam em seus médicos e 78% em cientistas e especialistas médicos para dizer a verdade sobre questões de saúde e sobre como proteger a saúde pública. A confiança cai em relação a outras fontes: 58% confiam em amigos e familiares, 46% em CEOs do setor de saúde, 43% em autoridades governamentais e 42% em jornalistas.
O desafio, portanto, não está apenas em preservar a confiança nos profissionais de saúde, mas em convertê-la em influência real sobre decisões. O estudo mostra que os médicos continuam exercendo mais influência do que fontes não médicas nas decisões pessoais de saúde relacionadas ao diagnóstico, à prevenção de doenças e ao tratamento de curto prazo. Mas essa vantagem diminui em assuntos como vitaminas e suplementos e se inverte em dieta e nutrição, área em que fontes leigas exercem influência ligeiramente maior do que profissionais de saúde.
“O dado mais importante do estudo talvez não seja que as pessoas estejam usando IA ou redes sociais para falar de saúde, mas que elas continuam procurando orientação. O problema é que essa orientação vem de muitas fontes ao mesmo tempo, nem sempre com o mesmo nível de evidência. Para profissionais, empresas e instituições de saúde, o desafio passa a ser menos ‘corrigir’ o paciente e mais ajudá-lo a navegar escolhas complexas com segurança”, afirma Ana Carbonieri, Diretora da área de Saúde para América Latina da Edelman.
Para enfrentar esse cenário, o estudo destaca a importância do brokering de confiança, entendido como a capacidade de construir pontes entre diferentes grupos, perspectivas e fontes de informação. Em questões de saúde que dividem opiniões, 48% dos brasileiros dizem que uma empresa tem mais chances de conquistar sua confiança quando incentiva a cooperação para encontrar soluções, sem tomar partido ou julgar diferentes posições.
Principais achados do Edelman Trust Barometer edição especial Confiança e Saúde 2026: