Por que a saúde não terá escala sem inteligência artificial
30/07/2026

O Brasil está envelhecendo em uma velocidade que poucos setores parecem preparados para enfrentar. A população acima de 60 anos já cresce mais rapidamente do que as faixas mais jovens e a expectativa é de uma pressão crescente sobre o sistema de saúde nas próximas décadas. Mais pessoas vivendo mais tempo é uma conquista. Mas também significa mais doenças crônicas, mais consultas, mais exames e uma necessidade maior de acompanhamento contínuo.

Não haverá médicos suficientes nem expansão física capaz de sustentar esse crescimento se continuarmos operando com a mesma lógica administrativa de hoje. Como ampliar acesso e capacidade sem colapsar profissionais e estruturas?

Grande parte do debate sobre inteligência artificial na saúde ainda está concentrada em diagnósticos complexos, exames e descobertas clínicas. Tudo isso é relevante. Mas talvez a transformação mais urgente esteja na gestão da operação, algo menos visível porém muito mais determinante para a sustentabilidade do sistema.

A rotina da saúde continua marcada por gargalos administrativos. Agendas fragmentadas, faltas sem reposição, dificuldade de contato com pacientes, excesso de tarefas burocráticas e prontuários pouco funcionais ainda consomem tempo demais de equipes médicas e administrativas.

É nesse ponto que a inteligência artificial passa a ser uma solução, e uma necessidade estrutural.

A última edição da Pesquisa TIC Saúde 2025 mostra um setor em transição. Apenas 18% dos estabelecimentos de saúde utilizam inteligência artificial no Brasil atualmente. Entre aqueles que adotaram a tecnologia, o principal uso está justamente na organização de processos clínicos e administrativos, superando aplicações ligadas diretamente ao tratamento.

O dado faz sentido. O maior desperdício da saúde talvez não esteja dentro do consultório, mas ao redor dele. A própria TIC Saúde mostra uma demanda crescente por digitalização da relação entre clínicas e pacientes. O agendamento online de consultas subiu de 30% para 34% entre 2023 e 2025. O agendamento digital de exames passou de 27% para 32%. Já a interação online entre pacientes e equipes de saúde mais do que dobrou no período, saltando de 16% para 35%.

Ao mesmo tempo, apenas 17% dos estabelecimentos oferecem visualização digital do prontuário ao paciente.
O setor já começou a mudar, mas ainda opera muito abaixo do potencial tecnológico disponível.

A boa notícia é que a infraestrutura existe. Hoje, 92% dos estabelecimentos já utilizam sistemas eletrônicos para registro de informações dos pacientes e 99% usam computadores.

O problema deixou de ser acesso à tecnologia. O desafio passou a ser implementação, e a inteligência artificial generativa finalmente começa a oferecer uma resposta para parte desse gargalo.

Essa onda de digitalização é diferente, não adianta apenas transferir a burocracia do papel para telas pouco intuitivas, como foi feito no passado. A nova geração de IA tem potencial para simplificar a operação da saúde. E isso vale especialmente para clínicas de pequeno e médio porte, onde equipes enxutas convivem diariamente com sobrecarga administrativa.

A tecnologia pode automatizar agendamentos, confirmações, cancelamentos e remarcações de consultas. Pode organizar fluxos administrativos, reduzir faltas, responder pacientes fora do horário comercial e tornar prontuários mais úteis e contextuais, com acesso rápido a informações sem exigir que médicos naveguem por sistemas fragmentados.

O ponto central não é substituir médicos ou automatizar o cuidado. É reduzir fricção. É retirar peso operacional de um sistema que já trabalha sob pressão crescente e permitir que profissionais concentrem energia onde realmente geram valor, na relação com o paciente e na tomada de decisão clínica.

O envelhecimento da população não é uma hipótese, é uma realidade em curso. E um sistema de saúde pressionado pela demanda simplesmente não ganhará escala sem inteligência artificial.


*Thomaz Srougi é fundador e chairman do dr.consulta e fundador e CEO da Carecode.





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