Há alguns anos, falar em cuidado centrado no paciente era quase um diferencial competitivo entre instituições de saúde. Hoje, essa abordagem já não pode ser vista como uma escolha, mas como um requisito fundamental para qualquer organização que busca oferecer assistência segura, ética e de qualidade.
Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, ainda existe uma distância considerável entre o discurso e a prática. Frequentemente ouvimos que o paciente está no centro do cuidado, mas a realidade demonstra que muitos processos continuam sendo estruturados prioritariamente em função das necessidades dos sistemas, das instituições ou até mesmo dos profissionais. O desafio atual é transformar a centralidade do paciente em uma experiência concreta e perceptível.
Essa mudança passa, antes de tudo, pelo reconhecimento de que o paciente não é apenas o destinatário do cuidado, mas um participante ativo dele. A qualidade assistencial não se resume à excelência técnica, aos protocolos bem definidos ou à incorporação de novas tecnologias. Ela também depende da capacidade de ouvir e envolver as pessoas nas decisões que afetam sua própria saúde.
Quando um paciente compreende seu diagnóstico, conhece as opções terapêuticas disponíveis e participa das decisões relacionadas ao tratamento, os resultados tendem a ser melhores. O engajamento favorece a adesão às condutas propostas, fortalece a confiança na equipe assistencial e contribui para uma relação mais transparente entre profissionais, familiares e, logicamente, pacientes.
Além disso, a participação ativa dos pacientes tem sido cada vez mais reconhecida como um elemento importante para a segurança assistencial. Em diversos países, iniciativas voltadas para a prevenção de eventos adversos incluem estratégias que incentivam pacientes a fazer perguntas, compreender seus medicamentos e participar ativamente do processo de cuidado. Longe de representar uma interferência na atuação dos profissionais, essa participação funciona como uma camada adicional de proteção.
Nesse contexto, avanços regulatórios recentes, como a consolidação dos direitos dos pacientes em legislações específicas, ajudam a reforçar princípios que já são considerados boas práticas internacionais. Direitos relacionados à autonomia, ao consentimento informado, ao acesso às informações de saúde e à participação nas decisões assistenciais representam instrumentos importantes para fortalecer uma assistência mais humana e transparente. No entanto, nenhuma legislação é capaz de promover mudanças reais sem que haja transformação cultural dentro das organizações.
E é justamente nesse ponto que se encontra o maior desafio: colocar o paciente no centro exige mais do que campanhas institucionais ou declarações de missão. Exige investimento contínuo em educação, revisão de processos, fortalecimento da governança clínica e desenvolvimento de lideranças comprometidas com uma cultura de respeito e segurança.
Também exige que os profissionais desenvolvam competências que vão além do conhecimento técnico. Comunicação efetiva, escuta ativa, empatia e capacidade de construir decisões compartilhadas são habilidades cada vez mais indispensáveis para quem atua na assistência à saúde.
Ao mesmo tempo, é importante compreender que o cuidado centrado no paciente não significa transferir responsabilidades exclusivamente para ele. Trata-se de uma construção conjunta. Pacientes mais informados e engajados tendem a participar de forma mais consciente do tratamento, mas cabe às instituições criar ambientes que favoreçam essa participação e garantir que as informações sejam transmitidas de maneira clara e acessível.
O futuro da saúde passa inevitavelmente por essa transformação. Em um cenário de crescente complexidade assistencial, envelhecimento populacional e maior acesso à informação, não há espaço para modelos baseados exclusivamente em decisões unilaterais ou relações hierárquicas rígidas.
A verdadeira centralidade do paciente acontece quando cada decisão clínica, cada processo institucional e cada interação assistencial são orientados pela pergunta mais importante que uma organização de saúde pode fazer: qual é o melhor resultado possível para a pessoa que está sendo cuidada?
Mais do que uma tendência, essa é uma condição essencial para construirmos sistemas de saúde mais seguros, eficientes e verdadeiramente humanos.
*Rubens Covello é sócio-fundador e CEO da Quality Global Alliance (QGA), cofundador da HSO – Health Standards Organization e co-fundador e vice-presidente do CBEXs – Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde.