Um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS) garante acesso universal, com 76% da população brasileira dependendo diretamente dele. Sua importância, no entanto, é diretamente proporcional aos desafios de saúde de um país com dimensões continentais.
Entender essa complexidade e buscar soluções que ajudem a fortalecer o sistema público, promovendo mais equidade em saúde, foi o que motivou o Einstein Hospital Israelita a iniciar sua jornada no SUS há 25 anos.
Hoje, o Einstein, uma organização filantrópica, administra uma estrutura maior na saúde pública do que na suplementar: são 34 unidades de saúde, incluindo nove hospitais em São Paulo, Goiás, Bahia e Mato Grosso, mais de 2 mil leitos e cerca de 14 milhões de atendimentos anuais. A atuação reúne assistência, gestão, capacitação profissional e desenvolvimento de soluções para diferentes realidades do país.
“Nossa presença no SUS está ligada à melhor forma de escalarmos a capacitação acumulada, deixando-a disponível para um número cada vez maior de pessoas”, afirma o presidente do Einstein, Sidney Klajner. E isso inclui não só o avanço do Einstein em assistência, mas também ensino, pesquisa e inovação.
“Não faria sentido evoluir em todas essas áreas sem levar esse avanço para o sistema público”, completa Klajner.
Ao longo dessa trajetória, práticas consolidadas no Einstein — como indicadores de desempenho assistencial, protocolos clínicos e de segurança do paciente e processos de melhoria contínua — passaram a integrar a rotina das unidades sob sua gestão, contribuindo para disseminar conhecimento, qualificar o atendimento e fortalecer a capacidade de resposta do sistema de saúde.
A presença do Einstein no SUS se dá também por projetos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), do Ministério da Saúde. No atual triênio, de 2024 a 2026, o Einstein conduz 45 projetos voltados para o SUS nas áreas de pesquisa, capacitação, gestão, assistência de alta complexidade e avaliação e incorporação de tecnologias. Foram investidos R$ 491,5 milhões no programa só em 2025, e estima-se que o valor atinja R$ 1,4 bilhão no triênio 2024-2026.
O presidente do Conselho Deliberativo do Einstein, Claudio Lottenberg, destaca que a iniciativa da organização ajudou a romper paradigmas na gestão da saúde.
“Foi muito importante ter tido a coragem, tanto nossa, quanto do poder público, de buscar uma forma diferenciada e mais ágil para atender os desafios de saúde da população”, lembra.
"Tínhamos o entendimento de que podíamos fazer muita coisa pelo SUS, mas o Einstein virou o que ele é hoje também pela experiência na saúde pública.”
A visão macroestrutural dessa aliança foi debatida no evento Transformação da saúde: a força da colaboração entre público e privado para um futuro com equidade, realizado em São Paulo, na última semana. “Quando os setores caminham juntos, quando há troca de conhecimento e compromisso com resultados, todo o sistema se fortalece. E quem ganha é a sociedade”, defendeu Henrique Neves, diretor geral do Einstein, na abertura.
Rede integrada
Durante o encontro, os especialistas reforçaram o papel central da atenção primária para tornar o sistema mais equitativo, eficiente e sustentável. O secretário municipal da Saúde de São Paulo, Luiz Carlos Zamarco, ressaltou que a cidade é extremamente heterogênea e possui territórios com realidades muito diferentes. “A atenção primária é a porta de entrada do serviço de saúde e temos trabalhado estruturando o serviço de acordo com as necessidades da população em cada território”, explicou.
Rafael Ornelas, diretor de Atenção Primária e Rede Assistencial no Einstein, enfatizou a importância de conhecer os territórios e suas demandas para coordenar o cuidado de forma longitudinal. “É necessário conectar a gestão com o profissional de saúde na ponta, porque ele é quem conhece as pessoas”, disse. Só em 2025, foram realizadas 868,7 mil consultas médicas nas 24 unidades de atenção primária à saúde (APS) geridas pelo Einstein em São Paulo.
O secretário executivo da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba e representante do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), Patrick Almeida, destacou a atenção primária como ferramenta importante para fortalecimento de todo o sistema. “A APS forte depende de um estado que entende a lógica da rede e que a sustenta e apoia de forma contínua e permanente”, declarou.
Aprendizado bilateral
Para Marcela Pégolo da Silveira, coordenadora de Gestão de Contratos de Serviços de Saúde do Estado de São Paulo, a troca de capacitação entre as áreas privada e pública cresceu de forma positiva nos últimos anos. “Em 1998, eram apenas cinco hospitais gerenciados por organizações sociais de saúde. Hoje, temos 142 unidades gerenciadas por entidades privadas sem fins lucrativos, ue são as as Organizações Sociais de Saúde (OSS). Isso é um ponto já que mostra a força desse modelo de gestão e parceria”, afirmou.
Luciana Borges, diretora de Cuidado Público no Einstein, por sua vez, destacou que a atuação do Einstein na gestão de unidades públicas se ampliou justamente porque a organização tem como objetivo promover saúde para um número cada vez maior de pessoas. “Isso tem uma conexão profunda com o que fazemos no SUS, com o propósito de oferecer acesso oportuno, com qualidade e segurança, e levando a melhor experiência possível ao paciente.”
Como exemplo dessas melhorias, Oberdan Lira, secretário-adjunto executivo de Saúde de Mato Grosso, citou o trabalho do Hospital Central de Alta Complexidade de Mato Grosso, que tem gestão do Einstein e conta com um sistema robótico para cirurgias minimamente invasivas. “As pessoas não acreditam que é tudo de graça quando entram no hospital. Mas isso é SUS.”
Para a secretária da Saúde do Estado da Bahia, Roberta Santana, os resultados obtidos em dois anos e meio no Hospital Ortopédico do Estado da Bahia, gerido pelo Einstein, mostram “a dimensão e a importância” da aliança da organização com o SUS. “Já são 25 mil cirurgias realizadas, mais de 282 mil atendimentos ambulatoriais e mais de 124 mil atendimentos em reabilitação física e recuperação funcional”, disse. “É a demonstração de que, com planejamento, investimento e boa gestão, é possível ofertar à população uma saúde pública de alta complexidade, inovadora e acessível.”
Alessandro Magalhães, secretário municipal de saúde de Aparecida de Goiânia, afirma que a colaboração entre instituições de excelência e o sistema público leva mais qualidade, segurança e inovação para as pessoas atendidas. “No HMAP, a parceria com o Einstein fortaleceu protocolos assistenciais, a qualificação das equipes e a cultura de segurança do paciente. Um exemplo é a estruturação da hemodinâmica, ampliando a capacidade de resposta a casos cardiovasculares de alta complexidade e reduzindo o tempo para intervenções decisivas”, explica.
Inovação como resposta
Olhar para as demandas em saúde de diferentes regiões e populações dentro do país e trazer soluções por meio de projetos também está no centro do trabalho que o Einstein desenvolve com o sistema público. “A nossa atuação só vale a pena se for para transformar, e ela só vai transformar se impactar quem está na ponta. E, para isso, precisamos ouvir as demandas dessas pessoas”, disse Felipe Piza, diretor de Responsabilidade Social e Filantropia no Einstein.
Ele citou como exemplo o projeto TeleAMEs, que oferece teleinterconsultas em 12 especialidades nas regiões Norte e Centro Oeste, por meio do PROADI-SUS. Desde sua criação, a iniciativa já realizou mais de 550 mil atendimentos, com resolutividade de 95% dos casos sem necessidade de encaminhamento a outro serviço, reduzindo filas, custos e deslocamentos.
Durante o debate, Aline de Oliveira Costa, diretora do Departamento de Cooperação Técnica, Inovação e Desenvolvimento em Saúde (DECOOP), do Ministério da Saúde, destacou a importância do PROADI-SUS, que usa “tecnologias e o fortalecimento da parceria público-privada em prol da qualificação da atenção à saúde”. “O PROADI-SUS tem nos trazido importantes ferramentas para qualificar o SUS, pela ida aos territórios e por chegar, de fato, (a quem precisa)”, afirmou.
Um dos exemplos é o projeto Vigilância Ambiental em Saúde Indígena (Vigiambsi), desenvolvido com o Einstein, que realiza estudos ambientais com análises de solo e água em territórios indígenas para auxiliar no planejamento de ações de saúde e vigilância ambiental. “Não pode faltar essa construção com respeito mútuo, aliando o conhecimento do Einstein e os conhecimentos ancestrais nos territórios”, afirmou a secretária de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, Lucinha Tremembé.
Ao encerrar o evento, Eliézer Silva, diretor de Sistemas de Saúde no Einstein, reforçou o poder da colaboração. “O futuro da saúde será construído por meio de alianças cada vez mais amplas, da integração entre diferentes competências e da capacidade de cocriar soluções que façam sentido para cada território.”