Grandes hospitais estão descredenciando ou suspendendo atendimento a planos de saúde da Geap, que atende servidores públicos federais, estaduais e municipais. Em São Paulo, é o caso de Beneficência Portuguesa, São Camilo e Hospital das Clínicas.
Segundo a associação A Geap é Nossa, a lista inclui ocorrências em pelo menos 10 estados, como o do Hospital UDI, da Rede D'Or, e do Inlab Fleury, ambos no Maranhão. Em maio, o Ministério Público do Amazonas instaurou dois inquéritos civis para investigar a suspensão abrupta dos atendimentos pelos hospitais Santa Júlia e Adventista.
Grupos hospitalares ouvidos pelo Pipeline afirmam que a operadora elevou de forma relevante nos últimos meses o número de glosas – recusas de pagamento – de procedimentos médicos, o que teria levado a algumas revisões contratuais, e outros apontam atraso nos repasses após crescimento acelerado de base de clientes da Geap nos últimos anos.
“Em razão de pagamentos em aberto da ordem de mais R$ 200 milhões, a Rede D’Or suspendeu atendimentos vinculados à Geap em 28 unidades, e em seis houve descredenciamento da operadora. A inadimplência vem sendo registrada desde janeiro de 2025 e inclui, além do montante citado, glosas pendentes em discussão”, disse a Rede D’Or em nota.
O Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP, explica que mantinha dois contratos com a Geap por meio de suas fundações de apoio. “No caso da Fundação Faculdade de Medicina (FFM), a operadora realiza, desde 2023, pagamentos parciais de faturas vencidas, além de promover glosas hospitalares consideradas indevidas e aplicar descontos não previstos contratualmente.”
O HC diz que as partes mantêm negociações, mas os atendimentos foram suspensos em junho deste ano até que a situação seja regularizada. “Em relação à Fundação Zerbini (FZ), a inadimplência e as glosas hospitalares consideradas indevidas persistem desde 2024, acumulando valores expressivos em aberto. Após o esgotamento de todas as tentativas de solução consensual, a Fundação rescindiu o contrato por justa causa e ajuizou ação judicial para a cobrança dos valores devidos e a reparação dos prejuízos.”
Segundo dados do site da ANS, o percentual de recusas da Geap disparou de 5,8% no primeiro semestre do ano passado para mais de 14% na segunda metade do ano – último número disponível – ante um percentual médio mantido em torno de 6,5% para o setor.
Os usuários da Geap começaram a enfrentar reduções na rede atendida no fim do ano passado. As críticas à operadora dispararam em canais como o Reclame Aqui, com pico de 666 clientes insatisfeitos em maio e 392 em junho, ainda muito acima da faixa de 50 a 60 queixas mensais que eram registradas até o começo de 2025. No Consumidor.gov.br, cuja inscrição pelas empresas é voluntária, o cadastro da Geap foi desativado.
Procurada, a Geap disse que “sua saúde financeira é consistente e não há problema financeiro de nenhuma ordem”, com “acentuado crescimento de carteira nos últimos três anos, saindo de uma curva descendente de 270 mil beneficiários para os atuais 420 mil, mais de 15% ao ano, o que levou a ajustes na rede de atendimento para se adaptar à sua nova realidade”.
A operadora fechou o primeiro trimestre com lucro líquido de R$ 47 milhões ante prejuízo de R$ 175 milhões no mesmo período do ano passado e também perdas no consolidado de 2025.
A Geap diz ter mais de 30 mil prestadores diretos, mas fechou parcerias com Unimed, Hapvida e Amil que devem expandir a rede para mais de 100 mil, com 65 mil médicos, 1,86 mil hospitais e 17 mil clínicas. “A estratégia visa capilaridade nacional e regional dos serviços, além de garantir equilíbrio assistencial e financeiro.”
No caso da Rede D’Or, a Geap diz que “apenas alguns hospitais permanecem”, enquanto “os demais, por opção estratégica e considerando custo e benefício, já substituiu por outros de igual ou melhor perfil, para atendimento dos nossos beneficiários”. Na BP, o atendimento ficou restrito a usuários que migraram para a carteira da Unimed. A Geap não comentou o caso do HC.
Procurados, BP e Fleury disseram que não comentam informações relacionadas a contratos, negociações ou condições comerciais firmadas com operadoras e administradoras de planos de saúde, em respeito às cláusulas de confidencialidade. A ANS não respondeu aos pedidos de informações e posicionamento até a publicação desta reportagem, que poderá ser atualizada.