Estudo analisa modelo de governança clínica unificada na Rede D’Or
21/07/2026

Manter padrões elevados de qualidade assistencial enquanto uma rede hospitalar cresce rapidamente é um dos maiores desafios da gestão em saúde. Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em colaboração com a Rede D’Or, mostra que um modelo de governança clínica unificada foi capaz de sustentar melhorias consistentes em indicadores de infecções relacionadas à assistência, segurança do paciente e rapidez no atendimento de emergências, mesmo durante a expansão da rede hospitalar e o período mais crítico da pandemia de Covid-19. Publicada na revista científica BMC Health Services Research, a pesquisa também demonstrou que esses avanços ocorreram sem associação consistente com pior desempenho financeiro.

O estudo acompanhou a evolução de indicadores assistenciais em 57 hospitais gerais de alta complexidade distribuídos pelas cinco regiões brasileiras entre 2016 e 2024. Durante esse período, a Rede D’Or mais que dobrou o número de hospitais analisados, passando de 25 para 57 unidades incorporadas progressivamente ao sistema. Os resultados indicam que, mesmo diante dessa expansão e dos desafios impostos pela pandemia de Covid-19, a rede conseguiu preservar a evolução dos principais indicadores de qualidade assistencial.

Ao longo dos nove anos de acompanhamento, os pesquisadores observaram redução das infecções da corrente sanguínea associadas ao uso de cateter venoso central em UTIs adultas, cuja taxa caiu de 1,62 para 0,75 caso por mil cateteres-dia, e das infecções urinárias relacionadas ao uso de cateter vesical, reduzidas de 1,29 para 0,52 caso por mil cateteres-dia. Também foram observadas diminuições na incidência de quedas de pacientes internados, que passou de 0,56 para 0,47 ocorrência por mil pacientes-dia, e de lesões por pressão, reduzidas de 0,61 para 0,28 caso por mil pacientes-dia. Além disso, a adesão ao protocolo de administração de antibióticos na primeira hora após o reconhecimento de sepse ou choque séptico aumentou de 88,9% para 95,3%, enquanto o tempo entre a chegada do paciente ao hospital e a realização da angioplastia primária em casos de infarto agudo do miocárdio caiu de 114,9 para 74,3 minutos.
 

Embora hospitais monitorem rotineiramente indicadores relacionados à segurança do paciente, ainda são raros estudos capazes de demonstrar, ao longo de quase uma década, como um modelo único de governança clínica influencia a evolução da qualidade assistencial em uma grande rede hospitalar, especialmente em países de renda média como o Brasil. Segundo os autores, essa é justamente uma das principais contribuições da pesquisa: oferecer evidências longitudinais sobre a capacidade de uma estrutura padronizada de gestão clínica sustentar melhorias contínuas em diferentes hospitais, mesmo diante de mudanças organizacionais e de eventos extremos, como a pandemia.

Na prática, a governança clínica reúne um conjunto de estratégias destinadas a garantir que o cuidado prestado aos pacientes seja seguro, padronizado e baseado nas melhores evidências científicas disponíveis. Entre essas ações estão protocolos assistenciais comuns a toda a rede, auditorias periódicas, monitoramento contínuo de indicadores, fortalecimento dos Núcleos de Segurança do Paciente, programas permanentes de capacitação, reuniões mensais para comparação de resultados entre hospitais e compartilhamento sistemático de boas práticas.

“Existe uma diferença substancial entre gerenciar um número limitado de hospitais e manter consistência de qualidade técnica em uma rede com 79 unidades. Escalar sem perder qualidade é um dos maiores desafios da saúde”, afirma Helidea Lima, pesquisadora do IDOR e diretora de Qualidade Assistencial da Rede D’Or.

Foi justamente a capacidade desse modelo de manter a qualidade ao longo do tempo que os pesquisadores decidiram investigar. Para isso, analisaram dez indicadores amplamente utilizados para medir segurança do paciente e qualidade assistencial, incluindo mortalidade cirúrgica, infecções relacionadas à assistência, quedas de pacientes internados, lesões por pressão, rapidez na administração de antibióticos em casos de sepse e o tempo necessário para realização de angioplastia em pacientes com infarto agudo do miocárdio. Além dos indicadores clínicos, o estudo avaliou se a evolução da qualidade esteve associada ao desempenho financeiro das instituições, medido por indicadores econômicos utilizados internacionalmente na gestão hospitalar.

Melhorias consistentes ao longo do tempo

Para avaliar a evolução dos indicadores, os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos capazes de considerar simultaneamente fatores como a expansão da rede hospitalar, o perfil dos hospitais e o impacto da pandemia de Covid-19. A análise mostrou reduções consistentes nas infecções da corrente sanguínea associadas ao uso de cateter venoso central (CLABSI), nas infecções urinárias relacionadas ao uso de cateter vesical (CAUTI), na incidência de quedas de pacientes e de lesões por pressão. Também identificou aumento da adesão ao protocolo de administração de antibióticos na primeira hora após o reconhecimento de sepse ou choque séptico e redução do tempo entre a chegada do paciente ao hospital e a realização da angioplastia primária em casos de infarto agudo do miocárdio. Esses resultados permaneceram consistentes mesmo após ajustes para características institucionais e fatores externos que poderiam influenciar o desempenho dos hospitais.

Segundo os autores, os achados reforçam que a adoção de um modelo estruturado de governança clínica pode contribuir para a melhoria contínua da assistência, desde que acompanhada de monitoramento sistemático dos indicadores e de mecanismos permanentes de avaliação e aprendizado institucional.

“Governança clínica não significa apenas criar protocolos. Significa acompanhar continuamente os resultados, identificar oportunidades de melhoria e compartilhar conhecimento entre os hospitais para que toda a rede evolua de forma coordenada. Esse processo exige comprometimento permanente das equipes assistenciais e da liderança”, afirma Helidea Lima.

Outro aspecto relevante foi a avaliação da relação entre qualidade assistencial e desempenho econômico. Ao contrário da percepção de que investimentos em segurança do paciente necessariamente aumentariam os custos operacionais, os pesquisadores não encontraram associação consistente entre a melhora dos indicadores clínicos e pior desempenho financeiro das instituições analisadas. O estudo utilizou indicadores econômicos reconhecidos internacionalmente, como margem EBITDA e retorno sobre o capital investido (ROIC), mostrando que, ao longo do período avaliado, a evolução da qualidade ocorreu sem comprometer de forma sistemática os resultados financeiros da rede.

Na avaliação dos autores, esse achado contribui para desfazer uma percepção ainda presente em parte do setor de que iniciativas voltadas à segurança do paciente representam apenas aumento de custos. Os resultados sugerem que qualidade assistencial e sustentabilidade financeira podem caminhar juntas quando fazem parte de uma estratégia institucional baseada em governança clínica.

Contribuição para a gestão hospitalar

Além de documentar a evolução dos indicadores assistenciais, os autores defendem que os resultados podem servir de referência para outras organizações de saúde interessadas em estruturar modelos de governança clínica capazes de combinar crescimento, qualidade e segurança do paciente.

Segundo os pesquisadores, embora o estudo tenha sido realizado em uma única rede hospitalar, o período analisado, o número de hospitais envolvidos e a abrangência geográfica conferem robustez aos achados. Eles ressaltam, no entanto, que pesquisas futuras poderão avaliar a aplicação desse modelo em outras instituições e sistemas de saúde, contribuindo para ampliar as evidências sobre estratégias de gestão capazes de promover melhorias sustentáveis na assistência.

Para Helidea Lima, um dos principais méritos do trabalho é demonstrar, com dados de longo prazo, que qualidade assistencial depende de uma estrutura organizacional capaz de transformar informações em aprendizado contínuo.

“A principal mensagem deste estudo é que qualidade não pode ser encarada como um projeto com início, meio e fim. Ela precisa fazer parte da cultura institucional e ser sustentada por um sistema permanente de monitoramento, análise crítica e compartilhamento de boas práticas. Quando isso acontece, é possível crescer preservando padrões elevados de assistência e segurança para os pacientes.”

Os autores destacam que, diante do envelhecimento da população, do aumento da complexidade dos atendimentos e da crescente pressão por eficiência nos sistemas de saúde, fortalecer modelos de governança clínica tende a se tornar um dos principais desafios da gestão hospitalar nas próximas décadas. Nesse contexto, estudos que acompanham indicadores assistenciais por longos períodos oferecem subsídios importantes para orientar decisões de gestores, profissionais de saúde e formuladores de políticas públicas.


Acesse o estudo na íntegra, clicando aqui.





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