A inteligência artificial está rompendo o modelo tradicional da indústria farmacêutica. Reconhecido por sua forte base científica e regulatória, o mercado passa por um momento de modernização acelerada, impulsionado pela necessidade de tornar informações complexas mais acessíveis, melhorar a tomada de decisão e fortalecer o relacionamento entre indústrias e profissionais do setor. Dezoito por cento dos estabelecimentos de saúde do país já operam com inteligência artificial. Esse número, levantado pela pesquisa TIC Saúde 2025, conduzida pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), diz menos sobre tecnologia e mais sobre a transformação que está redesenhando a relação entre ciência, indústrias e consultórios.
A tecnologia permite a criação de motores especializados, capazes de atender às demandas específicas do setor farmacêutico por meio de soluções personalizadas. Entre as aplicações mais promissoras está a transformação de extensas bases de conhecimento científico em fontes de consulta ágeis e acessíveis para profissionais de saúde. Já disponível no mercado, essa inovação funciona como um MSL virtual, facilitando a troca de conhecimento entre a indústria farmacêutica e médicos. Na prática, permite que profissionais obtenham respostas sobre eficácia terapêutica, interações medicamentosas e evidências clínicas em segundos, com total rastreabilidade das fontes e conformidade regulatória.
Outro avanço relevante está na capacidade de compreender, em escala, as principais dúvidas e necessidades dos profissionais de saúde. A partir da análise das interações realizadas nesses ambientes digitais, ferramentas de inteligência artificial conseguem identificar padrões, temas recorrentes e lacunas de informação. Esse tipo de insight permite que o setor farmacêutico compreenda melhor as demandas do mercado médico e desenvolva estratégias de comunicação científica mais aderentes à realidade dos consultórios e hospitais.
A inovação também alcança a capacitação das equipes que atuam na linha de frente da indústria farmacêutica. Um exemplo é o uso de roleplays que simulam o treinamento de representantes. Por meio de cenários dinâmicos construídos a partir de estudos clínicos e de situações reais de mercado, essas plataformas permitem que profissionais pratiquem abordagens, aprofundem conhecimentos técnicos e desenvolvam habilidades de comunicação em um ambiente seguro e controlado. Além de elevar o nível de preparação das equipes, a tecnologia contribui para o fortalecimento das práticas de compliance, garantindo maior aderência às informações aprovadas e aos padrões regulatórios que regem a interação entre a indústria farmacêutica e os profissionais de saúde.
Estamos entrando em uma nova fase da transformação digital na saúde, em que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta de eficiência para se tornar uma ponte entre ciência e tomada de decisão. Para a indústria farmacêutica, o desafio não é mais discutir se a IA fará parte da rotina do setor, mas como utilizá-la de forma ética, segura e estratégica para ampliar o acesso ao conhecimento científico.
*Eduardo Varela é CEO da Deepful.