Inclusão de GLP-1 no Rol da ANS pode elevar a sinistralidade
27/07/2026

O mercado de análogos de GLP-1 — os medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” — movimenta cifras bilionárias nos últimos meses, financiadas majoritariamente pelo bolso do próprio consumidor. No entanto, o cenário está prestes a mudar de escala com o gancho da fabricação nacional desses fármacos pela farmacêutica EMS no Brasil, o que deve ampliar o acesso e intensificar a pressão regulatória e jurídica para a inclusão do tratamento da obesidade no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Para além do debate clínico e estético, o fenômeno acendeu um alerta financeiro nas grandes corporações. De acordo com especialistas no segmento, a entrada de um terceiro como fonte pagadora (as operadoras de saúde) pode gerar um impacto imediato na sinistralidade das apólices corporativas e, consequentemente, nos reajustes futuros dos planos de saúde empresariais.
 

O impacto atuarial e o risco da hiperutilização

Hoje, o principal freio para a hiperutilização desses medicamentos de alto custo é o desembolso direto por parte do paciente. Caso a cobertura se torne obrigatória ou a judicialização force esse custeio, o cenário muda drasticamente.

“Se tivermos um terceiro como fonte pagadora, mesmo que este custo afete a sinistralidade dos planos de saúde ou entre por processos de judicialização, haverá uma maior utilização e demanda por parte da população e por prescrição de profissionais de saúde”, alerta Claudio Tafla, superintendente médico de gestão de saúde e risco na Alper Seguros. “Este efeito de cobertura do custeio financeiro, quer seja direto ou indireto, já aconteceu no passado em outras terapias.”

O especialista explica que o impacto nos índices de reajuste não será instantâneo, mas funcionará como uma bomba-relógio para os contratos corporativos. “As operadoras de plano de saúde não podem inserir este custo diretamente no valor dos planos. Será necessário um período de 12 meses para, através de tábuas atuariais, provar para a ANS que houve um impacto orçamentário e, diante disso, aumentar os valores dos planos de saúde para se proteger do uso e da demanda judicial que virá”, completa Tafla.

Embora estudos atuariais da Alper indiquem que o investimento em protocolos seguros e validados para o uso prescrito de GLP-1 traria um benefício orçamentário a longo prazo — reduzindo custos com cirurgias bariátricas e comorbidades como diabetes e problemas cardíacos —, o “cenário ideal” esbarra no risco de uma avalanche de demandas judiciais e falta de controle. Por isso, a recomendação da consultoria é analisar os contratos caso a caso.

Benefícios flexíveis e PBMs: a reinvenção do pacote corporativo

Diante de um tratamento preventivo focado na farmácia e não no hospital, as corporações enfrentam o desafio de redesenhar seus pacotes de benefícios. A migração para Programas de Benefício em Medicamentos (PBMs), subsídios farmacêuticos ou modelos de coparticipação inteligente surge como alternativa para garantir a atratividade e retenção de talentos sem colapsar o orçamento de Recursos Humanos.

Contudo, a transição exige cautela educacional. Paula Gallo, diretora de Gestão de Saúde e Riscos da Alper Seguros, destaca que o modelo de benefícios flexíveis esbarra na maturidade de escolha dos próprios colaboradores.

A executiva aponta para uma assimetria geracional no uso desses recursos. “Já vivenciamos que a população mais jovem tende a investir mais em cuidados de saúde do tipo academia, alimentação e transporte do que em preventivos para planos de saúde. E isso pode ser um risco, pois, apesar da juventude, estarão sujeitos a urgências e emergências que não conseguiriam financiar se não tiverem o respaldo de um plano de saúde, mesmo que básico. Esse cuidado precisa ser gerenciado”, explica.

Ecossistema de bem-estar vs. plano clássico

A ascensão das canetinhas emagrecedoras reforça a tendência de transição do conceito tradicional de “plano de saúde” para um “ecossistema de bem-estar”. No entanto, a Alper descarta uma substituição completa do modelo tradicional.

“Não vemos uma substituição completa, e sim uma complementação de modelos que atuarão juntos e sinergicamente, pois tivemos um aumento da população brasileira que recorre a planos de saúde também”, afirma Paula Gallo. Para a executiva, a diversificação das ferramentas de custeio reflete a evolução do mercado. “Isto tudo é um sinal de amadurecimento dos modelos e torcemos para que continuem evoluindo, pois só assim conseguiremos frear o aumento sempre acima da inflação dos custos com planos de saúde.”





Obrigado por comentar!
Erro!
Contato
+55 11 5561-6553
Av. Rouxinol, 84, cj. 92
Indianópolis - São Paulo/SP