O papel do médico no avanço do descarte de medicamentos
23/06/2026

Grande parte das decisões sobre um tratamento de saúde acontece dentro do consultório. Diagnóstico, escolha terapêutica e orientações de uso fazem parte desse momento. Porém, existe uma etapa que ainda aparece pouco na prática clínica e que pode ampliar o cuidado oferecido ao paciente: o destino dos medicamentos que não são utilizados.

Sobras de tratamento, interrupções por efeitos adversos e ajustes de prescrição são situações comuns no dia a dia. Como resultado, muitos medicamentos permanecem armazenados nas casas dos pacientes sem orientação clara sobre o que fazer com eles.

Na ausência dessa informação, o descarte costuma seguir caminhos inadequados, como o lixo comum ou a rede de esgoto. De acordo com um estudo da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, cerca de 77% das pessoas descartam medicamentos de forma inadequada, o que demonstra o tamanho do desafio. Esse comportamento favorece a contaminação do solo e da água, com impactos que podem retornar para a população por diferentes vias. Exemplo disso é o caso dos medicamentos antimicrobianos, cujo descarte incorreto está associado ao avanço da resistência bacteriana, um problema crescente que compromete a eficácia de tratamentos e desafia sistemas de saúde em todo o mundo.

Nos últimos anos, o Brasil estruturou um sistema de logística reversa para medicamentos domiciliares a partir de regulamentação federal, com o Decreto número 10.388, de 2020. Após o primeiro ano de implementação, mais de 50 toneladas de resíduos foram recolhidas e o sistema passou a alcançar cerca de 70 milhões de brasileiros, ampliando o acesso a alternativas mais seguras para o descarte. Apesar dos avanços, a adesão ainda depende do nível de informação e orientação recebido pelos pacientes. É nesse contexto que o médico pode contribuir de forma importante.

A consulta é um momento de confiança e troca. Ao incluir orientações simples sobre o destino de medicamentos em desuso, o profissional de saúde amplia a abordagem do cuidado e ajuda o paciente a tomar decisões mais seguras também fora do período de tratamento. Esse tipo de orientação pode ser incorporado de forma prática, com recomendações objetivas sobre armazenamento, verificação de sobras e encaminhamento para pontos de coleta. Simples conversas têm potencial de gerar mudanças consistentes ao longo do tempo.

A indústria farmacêutica tem papel relevante nesse processo, especialmente no apoio à expansão da infraestrutura de logística reversa e na promoção de iniciativas de conscientização. Em articulação com farmácias, distribuidores, parceiros especializados e poder público, o setor pode contribuir para que os pontos de coleta sejam mais acessíveis, seguros e conhecidos pela população. Ainda assim, a existência desses locais, por si só, não garante a adesão dos pacientes. Para que o descarte adequado se torne parte da rotina, é fundamental que a orientação chegue de forma clara no momento em que o medicamento é prescrito, dispensado ou revisado ao longo do tratamento.

A experiência mostra que a infraestrutura disponível é um passo importante, mas seu uso está diretamente ligado ao nível de conhecimento da população. Por isso, quando o tema faz parte das orientações de saúde, ele tende a ser incorporado à rotina com mais facilidade.

Fortalecer essa conexão entre prática clínica e descarte adequado de medicamentos contribui para um cuidado mais completo e alinhado aos desafios atuais de saúde e sustentabilidade. Incluir orientações sobre o destino de medicamentos em desuso na rotina de atendimento é um passo simples, que pode ajudar a transformar hábitos e expandir o uso responsável. Ao ampliar esse diálogo, médicos, pacientes, setor público e iniciativa privada avançam de forma conjunta na construção de soluções que beneficiam tanto o indivíduo quanto a sociedade.


*Michelle Ehlke é Diretora Associada de Saúde Global & Responsabilidade Corporativa da Novartis Brasil.





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